Um olhar jornalístico sobre o universo dos terroristas suicidas

Especial Reino Unido

Luciana Gurgel

Por Luciana Gurgel (https://twitter.com/lcnqgur?lang=pt), especial para o J&Cia

Se no Brasil vive-se sob a ameaça da violência urbana, em boa parte do mundo é o terrorismo que assombra. Para entender esses dois fenômenos, nada melhor do que as lições de um dos mais premiados jornalistas investigativos britânicos, Iain Overton.

Iain Overton

Ele vem pesquisando o flagelo provocado por essas formas de violência desde 2015, quando lançou seu primeiro livro, Gun Baby Gun, aberto com uma pungente descrição do assassinato de uma mulher na periferia de São Paulo.

Seu novo livro, The Price of Paradise, mergulha no universo dos terroristas suicidas. Em uma conversa na Associação de Correspondentes Estrangeiros em Londres, Iain destacou números impressionantes: mais de 250 mil pessoas já morreram vítimas desse tipo de atentado, 40% das quais nos últimos cinco anos. Sete entre dez dos piores atos terroristas ocorridos entre 2011 e 2018 foram perpetrados por suicidas.

O trabalho de Overton é mais do que uma extensa reportagem. É uma aula de história. Começa pelo que classifica como o primeiro ataque suicida, que vitimou o Tsar Alexander II na Rússia, em 1881. Passa pelos kamikazes japoneses a partir de 1944 – na batalha de Okinawa foram 1.465 ataques – até chegar aos tempos recentes, discorrendo sobre as principais organizações extremistas como Estado Islâmico, Al-Qaeda, Taliban e Boko Haram.

O livro tem narrativa de novela, com personagens reais e situações descritas de forma pictórica. Há  passagens chocantes, como as do uso de pessoas com deficiência para ataques. Os relatos impressionam. Em cada história, Iain mostra a vida por trás dos atos que por vezes merecem poucas linhas nas editorias internacionais dos jornais.

Bons exemplos são o caso do terrorista iraniano de 13 anos convertido pelo regime em símbolo de martírio em 1980, a ponto de ter a fisionomia estampada em selos postais. Ou o do extremista da Cisjordânia explicando porque decidiu tornar-se um homem-bomba.

Ele procura entender o que motiva pessoas tão diferentes e em épocas diversas a cometer tais atos, indo além da simplista tese do “extremismo islâmico” – comprovado pelo fato de que a história registra terroristas suicidas coreanos, japoneses, alemães, italianos, britânicos, indianos e norte-americanos, não ligados ao Islã. Utopia de um mundo perfeito, militarismo, nacionalismo e sentimento apocalíptico são alguns dos motivos.

A discussão da responsabilidade da mídia é abordada. Overton narra o papel de títulos sensacionalistas como o Daily Mail no estímulo ao sentimento anti-islâmico, avalia o impacto provocado pela cobertura online de atos terroristas e a apropriação do tema pela indústria do cinema, questionando os limites tênues entre interesse público e exagero que alimenta posições extremadas.

Uma curiosidade levantada é a pouca mobilização de organizações quanto ao terrorismo suicida, a despeito de morrerem mais pessoas por esses atos do que por minas terrestres ou ataques aéreos. Ele acredita que se torna mais fácil combater um tipo de armamento que depende de decisão política (como banimento de certas armas) do que o universo difuso dos homens-bomba, que se utilizam geralmente de artefatos de fabricação caseira, usando ingredientes simples como solvente ou cloro.

Semelhanças com a violência do Brasil – Perguntei se existe paralelo entre os terroristas suicidas e os jovens brasileiros que entram para o crime sabendo que terão vida curta. Ele, que viajou por cinco estados brasileiros para entender nossa violência urbana antes de escrever o livro sobre armas, vê linhas comuns, como o desejo de fazer parte de um grupo – o que chama de gang identity. Outras são a pouca importância à segurança pessoal, e a revolta contra o estado das coisas.

“Assassinos que entrevistei no Brasil e no Oriente médio são invariavelmente jovens de baixa renda dominados pela raiva. Rejeitam as estruturas de poder, acham que as elites são corruptas. Não querem estabelecer um novo mundo – sua satisfação é ver o mundo existente destruído”, disse Iain.

Além de escrever livros e fazer documentários, Iain transformou o discurso em prática. Fundou a organização Action on Armed Violence (AOAV), dedicada a advogar pela redução da violência armada. Acompanhando com preocupação os movimentos de liberalização do uso de armas, o jornalista não tem dúvidas de que mais armas levam a mais homicídios, mortes por forças policiais e suicídios. Com trabalhos  em vários países, sua organização já atuou no Brasil, em parceria com ONGs como Instituto Igarapé e Sou da Paz.

Seu livro recém-lançado The Price of Paradise (somente em inglês, disponível na Amazon), não é uma leitura leve. Mas vale cada página.

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