Pergunta certa e lugar do outro

Por Ceila Santos

Ceila Santos

Fazer pergunta é ferramenta para todo jornalista. Dentro de uma coletiva de imprensa, quando a pergunta é a certa, a ferramenta transforma o jornalista em autoridade entre os colegas. Tal transformação alimenta a alma e motiva nossa atenção para atingir sempre a pergunta certa diante da fonte que lhe trará o conteúdo.

Se houver incentivo, então, como os prêmios imprensa, maior a capacidade de concentrar a atenção no fazer a pergunta certa e encontrar o conteúdo que se deseja, seja aquele que denuncia ou o que conecta com a necessidade do público.

Isso foi o que vivi como jornalista dos anos 1990 até a primeira década do novo milênio. Aprendi a concentrar atenção no conteúdo e buscar o lead pra vencer os prêmios.

Parece que Jô Elias também viveu o hábito de concentrar sua atenção no conteúdo antes de receber o chacoalhão da head hunter Fátima Zorzato que contribuiu para virada dela ao corporativo: “Como jornalista, pessoa de conteúdo, você sabe fazer as perguntas certas, domina bem esse conhecimento, mas para falar com corporativo, você vai perder o jogo senão aprender a se colocar no lugar do outro”.

O “lugar do outro” que todo jornalista pode aprender para ocupar a gestão da comunicação corporativa é uma chacoalhadinha na cabeça, um “piscar de olhos” do uso da nossa atenção, como ensina Jô: Quando você é repórter, se interessa pela história dos outros e quer contá-la de forma que seja interessante a outras tantas pessoas. Na empresa não é diferente. Eu procuro me colocar no lugar de quem precisa comunicar seu produto, seu serviço, sua imagem institucional, para entender às suas necessidades e, então, encontrar a melhor estratégia”.

Jô deixa claro o quanto o jornalista pode mediar qualquer relação entre conteúdo e públicos. Também não tenho dúvida dessa capacidade. A pergunta é: o quanto você já reconheceu que ser mediador é usar as suas habilidades de atenção e foco?

Cada ser e o Ser Maior

Pergunto isso porque, dentro das organizações, colocar-se no “lugar do outro” é compreender como cada pessoa pensa, sente e age diante daquela estrutura organizacional, da posição que ocupa e da forma como se relaciona com as tarefas que entrega. De novo, um mediar de relações… só que desta vez o pedido é de escuta e simultaneidade.

Para entender cada pessoa, a gente olha para a natureza do ser humano, com suas generalidades e especificidades, através dos arquétipos. Olhar para cada pessoa, a partir de como ela pensa, sente e age na sua relação com o contorno organizacional, que tem uma estrutura viva e que pulsa de acordo com os objetivos, as atitudes e as capacidades das lideranças, é a ferramenta do profissional de desenvolvimento.

Dentro de uma facilitação, quando a escuta é profunda, as ferramentas citadas transformam o facilitador em parte do Todo, o Ser Maior, que é a própria organização. “Ver todo sistema como um só ser em vez de focalizar cada parte componente”, ensina Allan Kaplan, um dos meus mestres na área de desenvolvimento. E continua: “Depois, precisamos aprender a compreender os padrões arquetípicos que permeiam o processo humano e social e, por outro lado, a ler a unicidade dos caminhos individuais que se manifestam através desses padrões arquetípicos”.

A atenção e o foco do jornalista contribuem para desenvolver a escuta e a simultaneidade porque são habilidades opostas, mas dentro do mesmo âmbito sutil: o conhecimento. Há, no entanto, uma “fórmula” que contribui exponencialmente caso haja o desejo de exercer uma liderança colaborativa: o autoconhecimento. Esse foi o grande ouro que recebi desta conversa com Jô Elias, que, ao ser questionada sobre a origem de ela ter uma linguagem de liderança diferenciada, respondeu que eram seus anos de terapia com Rodinéia Padilha, sua psicanalista kleiniana, que faleceu em 2018.

“Foi meu MBA da Alma”, revelou Jô. Agradeço, celebro e grito: uhu, ouro, ouro, ouro! Achei a líder que reconhece o valor do autoconhecimento para liderar equipes, negócios e mensagens”. Obrigada, Maria José Elias! Fiquei tão entusiasmada com o reconhecimento de Jô para liderar a comunicação da Tereos que nem percebi o efeito do prêmio que ganhei como profissional de desenvolvimento e colunista deste editorial. Agora, sim, posso despedir-me da pele de jornalista para disseminar a Liderança Colaborativa, grata aos sete entrevistados – das edições 1.250 a 1.264 − que tiveram sua virada com a referência do jornalismo.

Pois, liderar de forma colaborativa só é possível para quem o conhece suficientemente a ponto de identificar as vozes internas que as impede de escutar o outro, o diferente e o futuro. Que venha o meio do caminho: as Relações Públicas!


Jô Elias

Box do Líder

Jô Elias

TEREOS

Líder: Global

Filosofia: dar o exemplo, ouvir as pessoas, entender as diferenças de estilo para tirar o melhor de cada um. Enquadrar todo mundo para fazer as coisas do seu jeito é um desastre. Pode até gerar resultado mediano, mas não dá pra esperar criatividade e inovação.

Referência: Sheryl Sandberg

Tempo da Jornada

Jornalismo: 13 anos

Destaque: JT, RNT, IDG e Clarín

RP: não atuou em agências de comunicação

Corporativo: 14 anos

Destaque: Nokia, Microsoft e Tereos

Formação: Comunicação Social – Universidade Metodista de São Paulo

Ela traz a diversidade cultural no DNA. Do lado materno, o gosto pela música – sua mãe trabalhou 36 anos na gravadora Copacabana. Do pai, que já foi locutor de rádio e passou pelas antigas Vasp e Varig, veio o interesse por fotografias e viagens. O reflexo surge nos idiomas. Fala inglês, francês e espanhol, o que contribuiu muito com sua jornada global.

Começou sua carreira no extinto Jornal da Tarde,com uma coluna sobre videogames, ideia do então diretor de Redação Fernão Lara Mesquita. “Uma oportunidade de ouro para uma foca ter coluna assinada”, conta. Foi nessa época – depois de algumas confusões com seu nome – que Maria José Elias decidiu assumir o na sua assinatura.

Passou por curto período no IDGNow!, onde aprendeu tudo sobre internet e chegou no divisor de águas em sua carreira convidada por Vivien Rosso: o Cidade Internet, portal do Clarín no Brasil. “Foi minha primeira experiência como executiva. Montei uma equipe de 40 pessoas, incluindo profissionais de áudio e vídeo, para o portal Cidade Internet, numa época em que a banda larga engatinhava”. Seu próximo passo a levou ao fenômeno Telecom, quando rolava a fertilidade da banda larga móvel e Jô Elias tornou-se editora da RNT.

A hora da virada veio com a Nokia, quando Yolande Pineda apostou na potência de Jô como gerente para o Brasil. “Tive a sorte de começar a comunicação corporativa numa forte cultura globalizada”. Quando a Nokia vendeu sua área mobile, juntou-se ao time Microsoft na América Latina.

Em 2017, Jô Elias achou que era hora de desbravar um terreno novo. Viu a chance de aprender algo do zero e conhecer o agronegócio com a proposta da Tereos, empresa francesa líder do setor sucroenergético. “Eu, um bicho da cidade, paguei o mico de ir de sapatilha na minha primeira visita ao canavial…”, conta. O fato de falar francês ajudou, mas o que Jô acredita que faça mesmo a diferença é seu interesse pelo outro. Sem dúvida, o interesse e a prática da escuta para liderar negócios, mensagens e pessoas.

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