Na linha do tempo

José Luiz Schiavoni

Por Ceila Santos

Ceila Santos

Eu o conheci na época que vivi o auge da minha carreira de jornalista. Não fui próxima, não tive vínculo nem soube das peculiaridades que o classificaram como o líder mais votado da pesquisa que realizei em junho deste ano e trouxe também Viviane Mansi entre os 22 citados. Era começo do milênio. Dos altos e imperativos emocionais que vivia dos meus 26 anos sabia apenas que: “O era o cara que tinha feito junto com Ronaldo a virada na hora certa, com a chegada da Microsoft no Brasil”.

Vinte anos depois, em plena pandemia de inverno, descubro que o marco da virada do José Luiz Schiavoni aconteceu antes do vínculo com a Microsoft, pois o impulso que gerou a transformação dos jornalistas de TI em donos da S2 foi a percepção da oportunidade de negócio:

“O Brasil estava numa corrida presidencial entre Collor e Lula. Havia uma possibilidade de abertura comercial do mercado, com Collor ganhando. Recebia muita comunicação de fora do Brasil. Não tinha internet. Montar uma empresa de comunicação corporativa não dava certo porque éramos editores e, se conseguíssemos criar uma agência com propósito jornalístico, talvez, conseguiríamos nos diferenciar do mercado”, conta Zé, quando teve o seu estalo junto com Ronaldo Souza para se tornar empresário.

Sem dúvida, ele é o líder que traz o valor da LINHA DO TEMPO para quem deseja realizar uma Liderança Colaborativa. Um valor que se aprende desde cedo nas universidades, que se baseia na dialética do materialismo de Marx para fundamentar a ação comum, que se esconde na palavra COMUNICAÇÃO. O valor da pesquisa, da experiência, da percepção e da escolha de olhar o passado não só para saudá-lo e discernir do presente, mas, acima de tudo, para compreendê-lo.

“Quem não fundamenta sua ação em compreensão comporta-se como um cavalo cego”, ensina o pensador holandês que pesquiso profundamente desde que iniciei essa jornada: Lex Bos, que citei no primeiro artigo desta coluna, com Leandro Modé.

Novos Tempos

Não foi o valor do tempo que me impressionou no dia em que ouvi Zé por quase quatro horas ainda no coração do meu Brasil, em São Tomás de Aquino. Naquele dia de julho, depois de receber o presente da lucidez e da memória do atual CEO da Weber Shandwick, eu me senti plena e integrada com o valor da consciência econômica. Zé tinha a mesma força que reconheci em Priscilla Naglieri da relação do trabalho com a superação das necessidades econômicas.

Ele trazia no discurso a clareza da função do trabalho como jornalista desde quando ocupou o papel de análise de produtos da revista Somtrês em vez de fazer parte do grupo dos talentosos. Ele não podia fazer parte deste grupo, mas daqueles que precisam de salário para trabalhar na entrega da informação.

Vale esclarecer a contradição que se cria, na frase anterior, entre talento e necessidade para a parte da nossa mente acostumada a julgar o não pelo sim. Há muitos talentos, no Brasil, que vêm integrados com a mochila da necessidade econômica. Zé conta sua trajetória com a sabedoria de quem viveu o pulo da governança, tão cega entre a maioria dos comunicadores que segue a paixão da prática na medida da capacidade do talento sem considerar a régua da necessidade.

Com a calma e a simplicidade de um bom contador de estórias, ele usa as palavras para dar um tom de humildade que fica oculta, sua verdadeira capacidade, e deixa, nas entrelinhas, a consciência adquirida da lição, que eu ainda não aprendi no exercício da escrita.

Zé conta que, na década de 80 do século passado, a revista Somtrês era dividida em duas grandes áreas: análise de músicas, da qual fazia parte o grupo dos talentosos, e análise de equipamentos sonoros, da qual o Zé fazia parte: “Não me julgava capacitado pra fazer o que o grupo dos talentosos fazia: eu te dou disco, você analisa e o pagamento da sua escrita é o próprio disco analisado. Fui trabalhar em análise de equipamentos sonoros, receivers, amplicadores, toca-discos, aparelhos 3 em 1, que pagavam em dinheiro. Assim, fazia uma troca mais justa”.

Escuta do Dono

Saí da escuta da trajetória daquele jornalista − que teve o estalo antes da chegada de Collor, virou o jogo das agências com articulação associativa, foi pioneiro na onda das aquisições globais e tornou-se executivo da organização da qual tinha sido acionista – com uma sensação bem diferente de ouvir um líder que gerencia uma área de comunicação.

Era a primeira vez que ouvia um dono. Antes, sentia apenas a liderança de uma área. Por isso, a sensação de vazio e indignação, que expressei no artigo da Viviane Mansi. Agora, eu conhecia a diferença do jornalista que aprende a ser empresário, escolhe agir associativamente para lidar com a burocracia brasileira, torna-se acionista e vira executivo global. São lugares muito diferentes e eles mudam a tecitura da alma.

O exemplo da virada do Zé impactou a minha coluna social. Entendi o percurso que vivi com Leandro, Nelson e Pedro na busca pelo discurso da governança até chegar na digestão do meu processo pessoal, de aceitar e integrar a jornalista em mim – etapa que só foi possível a partir da escuta das seis mulheres, que ouvi antes do cara que virou manchete do Estadão com a venda da sua agência.

Zé iluminou o tempo da doação que faço ao querer ressignificar o jornalismo no mundo. Adoraria continuar a escuta das histórias de líderes da comunicação, trazer o reconhecimento que todo profissional que atingiu o topo das hierarquias organizacionais merece, mas não há mercado pra isso. É hora de transformar a minha história. Sinto muito, assessorias!

Como diz o generoso Edu: “É preciso criar asas quando o propósito chega ao fim”. Primavera chegou, pandemia ganha novo ano (2019-2021) e anuncio o fim da coluna Liderança Colaborativa na newsletter Jornalistas & Cia.

É um anúncio, não o fim. Fecho o ciclo, em dezembro, com quem comecei: Leandro Modé, seguindo a Teoria U, do Otto Scharmer, que ensina que é hora de voltar aos primeiros stakeholders quando ainda não se vê luz no fim do túnel. Entre Zé e Leandro, entrevistei mais dois donos de agência e, em breve, conversarei com duas mulheres e, assim, fecho meu ciclo de março, que veio ao mundo para celebrar o Dia do Jornalista. Obrigada!

José Luiz Schiavoni
CEO Weber Shandwick
Linha do Tempo dos Papéis

1979 a 1982 – Universitário
Instituição: ECA/USP

1982 a 1989 – Jornalista  
Veículos: Revista Somtrês (1983), Folha de S Paulo (1983 e 1984), revistas Micro&Video, Programação e MSX Micro (Fonte Editorial – 1984 e 1985), jornais MicroMundo e Data News, IDG 1986 a 1989)

1989-2016 – Empresário
Agências: S2, S2 Publicom e Weber Shandwick

2004-2008 – Presidente (2020- Vice-presidente)
Entidade: ABRACOM

2017 – 2020 – Executivo
Agência: Weber Shandwick

Ouvir a trajetória do Zé me fez pensar quanto o tempo contribui para quem é atento a ele. Sua escolha em analisar a tecnologia em vez da cultura no início da sua carreira permitiu-lhe perceber a virada que a abertura do mercado traria com o glamour das TICs. Ele cita muita gente conhecida da sua época de grande imprensa: Jose Eduardo Mendonça, Mauricio Kubruzli, Matinas Suzuki, Alda Campos.Para a virada da S2, no entanto, foi mesmo sua atenção ao negócio, que lhe permitiu reconhecer a fortaleza que tinha se tornado fraqueza da agência. Ele diversificou a clientela na hora certa. Na parceria com Aldo de Luca e Luciana Gurgel, o tempo veio de novo lhe visitar e, depois do acordo entre S2 e Publicom, chegou a hora de ser minoritário. Ele aprendeu o tempo dos acordos: os longos, que o levou a tornar-se executivo global. Vale um livro conhecer a vivência de governança do Zé e o modelo que ele replicou para adquirir a Cappucino, em 2018.

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