Memórias da Redação – Altevir e Alexandre

Esta semana temos nova contribuição de Eduardo Brito, editor de Política do Jornal de Brasília.

Altevir e Alexandre

Baixinho, bigodudo e riquíssimo, o senador Altevir Leal gostava de rebocar jornalistas para almoçar com ele no restaurante do Senado, no final dos anos 1970 e começo dos 80. Fazia isso menos para se promover, pois tinha pouco a contar, e mais para se informar e principalmente para ter companhia. Representante do longínquo Acre, tinha poucos conhecidos em Brasília. As más línguas diziam que, nesses almoços, Altevir coçava a cabeça com o garfo e palitava os dentes com a faca. Maldade pura. Embora simples, Altevir era educadíssimo. Só não tinha voto. Por uma dessas maravilhas do sistema eleitoral brasileiro, Altevir teve dois mandatos de senador sem jamais ter recebido um único voto popular.

Sua vida política começara em 1970. Os candidatos da Arena ao Senado pelo Acre eram o general José Guiomard, considerado o pai do Estado, e o promissor deputado Geraldo Mesquita. Como de praxe, dois milionários locais foram arrolados como suplentes, para financiar a campanha. Eram Jorge Félix e Altevir Leal. Na hora de fechar a chapa, Jorge Félix bateu o pé. Queria a suplência do idoso Guiomard. Altevir conformou-se e ficou com Mesquita.

Era o ano do tricampeonato, do milagre brasileiro, da censura e da escalada da repressão. Beneficiária de tudo isso e principalmente da mordaça, a Arena venceu em todo o País. Guiomard e Mesquita se elegeram, derrotando o senador Oscar Passos, presidente nacional do oposicionista MDB. Sem mandato, Oscar Passos deixou o cargo, abrindo caminho para ninguém menos do que Ulysses Guimarães, iniciando sua épica jornada.

Eram também os tempos de governadores nomeados. Em meio ao mandato, Geraldo Mesquita foi escolhido governador do Acre pelo general de plantão. Altevir Leal ganhou quatro anos de mandato. Enquanto isso, José Guiomard permanecia firme e forte, para desespero de seu suplente.

Chegaram as eleições de 1978, com uma nova figura, criada pelo chamado Pacote de Abril. Era a eleição indireta de um dos dois senadores que teriam o mandato renovado e que, por isso mesmo, foram apelidados de biônicos. Tudo para evitar que a governista Arena perdesse a maioria no Senado. Na hora de preencher a vaga do Acre, nenhuma surpresa. O biônico seria o idoso José Guiomard. Podia ser entrado em anos, mas tinha ótima memória. Na hora de escolher o suplente, o velho vetou a recondução do seu.

– Esse aí apostou em minha morte. Vai o outro.

O outro, claro, era o feliz Altevir Leal. Aceitou a suplência, evitando disputar a outra vaga, a ser preenchida pelo voto direto. Passou-se algum tempo e José Guiomard morreu. Altevir Leal ganhou novo mandato, o segundo.

Foi então que o presidente Ernesto Geisel escolheu seu sucessor, o general João Baptista de Figueiredo. Uma vez ungido, mas ainda não eleito, Figueiredo abriu um escritório eleitoral no Hotel Aracoara, no centro de Brasília. Lá passava os dias, recebendo empresários e políticos. Uma festa. A turma fazia fila, sempre tendo em mãos um presente para o futuro presidente. Sabido que era o gosto do general por cavalos, apareciam às dúzias quadros e estátuas de quadrúpedes, levados pelos visitantes desejosos de cair nas boas graças de Figueiredo.

Como o poder estava se transferindo, jornais e emissoras destacaram para o Aracoara seus melhores repórteres. O Jornal do Brasil escolheu Alexandre Garcia, até essa época setorista da Presidência da República. Fica o registro de que, ratificada a indicação do general Figueiredo, Alexandre passaria a porta-voz do Planalto. De lá iniciaria uma nova carreira de sucesso na televisão, primeiro na Manchete e depois na Globo.             Lá estava Alexandre Garcia quando aparece ninguém menos do que Altevir Leal. Levando seu presentinho para o futuro presidente, o senador foi atendido com rapidez, conversou por cinco minutos e já saía quando Alexandre puxou conversa.

– Senador, foi conversa política?

– Sim, e muito boa.

– O senhor veio conversar sobre o quê?

– Minha candidatura a governador. (a essa altura, os governadores ainda eram nomeados, embora pela última vez)

– Mas o que, especificamente, sobre a candidatura?

– Vim saber se o presidente tem alguma coisa contra ela.

– E poderia ter?

– Bom, tem um probleminha de terras por lá…

Deve ter sido a mais curta candidatura a governador de todos os tempos. Grande proprietário de terras no Acre e em outros estados da região Norte, Altevir enfrentava acusações de grilagem, de invasão, de falta de titulação, mas até sua desastrada visita a Figueiredo ninguém falava disso em Brasília. Ele negava todas as denúncias, mas admitia – até por não ter como contestar – que suas terras ultrapassavam o máximo permitido para um só proprietário em municípios de fronteira.

Nunca mais se falou na pretensão de Altevir Leal ao governo. Ele ainda completou seu segundo mandato de senador e encerrou aí sua vida política sem jamais ter recebido voto popular.