Especial Dia do Jornalista: Repórter de alma interiorana

Ele já fez de tudo no jornalismo, de reportagem policial a cobertura de massacre de trabalhadores na zona rural e Copa do Mundo da França  Direitos humanos e sociais estão no seu DNA, destacando-se no currículo profissional, no qual despontam também fatos curiosos. Nas viagens pelo sertão do Brasil, chegou a ficar cara a cara com uma onça. Tremeu de medo, bastava um pulo do “gato” para ter virado uma refeição. Certa vez mentiu para aliviar a pressão numa batida policial, que abordou de forma pouco gentil a equipe de reportagem no meio da floresta, repleta de conflitos agrários. O temível episódio, no entanto, virou piada, como veremos mais adiante. Por fatos como estes, e centenas de outros, é que Marcelo Pasqualoto Canellas, um dos mais premiados jornalistas do Brasil, tem um sonho, que pretende realizar em breve: escrever um livro. “São 25 anos de estrada. Revendo as coberturas que fiz, as coisas que vi, percebi que é tudo ligado ao interior; meu sonho é escrever um livro com a alma interiorana”, afirmou Canellas numa rápida entrevista no saguão do aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Nos dias seguintes, seria quase impossível encaixar um tempo para bate-papo por causa da programação de uma reportagem que faria na capital paulista para o Fantástico, da Rede Globo, onde integra o núcleo de reportagem especial de Brasília. Embora possa ser encontrado num dia no Rio Grande do Sul, no outro no Pará, ou no chaco matogrossense, é em Brasília que está com a vida estruturada. Divorciado, dispensa prioridade aos dois filhos – Pedro, 11, e Gabriel, 7 –, de cuja companhia procura desfrutar em todos os momentos possíveis. O sentimento interiorano, no entanto, fala forte, mesmo envolvido pela urbanidade da Capital Federal. A compensação foi a compra de quatro hectares de terra, na região de Sobradinho, cidade-satélite da capital. No terreno tem pequenas plantações de feijão, milho, mandioca. “Pego os guris e vamos pra lá”, disse. Essa relação com a terra acompanha Canellas desde criança. Seu pai e um irmão são agrônomos e a mãe, professora de História. Ele próprio iniciou faculdade na área de Agronomia, mas logo percebeu que gostava de relatar acontecimentos em geral, e tinha muita curiosidade, especialmente por casos policiais. Não titubeou, direcionando os estudos para Jornalismo. Nasceu em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Pouco depois a família se mudou, fincando raízes em Santa Maria, local da tragédia que ceifou mais de duas centenas de vidas de jovens no início deste ano: “Sempre me imaginei fazendo uma grande matéria sobre a cidade, uma coisa diferente, nunca uma catástrofe. Pedi para ficar fora da cobertura. Relutei, mas acabei indo, só que com muita tristeza. Foi estranho”. Para se ter um idéia da paixão dele por Santa Maria, o pequeno sítio de Sobradinho é nominado  Boca do Monte, homenagem ao “sobrenome” popular pelo qual a cidade gaúcha é conhecida. Canellas guarda inúmeras recordações de Santa Maria, como as das atividades no movimento estudantil em meados da década de 1980, com a ditadura dando seus últimos suspiros. Foi presidente do centro acadêmico da faculdade e do DCE da Universidade Federal, e integrou a executiva nacional da UNE: “Era muita agitação, manifestação pra tudo, da educação a protesto contra aumento de passagem de ônibus”. Gostava das reuniões, e não perdia festa, sempre na agenda. O futebol idem. Perguntado se era bom de bola, só deu um sorriso, e explicou que atuava de volante, completando, “avançado”: “Eu adorava o Falcão”. Com 1,75 m e 78 kg, ainda hoje gostaria de bater uma bola, mas, aos 47 anos, é difícil arrumar turma nessa faixa etária. Então, resta a emoção dos jogos do Internacional, time do coração, do qual ele tem na ponta da língua todas as principais formações da década de 1970. E, no momento, está esperançoso com Dunga na direção da equipe: “Parece estar dando um jeito no time”. Semanalmente, o vínculo com o Sul é realçado pela crônica que escreve no Diário de Santa Maria. Foi nesta cidade que deu o pontapé inicial da atividade na tevê, na RBS, afiliada da Globo. Na época, os recursos limitados da emissora local, com equipe reduzida, levavam os jornalistas a fazerem um pouco de tudo, condição que o conduziu ao aprendizado de variadas funções na profissão. A coluna também tem espaço no jornal A Cidade, de Ribeirão Preto, interior paulista, o segundo centro onde trabalhou, durante cerca de três anos, e que praticamente abriu o sonhado espaço da grande reportagem, com a qual passou a mostrar sua competência na emissora. “Viajo demais, estou na Globo desde 1990”, afirmou, sem tom de reclamação. Ao contrário, gosta muito, bem como aprecia os “causos” com que topa nas suas andanças pelo País. O encontro com a onça, por exemplo, não foi exatamente uma surpresa. Sempre viaja em parceria com experientes repórteres cinematográficos, sendo os preferidos Luiz Quilião e Lúcio Alves. Já noite, chegou ao alojamento e estranhou Quilião empunhando um facão.  “Tem onça rondando”, ouviu o alerta. Acordou bem cedinho e riu ao ver o companheiro ainda abraçado ao facão e bradando: “Morro, mas morro peleando!”. Canellas afastou-se para esvaziar a bexiga no mato e quando se deu conta, a poucos metros, a onça, uma parda, o encarava. As pernas bambearam, um medo terrível atingiu a espinha como raio, só deu tempo de dar um berro, de susto. Foi a onça correndo para um lado e ele para o outro. Sorte que a bexiga já estava vazia. Hoje ele conta rindo. O caso da abordagem policial aconteceu numa estrada de fim de mundo, na região de São Félix do Araguaia, entre Tocantins e Mato Grosso, em 2007. Foi uma interceptação truculenta. O veículo em que a equipe viajava não portava nenhum logotipo para reconhecimento. Sem dar ouvidos às identificações verbais, os policiais foram logo mexendo na aparelhagem,  filmadoras, baterias. Assustado, Canellas decidiu apelar. Disse que os equipamentos eram monitorados por satélite. Portanto, em Brasília a emissora sabia onde eles estavam. Imediatamente, a postura dos policiais mudou e a equipe foi liberada. O satélite era um blefe. “Seu” Carlos, o sertanejo de cerca de 80 anos, contratado como guia para a reportagem, ainda muito assustado, e já distante dos policiais, aliviado, desabafou: “Deus seja louvado e abençoe esse tal de satélite”. A equipe caiu na gargalhada. Essas são curiosidades da vitoriosa carreira de Marcelo Canellas. Entretanto, não se pode deixar em branco, sem quaisquer citações, passagens de grandeza do desempenho de Canellas na reportagem, repleta de premiações. Foi assim nas coberturas do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, da chacina da Candelária, do massacre dos sem-terra em Eldorado dos Carajás, na série sobre a fome no Brasil, agraciada com a medalha ao mérito da ONU, entre outros prêmios. Neste Brasil de rincões inexplorados, e praticamente desconhecidos, produziu a série Vaqueiros e Peões, a série Terra do Meio, mostrando os conflitos agrários no sul do Pará (foi nessa reportagem que ocorreu a abordagem policial, contada por ele de forma descontraída, mas que mostrou como era a tensão e a truculência na região, exigindo coragem na cobertura jornalística). Currículo invejável, que gera expectativa por futuras reportagens, e pelo novo e sonhado desafio, o livro.