Twitter vira campo minado para celebridades e jornalistas

J.K.Rowling

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

Antes de as plataformas digitais nascerem, opiniões polêmicas já causavam danos pessoais a celebridades e constrangiam organizações cujos profissionais se expressavam sem alinhamento ao pensamento da companhia. Mas o advento das mídias sociais alçou tal risco à estratosfera, porque os efeitos negativos podem agora rapidamente ganhar dimensão planetária.

O pesadelo da autora britânica J.K. Rowling é emblemático. Um comentário feito pela criadora da série Harry Potter no Twitter há duas semanas desencadeou uma volumosa onda negativa. E fez refletir sobre cuidados que pessoas públicas precisam ter ao se posicionarem sobre questões sensíveis.

Rowling ironizou a forma como uma ONG dedicada a prevenir o suicídio na comunidade de transgêneros referiu-se a pessoas que nasceram com sexo feminino − chamando-as de “pessoas que menstruam“, em vez de mulheres. A reprimenda veio de Daniel Radcliffe, que encarnou Potter nas telas. Ele defendeu os direitos dos que declaram pertencer a um determinado sexo independentemente de como nasceram, ganhando adesão de atores, personalidades e ativistas.

Sob a ótica da gestão de crises, a reação de J.K.Rowling foi desastrosa. Um pedido de desculpas talvez estancasse a sangria. Mas justificativas frágeis e a arriscada ideia de buscar empatia revelando-se vítima de violência doméstica pelo ex-marido fez tudo piorar.

Na semana passada a reservada escritora teve sua intimidade exposta nas capas dos principais jornais britânicos. E não parou de ser enxovalhada nas redes.

A história tirou do ostracismo o ex-marido da autora, de nacionalidade portuguesa. E valeu ao tabloide The Sun reprovações pela capa da última sexta-feira (12/6). Entrevistado pelo jornal, o moço confirmou a agressão e sustentou que não se arrependia, para desespero de entidades que classificaram a manchete como apologia à violência familiar.

Jornalistas tuiteiros na berlinda − O episódio pode causar prejuízos à carreira de Rowling, pelo risco de boicote aos livros e a projetos futuros. Mas os efeitos são restritos a ela, que não deve ficar pobre se perder alguns contratos. Menos rica, talvez.

As coisas se complicam, porém, quando uma postagem afeta a corporação a que o autor pertence. E se agravam quando a corporação é uma empresa jornalística, dedicada a entregar informação isenta. Ou alinhada a uma posição ideológica que faz parte de sua história. Ou exclusiva.

A atividade dos jornalistas políticos britânicos nas redes sociais, sobretudo no Twitter, é intensa. De vez em quando há uma saia-justa. Nos bastidores o questionamento sobre a prática vem ganhando corpo.

A BBC é o alvo principal, por ser pública. Multiplicam-se os casos de profissionais da emissora criticados por postagens em suas contas.

Dois renomados jornalistas que exerceram cargos executivos − Lionel Barber, que dirigiu a redação do Financial Times, e Will Lewis, ex-chefe da Dow Jones e Wall Street Journal − expressaram nos últimos dias preocupação com o problema durante uma conferência digital promovida pelo think-tank Centre of Study for Financial Innovation.

Barber acha que jornalistas devem ser mais cuidadosos no uso das mídias sociais, pois seus canais têm sido tratados como plataformas individuais, exibindo comentários e não notícias. Para ele, para evitar interpretações equivocadas, não é suficiente ressalvar que as opiniões são pessoais e não da empresa.

Já Lewis deplorou a postagem de matérias antes de chegarem aos leitores, observando que os que pagam pela notícia deveriam ser os primeiros a recebê-la. Ele foi duro, instando os jornalistas a cessarem com a prática, que vê como “imprópria”.

É um movimento que caminha na direção de criar regras para o uso de mídias sociais. Mas esbarra numa pedrinha chamada liberdade de expressão. Se encontrar um equilíbrio, o padrão estabelecido por organizações de mídia britânica que estão debruçadas sobre o tema pode inspirar outros grupos a seguirem o modelo.

1 comment

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  1. Uma mídia no qual não tem censura com toda certeza terá conflitos. Qualquer pessoa pode postar o que quiser. Se pelo menos o bom senso fosse considerado, mas o que é normal para aulgum, não necessariamente é para outros.

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