Por Assis Ângelo
– Maria, você ainda pergunta se há mais coincidências ou algo assim na vida desses dois grandes craques da nossa literatura. Pois bem, vamos lá: Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho, nasceu por volta das 8h30 do dia 21 de junho de 1839. E o nosso João Guimarães Rosa morreu por volta dessa mesma hora, só que no dia 19 de novembro de 1967. Ambos morreram no Rio.
– Puxa! Os kardecistas sabem disso?
– Saber, não sei. Mas sei que os dois não eram assim tão religiosos seguidores das leis do nosso Deus do céu. Isso, aliás, fica muito claro nas falas e expressões dos personagens de Rosa e Machado. Os dois eram mais ou menos como o bom baiano Jorge Amado, que trocava a frequência das igrejas por terreiros de Umbanda.
– E aquela história de Rosa não gostar de Machado? É verdade?
– Flor Maria, quem garante isso não sou eu, não. Quem diz isso é o próprio Rosa, em manuscritos publicados, pelo menos em parte, numa das edições da revista piauí (2006):
“Não pretendo ler mais Machado de Assis, a não ser nos seus afamados contos. Talvez, também o começo de Dom Casmurro, do qual já li crítica que me despertou curiosidade.
Não pretendo mais lê-lo, por vários motivos: acho-o antipático de estilo, cheio de atitudes para ‘embasbacar o indígena’; lança mão de artifícios baratos, querendo forçar a nota de originalidade; anda sempre no mesmo trote pernóstico, o que torna tediosa a sua leitura. Há trechos bons, mas mesmo assim inferiores aos dos autores ingleses que lhe serviram de modelo. Quanto às ideias, nada mais do que uma desoladora dissecação do egoísmo e, o que é pior, da mais desprezível forma de egoísmo: o egoísmo dos introvertidos inteligentes. Bem, basta; chega de Machado de Assis.”

– Caraca!
– Pois é, dona Flor, o Rosa não era brinquedo não.
O mineiro de Codisburgo João Guimarães Rosa, filho de Floduardo e Francisca, já nasceu sabido e, como diria minha santa avó Alcina, com uma baita e brilhante estrela grudada na testa. A rigor, estudou muito e muito aprendeu para poder sobreviver acima da carne seca. Entrou na faculdade de Medicina com 16 anos de idade. Quatro anos depois estava formado, com canudo e tudo guardado num local qualquer de casa. Em 1929, começou a publicar textos literários na extinta revista O Cruzeiro, do paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (1892-1968). No total, foram quatro contos publicados na referida revista.
– Assis, foi então nessa revista que o Rosa estreou?
– Sim, sim. Mas ele não optou por seguir carreira jornalística. Em 1931, já representava o Brasil como cônsul em Hamburgo, na Alemanha. Quando estourou a 2ª Guerra Mundial, o nosso escritor lá firme estava, observando e agindo como grande cidadão que foi. Dona Aracy, sua mulher de segunda núpcias, salvou muitas famílias judias da ira do maior assassino em massa que o mundo já viu: Hitler. Ficou conhecida como O Anjo de Hamburgo.

– Muito bem, interessante essa história. Mas eu fiquei com uma coisinha assim me incomodando atrás da orelha…
– Vai, vai Maria. Desembucha!
– Sabe, Assis, é aquele poeminha em que você começa falando como se a personagem fosse mulher. É aquele que começa assim: “Não sou cega nem surda/E só ouço o que quero ver…”.
– Ah! sim. Lembro, claro. Passo pra frente o que me contaram. Ali lembro de uma mulher que enaltecia a personagem rosiana.
– E quem era essa mulher?
– Como disse, passo pra frente. Vamos lá:
Cantava e tocava
Com graça e harmonia
E com um pinho ao peito
Peleja nunca perdia
Era como se fosse
O anjo da cantoria
Tudo ela falava
De tudo ela sabia
Contente ela contava
Coisas do dia a dia
E o povo encantado
A chamava de Maria…
– Então, o nome dela era Maria?
– Sim, sim. Pelo menos é o que as dicas indicam.
– E o sobrenome dela?

– Bom, à boca miúda diziam ser ela Maria dos Olhos Tortos. Essa Maria era uma cantadora repentista. Como costumam fazer os grandes improvisadores do repente, Maria dos Olhos Tortos era, ao que dizem, uma leitora contumaz de tudo que lhe caía às mãos. Parece, segundo alguns, que era mineira do interior. Não sei quando nasceu e quando morreu. Também não sei dizer com firmeza se existiu ou não existiu.
– Poxa, pena. Mas mudando de pato pra ganso, é sabido que muitos dos nossos escritores começaram a carreira como jornalistas. Isso ocorreu com Guimarães Rosa?
– A respeito a gente conversa melhor depois.
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