Por Álvaro Bufarah (*)

Dizem que o rádio é o mais resiliente dos meios. Sobreviveu à TV, engoliu a fita cassete, ignorou o CD e reinventou-se no streaming. Mas, em 2026, o centenário veículo enfrenta um rival que não quer apenas disputar audiência; ele quer mimetizar a alma do negócio. A inteligência artificial generativa (GenAI), que prometia eficiência cirúrgica às programações musicais, trombou com um muro invisível, porém intransponível: a rejeição estética e cultural do ouvinte.

Para quem atua nos bastidores das grandes redes e agências brasileiras há mais de uma década, o veredicto recente da Techsurvey 2026, tradicional pesquisa anual da consultoria norte-americana Jacobs Media, traz um alívio misturado com um severo aviso de navegação. Quase três quartos dos ouvintes de rádio comercial afirmam categoricamente que canções geradas por IA em suas estações favoritas seriam o fator decisivo para mudar de sintonia. O “não” foi sonoro.

(Crédito: barrettmedia.com)

O dado mais irônico – e que desmonta o clichê corporativo de que os jovens abraçam qualquer novidade tecnológica de olhos fechados – vem da Geração Z. Impressionantes 81% dos entrevistados dessa faixa etária apontaram um grave problema com a música sintética. Não se trata apenas de gosto melódico. Fred Jacobs, presidente da consultoria, destrinchou o óbvio que muitos executivos insistem em esquecer: o Spotify e outras plataformas de streaming algorítmico já enfrentam uma crise crônica de autenticidade ao inundar suas playlists com faixas criadas por softwares. Quando tudo é perfeito, nada é real.

Para os profissionais de comunicação que cruzaram a barreira dos 30 anos e moldaram suas carreiras sob o mantra da convergência digital, o mercado atual exige uma leitura fria desse cenário. Há um paradoxo claro em curso. Enquanto a rejeição à IA na arte e no entretenimento atinge picos históricos, o uso utilitário da tecnologia triplicou nos últimos dois anos. A própria Techsurvey mostra que os Millennials lideram essa adoção prática: 37% usam GenAI semanalmente para otimizar fluxos de trabalho ou estudos.

O medo da Geração Z – em que 81% manifestam preocupação profunda com o avanço veloz da tecnologia – tem raízes econômicas bem humanas. Eles estão lendo o mercado. Sabem que os artigos sobre demissões em massa causadas pela automação miram justamente as vagas de nível básico. A ansiedade geracional transformou a IA em um símbolo de precarização, não de modernidade.

Como o mercado responde a isso? No final de 2025, e consolidando-se ao longo deste ano de 2026, a iHeartMedia – gigante americana do áudio – desceu para o play com um posicionamento de marca agressivo e contracorrente: o selo Guaranteed Human (Humano Garantido). Em apresentações recentes de seus executivos, como o chief creative officer Rahul Sabnis, a empresa revelou dados que fundamentam a aposta. Embora 70% dos seus ouvintes utilizem ferramentas de IA em suas rotinas, 90% deles exigem que o conteúdo de mídia que consomem venha de um ser humano real.

O selo Guaranteed Human estampa podcasts e programações musicais da rede. A estratégia de marketing foi testada contra outras abordagens e obteve a melhor recepção histórica entre seis em cada dez ouvintes, com forte apelo no público feminino.

(Crédito: Linkedin)

Trazendo a provocação para o cenário brasileiro: qual tem sido o nosso diferencial na era da hiper-reprodução digital? A força do rádio e do podcasting nacional nunca foi o algoritmo; sempre foi o locutor que chama o ouvinte pelo nome no trânsito da Marginal Tietê ou da Avenida Brasil, o jornalista que hesita na voz ao dar uma notícia emocionante, a curadoria que surpreende.

O que a guinada global de 2026 prova aos comunicadores experientes é que a IA deve continuar sendo usada para automatizar os tubos, os processos e a burocracia dos nossos veículos. Mas a personalidade, a opinião e a imperfeição que gera empatia continuam sendo um monopólio estritamente biológico. Em um mercado saturado de conteúdos sintéticos perfeitos, a verdade – crua, falha e “humanamente garantida” – tornou-se o artigo de luxo mais valioso da comunicação.

 

Para saber mais:

Metodologia e Tendências da Pesquisa Anual: Jacobs Media Techsurvey 2026: What Radio Can’t Afford to Miss.

Dados sobre Envelhecimento da Audiência e Avanço Digital: Radio Ink: Techsurvey 2026 – Radio’s Core Aging Out Of Demo; Digital Gap Closing

Análise do Comportamento das Plataformas Digitais de Áudio: Barrett Media: Jacobs Media Techsurvey 2026 – AM/FM Radio Listening Hits All-Time Low as Digital Surges.

Bastidores e Números do Posicionamento “Humano Garantido”: [Radio Ink: iHeart CCO Crunches the Numbers Behind ‘Guaranteed Human’] (https://radioink.com/2026/05/15/iheart-cco-crunches the-numbers-behind-guaranteed-human/).

Apresentação Institucional da Campanha no Mercado de Mídia: iHeartMedia Insights: Guaranteed Human at CES 2026 – Real Voices Drive Real Outcomes.

Lançamento Nacional e Estrutura da Campanha da Rede de Rádios: Editor and Publisher: iHeartMedia makes ‘guaranteed human’ a core branding message across all stations.

Crítica sobre o Impacto da Tecnologia no Emprego de Talentos: Barrett Media: The iHeartMedia “Guaranteed Human” Campaign Is No Safety Net for Sports Radio.


Álvaro Bufarah

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.

(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo.

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