Uma vida premiada e o dia a dia como alvo da violência

Uma vida premiada e o dia a dia como alvo da violência Ele era um menino que brincava nas paisagens de Foz de Iguaçu. Tudo sugeria tranquilidade junto a uma das Maravilhas da Natureza. Era pouco para ele. O garoto queria ser correspondente de guerra. Tanto fez que se tornou jornalista e acabou encontrando nas ruas o ambiente hostil dos campos de batalha Na redação da Gazeta do Povo, em Curitiba, onde é repórter especial, Mauri König faz um balanço dos principais momentos de sua vida e pensa em mudanças. Já foi espancado pela polícia paraguaia e deixado na fronteira do Brasil jogado à própria sorte. É a batalha de quem não se acomoda vendo a corrupção na pauta do dia. Sonhador, com uma trajetória profissional em que seria correspondente de guerra, de certo modo viu esse desejo atendido. Só que não há campo minado e o inimigo se confunde com o conjunto de pessoas no fluxo de pedestres ou no trânsito de qualquer cidade. Há um risco a cada esquina, um perigo que nega ao repórter o direito de ir, vir e voltar com vida. Incrível que o tempo seja de paz e exista uma interminável guerra surda que, recentemente, o fez optar por um exílio temporário. Ameaçado, principalmente em seu próprio país, é hora de reflexão e redirecionamento da carreira – tem comentado o repórter que construiu sua trajetória profissional no jornalismo investigativo. Engana-se quem acredita em possível renúncia aos projetos de matérias de impacto, nas quais desnuda figuras importantes do mundo da corrupção. Dois casamentos desfeitos e 17 prêmios depois, o repórter está no topo do ranking dos mais respeitados jornalistas brasileiros e não quer deixar de escrever.  A solidão do super-herói De comportamento introvertido, beirando o antissocial, conforme sua própria definição, Mauri decidiu que a grande guinada será a partir dele próprio. Longe dos filhos e da mulher – que deixaram Curitiba recentemente por falta de segurança –, o profissional de tantas aventuras, ao estilo dos super-heróis, dá sinais de que precisa tomar fôlego, respirar e alçar novos voos. Algo precisa ser feito e numa pausa entre uma pauta e outra confessa a busca do afeto comum a qualquer ser humano. Há uns 12 ou 13 anos, uma crise emocional quase o tirou das reportagens. O corajoso repórter chegou a imaginar que a saída seria o magistério ou a literatura, setores em que projetava ter plenas condições de êxito. É autor do livro Narrativas de um correspondente de rua e participou da antologia El mejor del periodismo de América Latina. Sua preocupação é afastar a chance de qualquer interrupção na atividade jornalística. Formado em Letras e Jornalismo, pós-graduado em Jornalismo Investigativo, Mauri König se vê como uma espécie de personagem, o protagonista de uma história forçado a alterar o seu perfil para continuar em ação. Este comunicador de poucas palavras com pessoas fora do universo da imprensa está revendo conceitos. Foram tantos os momentos em que deu prioridade ao trabalho, passou horas e horas de seus finais de semana arquitetando matérias e deixou em plano secundário o descanso e o relacionamento com familiares e amigos. O trabalho o expôs, deu-lhe notoriedade, mas também o afastou de coisas primordiais. Aparentemente durão ao enfrentar obstáculos, o novo Mauri que está nascendo deve contar com mais espiritualidade e leveza. Já estão na agenda idas regulares aos médicos e um papo sério com analista para cuidar da saúde e longevidade. Se as dores vierem, a receita é não abusar de remédios alopáticos… Acupuntura deve ser uma das bases do tratamento. Isto –como o repórter espera – vai se refletir na estética e narrativa do texto. Tranquilidade para curtir as conquistas Já dá para prever… Que venham novos prêmios como Esso, Embratel categoria Região Sul, Jabuti, Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, Direitos Humanos de Jornalismo da Sociedade Interamericana de Imprensa e International Freedom Press Awards. A estante está enriquecida com tantas honrarias. E onde fica o homem, com seus sentimentos e perspectivas? Este homem permanece almejando dar conta da carga de trabalho sem abrir mão do direito ao repouso do corpo e da mente e à ampliação dos compromissos com o lazer. Muito provavelmente os novos hábitos vão levá-lo a conquistar novas amizades e aprimorar a sociabilidade. Até incluiu no planejamento a matrícula em uma academia de dança de salão. São providências mágicas, que aplacarão a ira dos denunciados por irregularidades? Com certeza, não. Não há nada mágico, reconhece. Só que, ao adotar um estilo de escrever e viver bem mais tranquilo, ao se expor na mídia sem facilitar que lhe cortem a cabeça, a pressão será atenuada e será melhor para reestruturar a vida pessoal. Serão valorizados aspectos de fatores que se fizeram a razão de torná-lo um homem profissionalmente bem-sucedido e que, bem equacionados, também devem fazê-lo satisfeito e próximo ao seu núcleo familiar.