Trip Editora anuncia redução de equipe e reestruturação processos

Pelas tristezas e dores que sempre provocam, as demissões feitas na última semana (véspera de feriado de Corpus Christi) pela Trip Editora – 19 no total, segundo apurou Jornalistas&Cia, além de três vagas de estágios que não foram renovadas – foram o lado mais visível e comentado de uma reestruturação em curso na empresa. Foi um corte da ordem de 8% do quadro de pessoal da empresa. Entre os desligados estavam três profissionais de texto (um deles, colaborador externo), dois designers, quatro de produção e quatro de publicidade (os demais eram ligados a áreas de apoio como TI, almoxarifado, trade e outros). O outro lado, que obviamente diz muito mais à empresa do que ao mercado, foi o da reestruturação, que envolve praticamente toda a empresa e seus processos produtivos. “Não foi uma decisão impulsiva, de momento”, afirma o editor Paulo Lima, que explica: “Estávamos reavaliando nossos processos e nossas operações havia quase dois anos, desde setembro de 2011, quando contratamos o INDG (atual Falconi Consultoria de Resultados) para nos assessorar e orientar na otimização da estrutura. Vínhamos de dez anos ininterruptos crescendo à média anual de 30%, o que é excelente, mas quase inevitavelmente resulta numa estrutura superdimensionada, com muitas sobreposições de funções e até mesmo de equipes. Juntando essa necessidade com o quadro nada favorável que se observa no mercado para a mídia em geral, e os veículos impressos em particular, consideramos ainda mais imprescindível  dar esse passo, que, embora doloroso, era necessário para fortalecer a empresa e deixá-la ainda mais preparada para esses próximos anos, que, esperamos, continuem sendo de crescimento”. Sobre os desligamentos realizados, Paulo Lima diz que a empresa “está fazendo as negociações de forma individual, oferecendo a extensão de plano de saúde e salários a mais. Mas, além disso, para dois jornalistas e uma designer, estamos propondo realocação em outras redações da casa”. Entre os 19 profissionais que deixaram a empresa estão Carol Sganzerla, diretora de Redação da TPM, e, da Trip, a diretora de Arte Paula Carvalho, os produtores Flavia Fraccarolli e Bernardo da Mata e a designer Camila Fudissaku. De certo modo, a atitude da Trip tem lá suas semelhanças com a do Valor Econômico, que há pouco mais de dez dias demitiu 50 profissionais. Do mesmo modo que o Valor, a Trip decidiu fazer sua reestruturação numa conjuntura favorável de mercado: “Por que não fizemos esse ajuste antes, como várias outras empresas jornalísticas fizeram? Porque nosso negócio está ancorado de forma muito consistente em prestação de serviços de branding e comunicação para grandes clientes e mesmo no núcleo que reúne nossas marcas próprias – Trip e TPM – há muito vimos expandindo a atividade em eventos e nos suportes eletrônicos e digitais, complementando e indo além das revistas. Naquele temos 80% de nossa receita, contra 20% que gera o Núcleo Trip, cujo portfólio é integrado pelas duas revistas, os dois sites, redes sociais e os programas de tevê (na Mix TV) e rádio (na Eldorado). Mas mesmo no Núcleo Trip, é preciso dizer, estamos num momento muito positivo. Em 2012, a revista Trip cresceu sua circulação paga em 7,7% e a TPM, em 66,6%, como mostra o IVC; a receita publicitária da empresa como um todo foi 8% maior do que em 2011, contra os 5,8% de expansão do mercado publicitário em geral e a queda de 5,43% do segmento de revistas. Não havia, portanto, necessidade de açodamento. Fizemos quando tinha de ser feito, após estudar criteriosamente cada processo, cada setor da empresa”, esclarece Paulo. Mas o que seriam essas sobreposições de funções e estruturas? “Com o crescimento acentuado de nossas operações, tornou-se muito difícil fazer uma gestão absolutamente precisa das demandas permanentes de recursos materiais e humanos. Com isso, crescemos de forma menos ordenada do que seria ideal e precisávamos acertar isso”, explica o editor, lembrando: “Tínhamos gente fazendo a mesma coisa para diferentes publicações ou plataformas, isso tanto na parte editorial como na comercial. Um exemplo? Mantínhamos três equipes de produção para fazer ensaios sensuais – uma fazia a produção da Trip Girl para a revista; outra, a da Trip Girl para o site; e uma terceira ainda fazia os ensaios masculinos para a TPM – um contrasenso. Mais um? Cheguei a ver dois contatos de áreas diferentes da nossa equipe comercial se encontrando numa sala de espera, para falar com o mesmo executivo da agência com o objetivo de vender anúncios para um mesmo cliente em diferentes veículos do nosso portfólio. Ora, podemos e precisamos racionalizar esse trabalho, tendo equipes mais versáteis, que tenham relacionamentos fortes e capazes de representar os vários veículos da empresa nas negociações com determinadas agências e clientes. E isso se estendia a outras atividades da empresa, equipes que não se conversavam e que se reportavam a diferentes chefias fazendo as mesmas funções etc.. No caso das redações de Trip e TPM, que passaram a ter comando único em fevereiro – Micheline Alves – mas continuavam a existir como dois corpos editoriais distintos, isso muda. Elas passam agora a ser uma única redação, concentrando profissionais seniores e com reforço em algumas áreas e no borderô, cuidando das duas revistas. Com isso e demais medidas, vamos ter menos níveis de chefia, menos reuniões, menos sobreposições e mais eficiência e agilidade nas decisões. O próximo passo será integrar o digital nesse processo, com a determinação de manter as características de cada veículo, mas usando de verdade a força das redes para alavancar todos os nossos produtos. O que queremos e estamos fazendo é ter comando único e um novo desenho, para, a partir daí, termos uma operação mais enxuta e orgânica, sem desperdícios de tempo e energia, com uma equipe concentrada em inovar cada vez mais as fórmulas editoriais e os modos de fazer convencionais. Sabemos que o que a Trip tem de melhor é a sua capacidade de surpreender sempre e manter altos os níveis de criatividade e da qualidade do conteúdo ao longo desses quase 30 anos. Nossa intenção é fortalecer ainda mais esses nossos diferenciais”. Paulo Lima não nega que o redesenho da empresa e respectivos desligamentos tenham a ver com o momento adverso do mercado editorial, que passa de fato por transformações radicais, mas “têm mais a ver com a gordura que tínhamos em nossas operações”. Sobre a questão desse delicado momento de transição, ele diz que chegou a ouvir numa palestra do projeto Fronteiras do Pensamento a argumentação de que “são tantas, tão velozes e tão constantes as mudanças, que talvez já não se possa mais pensar num mundo que muda e estabiliza, como vinha sendo até aqui, mas sim num mundo com transformações permanentes”. “A melhor definição de transição que ouvi é aquela que diz que As coisas já não são mais como eram antes mas ainda não estão do jeito que vão ficar. Como agir, repensar e inovar este nosso negócio, impactado como tem sido por tantas mudanças? O que posso dizer é que vão ter problemas empresas que não perceberem que está havendo de fato uma migração importante de audiência e recursos das mídias convencionais para outras e não reagirem a tempo e de forma inteligente e criativa”, adverte, concluindo: “Antigamente, as empresas tinham mais tempo e espaço para errar. Hoje isso não mais acontece e quem não estiver permanentemente olhando os custos, a eficiência dos processos, a qualidade e os diferenciais criativos do que oferece ao mercado corre o sério risco de ficar fora do jogo”. Atualmente, a Trip é a única editora brasileira a ter conseguido a façanha de licenciar um título nativo na Europa – a revista Trip, na Alemanha, que circula também há três anos na Suíça e na Áustria. Em 2012, a edição brasileira da Trip foi eleita a revista mensal mais admirada do Brasil pelo ranking do Meio & Mensagem e a terceira no geral, ficando atrás apenas de Veja e Exame. Ainda em 2012, a editora celebrou a conquista, pela TPM, de seu quarto Prêmio Esso. A empresa administra atualmente 15 revistas, seis sites, seis publicações para tablets, redes sociais de seis marcas, os eventos Trip Transformadores e Casa TPM, além dos programas semanais Trip TV e Trip FM. Entre seus clientes estão Natura, Gol, Itaú Personnalité, Pão de Açúcar, C&A, Nestlé, Ambev, Audi, Coelho da Fonseca, Marisol, Dufry e JHSF/Shopping Cidade Jardim. São sócios de Paulo Lima na operação o diretor superintendente Carlos Sarli e o diretor Editorial Fernando Luna.