Repórteres do Estadão falam sobre cobertura na Coreia do Norte

Numa ação diplomática inédita em sua história, a Coreia do Norte concedeu visto a milhares de estrangeiros para visitarem o país durante a festa do centenário de nascimento do fundador do país, Kim Il-Sung (1912?1994), no último domingo (15/4). O governo contabiliza que há, hoje, cerca de 10 mil turistas no país ? um recorde ?, com dezenas de profissionais de imprensa entre eles, interessados em também cobrir o polêmico lançamento do satélite Kunmyongsong-3. O Estadão é o único veículo da América Latina presente na comitiva, e logo com duas pessoas: Cláudia Trevisan, correspondente na China, e Lisandra Paraguassu, repórter de Brasília. Elas estão em Pyongyang desde o último sábado e, além de cumprirem a pauta principal, têm publicado suas impressões sobre este que é considerado o regime mais fechado do mundo. Cláudia e Lisandra falaram com o Portal dos Jornalistas via Skype, a partir da sala de imprensa do Hotel Yanggok, na capital Pyongyang, poucas horas depois de publicarem na internet a matéria sobre a falha no lançamento do dispositivo. Portal dos Jornalistas ? Há muitos correspondentes de outros países com vocês? Cláudia Trevisan ­? Da América Latina somos as únicas. O maior número de jornalistas é da China, naturalmente. Mas tem muita gente também da Rússia, Japão, Europa, Estados Unidos… As emissoras de tevê americanas como NBC e CNN recebem muita atenção do regime, que faz um esforço constante em mostrar que o projeto espacial deles é pacífico, que o satélite não é uma ameaça. PJ ? Mesmo com o forte monitoramento das comunicações, tem sido tranquilo enviar material para o jornal e para o blog? Cláudia ­? Sim. O jornal está dando um espaço ótimo desde domingo passado, quase uma página diária, e também temos enviado muita coisa para o portal. O blog não dá tanto tempo quanto eu gostaria, não tem sido um material abundante. Temos acesso completo à internet, mas só a partir daqui, da sala de imprensa do hotel. Então acabo me concentrando em outras coisas… Lisandra Paraguassu ­? A maior dificuldade é o confisco dos celulares: todo mundo tem de deixar o seu no aeroporto. Internet só no call center do hotel. Então não dá para dar um flash, fazer uma atualização em tempo real… Ficamos, por exemplo, cerca de seis horas incomunicáveis hoje. Cláudia ? Para nós nem foi um drama tão grande. Primeiro porque somos de texto e trabalhamos enquanto é noite ou madrugada no Brasil. Mas as tevês, por exemplo, ficaram seis horas sem programação daqui… ?Fora do ar? no dia que era mais importante, no dia do lançamento do foguete. PJ ? É verdade que há sempre uma pessoa indicada pelo Ministério das Relações Exteriores acompanhando vocês? Cláudia ­? Sim, um funcionário das relações exteriores que acaba funcionando como intérprete… Nos primeiros dias era um sujeito que falava português, que estudou na UnB inclusive, morou no Brasil. Agora é outro, que fala inglês. Também são eles que passam todas as informações para gente. É uma espécie de guia, tradutor e guarda-costas, tudo junto [risos]. Lisandra ? Tem até uma braçadeira que a gente tem que ficar usando, que deve servir, obviamente, para identificarem a gente de longe [Laura mostra o acessório por meio da câmera do Skype: é azul, com ideogramas brancos]. Esse aqui, para imprensa, também tem um ?P? escrito, que deve ser de press [imprensa].  Mas é impossível fazer qualquer coisa sozinha, mesmo com a braçadeira. É impossível até sair para dar uma caminhada. O hotel fica estrategicamente localizado numa ilha, no meio de um rio, no meio da cidade. Além da barreira da língua, que é outro impeditivo. Cláudia ? O que me surpreendeu é que apesar de todo esse controle, eles parecem bem flexíveis com imagem. A maior parte do que vimos foi pela janela do ônibus ou do trem, e aí aproveitamos para tirar fotos. Mas, pelo que nos disseram os jornalistas que já estiveram aqui em outra ocasião, dessa vez há uma postura diferente. Dizem que, antes, eles eram extremamente paranoicos com qualquer registro fotográfico, qualquer reprodução de imagem. Lisandra ? Também permitiram que a gente conversasse com trabalhadores, com pessoas nas ruas… Sabemos que mesmo esses momentos de encontro acontecem dentro de um sistema totalmente organizado, para fazer propaganda, com o filtro do interprete, mas tivemos liberdade para abordar as pessoas na rua. No dia em que a gente visitou a casa onde nasceu o Kim Il-Sung, por exemplo, podíamos falar aleatoriamente com turistas norte-coreanos. PJ ? Diante da mídia ocidental, o povo costuma defender o regime? Cláudia ? Sim. A propaganda permeia a vida das pessoas de forma integral, desde o nascimento até a morte. Há, por isso, uma uniformidade no comportamento, no discurso, nas respostas, no pensamento… Já faz parte da natureza deles. Lisandra ? Eles acreditam mesmo, não é uma coisa forçada. Hoje foi inaugurada uma estátua ao líder fundador e tinha gente chorando na plateia, e era legítimo aquilo. Cláudia ? Não podemos ignorar o poder que exerce o fato de crescer com aquilo dentro de si, e sem acesso à internet, à mídia, a nada. O acesso à comunicação é supercontrolado. Não podem mandar e-mails para o exterior ou receber e-mails. Eles só acessam uma espécie de intranet, com conteúdo do país, produzido pelo Estado… A TV e o jornal são pura propaganda, na qual a dinastia Kim é apresentada como a responsável por tudo de bom que acontece no país, como sábios que conhecem tudo e fazem sacrifícios intensos pelo país. Que são os mentores de toda a infraestrutura pública, que são pessoas extremamente benevolentes, que compartilham dores e alegrias com seu povo. PJ ? Há muitos turistas aí neste momento, além dos jornalistas? Cláudia ? O número de turistas estrangeiros têm crescido bastante… Há mais chineses, pela proximidade. Mas ano passado, sem contar esses países próximos, vieram 4 mil ocidentais para o país. Vêm sempre em grupos, só podem andar em grupo. Agora há 10 mil em Pyongyang, entre turistas, jornalistas, oficiais… É um marco, nunca houve tantos turistas no país ao mesmo tempo. PJ ­? Sofreram alguma dificuldade ou preconceito de gênero? Cláudia ? Não. PJ ? Já sabem qual a programação de comemoração do centenário de Kim Il-Sung? Cláudia ? A gente não tem a menor ideia do que vai ser, do horário, da cerimônia, nada. Sabemos que vai ter o que chamam de People Parade [parada popular]. Deve ter algum show, há milhares de pessoas trabalhando nisso, talvez um desfile militar. Ainda estavam decidindo se fariam o desfile no domingo ou se vai ser no dia 25 de abril, como de costume, quando é o aniversário do Exército. Ouvi informações de que adiantariam, por conta da data do centenário. Lisandra ? É importante dizer que a gente nunca sabe nossa programação. Eles chegam à noite, antes de irmos para o quarto, e dizem: ?Às 7h30 da manhã no lobby?. Às vezes nos falam com só algumas horas de antecedência. À tarde, eles dizem na hora do almoço que o grupo vai sair tal hora. Para aonde vamos, não se sabe. Cláudia ? Um passeio mais inofensivo até falam, mas é raro. Hoje fomos à inauguração da estátua e antes só haviam dito que íamos ?para um lugar muito importante, tem que estar aqui às 13h45?. Não sabíamos mais nada. PJ ? E a questão do satélite, como foi a repercussão interna? Cláudia ? Não se falou nada do satélite ou do foguete. Ficamos sabendo que falhou pelas agências internacionais. O próprio governo confirmou durante um anúncio de 48 segundos na tevê Estatal e depois desapareceu do noticiário ou da programação. PJ ? É muito difícil atravessar o dia desinformadas? Lisandra ? É a questão da internet. Aqui você tem uma sensação de estar desplugada do mundo…  É muito difícil, especialmente para a gente, que se acostumou a estar conectada em agências, na internet, no noticiário em tempo real. Mas aqui passamos o dia inteiro sem ter ideia, sem poder ligar, nada. Em Pequim, onde fica a Cláudia, por exemplo, não se acessa muitos sites por conta de filtros. Aqui não tem nada, só a intranet deles. Mesmo para nós, jornalistas, que conseguimos certo grau de acesso, tem uma coisa curiosa: conseguimos navegar pelas páginas de jornais de qualquer país do mundo, exceto um: a Coreia do Sul. Não conseguimos entrar em sites de jornais sul-coreanos.