O presidente Jair Bolsonaro tem suas razões para não gostar e desconfiar da imprensa. Não é de hoje

Matéria de Veja com os croquis que Bolsonaro desenhou

Por Thales Guaracy

Em outubro de 1987, Bolsonaro revelou a uma repórter de Veja no Rio de Janeiro, Cassia Maria, um plano de explodir bombas em quartéis, como forma de pressionar o alto comando do Exército por melhores salários.

Chegou a desenhar como aquilo funcionaria. Explicou o plano, mas pediu sigilo sobre sua autoria.

Cassia Maria mandou seu relatório à direção da revista, em São Paulo. Esta resolveu abrir o sigilo da fonte. Considerou que não poderia manter o compromisso da repórter, diante da possibilidade da consecução de um crime.

Sei dos detalhes porque eu estava lá. Era subeditor de Economia em Veja e trabalhava ao lado da seção de Assuntos Nacionais, responsável pelas reportagens de política, que eu mesmo viria a editar, dois anos depois.

Recentemente, perguntei a José Roberto Guzzo, diretor de Redação de Veja na época, de quem foi a decisão de quebrar o sigilo da fonte e expor Bolsonaro.

Guzzo me respondeu que não lembra. “Mas deve ter sido eu, porque todas essas decisões passavam por mim”, afirmou.

Assim, Bolsonaro falou com uma repórter sob a condição do sigilo e no sábado viu seu nome estampado com todas as letras na revista, ao lado de outro capitão, então identificado apenas como “Xerife”, e sua mulher, Lígia.

Bolsonaro aproximara-se da revista um ano antes, ao escrever um artigo, publicado na última página, onde ficava a seção Opinião, reclamando de tudo – do soldo, da carestia, do aluguel. “Corro o risco de ver minha carreira de devoto militar seriamente ameaçada, mas a imposição da crise e da falta de perspectiva que enfrentamos é maior”, escreveu.

O artigo, assinado por ele, era inescapável – e o mandou por algum tempo para a prisão. No inquérito militar sobre as bombas, Bolsonaro negou ter sido ele a fonte de Cassia Maria, apesar de exames grafológicos indicarem que os desenhos apresentados por Veja eram de sua autoria.

De forma salomônica, o Exército não puniu Bolsonaro, exatamente: decidiu afastá-lo, sem tirar-lhe a patente de capitão. Daí, Bolsonaro entrou para a política. Três décadas depois, a história fez dele, por ironia, na condição de presidente da República, o chefe das Forças Armadas. Para Bolsonaro, é uma volta por cima. Sobre os militares, certamente.  E, segundo acredita, sobre a imprensa.

Ao contar seu plano terrorista, Bolsonaro quis usar a imprensa de maneira a obter o efeito que desejava sem se prejudicar. Descobriu que a imprensa livre se chama livre porque ninguém a controla – seja o governo, sejam suas fontes, e por vezes seus repórteres.

Tendo assumido o compromisso do sigilo com a fonte, Cassia Maria acabou de certa forma também traída. Acabou deixando a Veja, não sem antes pedir ajuda para a contratação de seguranças, pois desde a publicação da reportagem passou a ser ameaçada.

Três décadas depois, como presidente, Bolsonaro poderia mostrar grandeza e deixar o passado para trás. Porém, além de desconfiado, ele continua se mostrando rancoroso, truculento e vingativo.

Reclama sistematicamente de veículos como Folha de S. Paulo e TV Globo, atacando sua credibilidade.  Menospreza os repórteres que o entrevistam, com certo prazer em mandá-los “calar a boca”. Mais: procura humilhá-los, obrigando-os a esperá-lo debaixo de uma mangueira pela manhã, na saída do Palácio da Alvorada.

Colocados à distância, os jornalistas ficam num chiqueirinho onde têm de lidar com o menosprezo do próprio presidente e os impropérios de bolsonaristas escolhidos a dedo. São colocados ali para funcionar como sua claque pessoal, procurando constranger e intimidar os profissionais.

A hostilidade com a imprensa passa de Bolsonaro para a militância, que chegou a agredir repórteres fotográficos na sua mais recente manifestação, que eles estavam cobrindo por dever de ofício. Como resultado, a agressão tornou-se mais importante que a própria manifestação. Os bolsonaristas passaram assim ao público uma imagem ainda mais significativa sobre sua natureza.

Em nenhum momento, Bolsonaro mostrou-se indignado com a violência. Ao contrário, atribuiu a responsabilidade pelo episódio às vítimas, dizendo, em vídeo que circulou pelas redes sociais, que a “TV Globo foi longe demais”.

Bolsonaro diz que não precisou da imprensa para eleger-se e acha que não precisa dela para governar. Ceva o ódio à imprensa diuturnamente e sua milícia digital trabalha para desmoralizá-la.

Não é apenas uma postura indigna de um presidente eleito democraticamente. É contraproducente. A imprensa é como o boneco de piche da fábula. Quanto mais você bate nela, mais ela gruda em você.

A onda de fake news promovida tanto pelo lulopetismo, antes, como pelo bolsonarismo, agora, tem restaurado a força da imprensa. Mostra o valor do jornalismo profissional. E funciona como o contraponto indispensável diante da avalanche de conteúdo deletério oriunda de robôs e MAVs – os militantes virtuais – nas redes sociais.

A campanha de Bolsonaro contra a imprensa é o melhor incentivo que o presidente poderia lhe dar. Mostra apenas que ela está fazendo seu trabalho. Dar notícia não é agradar a ninguém. Ao contrário: a imprensa cresce justamente quando incomoda. E Bolsonaro tem se revelado mais que incomodado. À medida em que o tempo passa, sente-se cada vez mais ameaçado, subindo o tom de seus ataques.

A responsabilidade pelo que um presidente faz não é do veículo que noticia. Ao criticar os veículos, Bolsonaro parece querer transferir responsabilidades. Mostra o medo.

Evitando a imprensa, e utilizando somente seus canais nas redes sociais, Bolsonaro fala apenas com seus militantes, não com o povo brasileiro, a quem ele governa. Não alcança a população como deveria e, exceto para seus fanáticos fiéis, perde em credibilidade.

Com suas lives e declarações sob a mangueira, Bolsonaro sobretudo informaliza a figura do presidente da República. Sua postura e seu comportamento, incluindo no trato com a imprensa, colaboram para uma crescente perda de autoridade.

Orlando Britto, repórter fotográfico que atravessou várias décadas com seus respectivos presidentes na cobertura de Brasília, conta em seu blog que pediu ao presidente que tratasse a imprensa com mais respeito e, sobretudo, devolvesse respeito ao próprio cargo, transferindo suas entrevistas para ambiente solene, de acordo com a liturgia do cargo.

Britto disse que Bolsonaro serviu aos fotógrafos um café da manhã, mas não teve coragem de se desculpar, nem aceitou a sugestão.

Quanto mais Bolsonaro nega ou confronta a imprensa, mais se transforma em um presidente marginal, que vai perdendo força moral. Seu esforço de comunicação nas próprias redes sociais somente reforça esse processo.

Não há Twitter que recupere tal prejuízo.

Thales Guaracy

O texto desta semana é de Thales Guaracy, que foi, entre outros, diretor editorial da Forbes Brasil, diretor de Playboy e editor de Política e Nacional em Veja, e hoje atua como consultor independente, escritor e colunista de política do Poder360. Ele o publicou no Poder360 em 11/5 e nos autorizou a reproduzir.


Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

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