Por Luciana Gurgel

Luciana Gurgel

Na última sexta-feira (29/7), o Reino Unido aguardava ansioso o veredito de um julgamento que mobilizou o país nos últimos três anos, com um enredo que parece de filme. TVs estavam a postos para entrar ao vivo.

As partes eram as mulheres de dois astros do futebol, Rebekah Vardy e Coleen Rooney, melhores inimigas de infância depois que uma acusou a outra de vazamento de informações pessoais para o tabloide The Sun − sempre ele.

O caso expôs práticas discutíveis no relacionamento de famosos com a mídia, mostrando como é fácil manipular uma parte da imprensa para atingir um objetivo. Basta alimentar a sua fome insaciável por notícias exclusivas − mesmo que obtidas de forma pouco elogiável.

Coleen é casada com Wayne Rooney, que brilhou no Manchester United. O enlace, na sofisticada Portofino, na Itália, foi “vendido” à revista OK! por £ 2,5 milhões. Ela já trabalhou como colunista de celebridades e na TV, entende do riscado.

Rebekah é a mulher de Jamie Vardy, do Leicester. Os atletas eram da seleção inglesa de futebol, e as duas apareciam juntas em eventos e em arquibancadas. Até que Coleen notou que informações postadas em sua conta fechada no Instagram apareciam seguidamente no The Sun.

Em um lance de espionagem, postou três informações falsas e ajustou as configurações para que só fossem vistas pela “amiga”, que caiu na armadilha. As três histórias apareceram no jornal.

Devido ao estratagema, o caso ficou conhecido como “Wagatha Christie”, em alusão à escritora de livros de mistério e à expressão Wag (de wives and girlfriends), cunhada pelos tabloides para se referir às companheiras de jogadores.

E aí começa a diferença de condução de uma situação dessas, que se tivesse ocorrido com uma pessoa “normal” possivelmente não teria tido o mesmo desfecho.

Em outubro de 2019, Coleen Rooney tuitou contando a história. Não acusou a ex-amiga diretamente, mas revelou que a única conta que viu aqueles posts era a de… Rebekah Vardy, naquela altura grávida de oito meses.

Para quem não queria ter sua vida exposta, foi um movimento questionável. A mídia não deixou o caso esfriar, e intimidades acabaram reveladas.

Poderia ter parado ali e hoje poucos lembrariam da história. Entretanto, a acusada resolveu desafiar a acusadora com um processo de difamação.

Quem trabalha com administração de crises já deve ter tido que avaliar o risco de abrir um processo desses. Mesmo vencendo, a sangria pode não compensar.

Rebekah Vardy e Coleen Rooney

No caso de Vardy, havia evidências de que ela tinha vazado diretamente ou por meio da agente e amiga Caroline Watt, que dificilmente faria isso sem consentimento.

A baixaria foi total, com acusações de traição e destruição de provas. Para provar que a amizade não era sincera, a defesa conseguiu uma mensagem de WhatsApp em que Vardy referiu-se a Coleen como uma “vadia desagradável”. Elegância pura.

Na sexta-feira, a autora foi derrotada, saindo de sua bravata £ 3 milhões mais pobre.

Para a juíza Karen Steyn, Rooney provou que a essência da causa era “substancialmente verdadeira”. E as alegações de Vardy foram consideradas ”inconsistentes, evasivas ou implausíveis”.

Um dos aspectos mais debatidos, antes e depois do veredito, foi por que Rebekah Vardy encarou uma briga com poucas chances de vencer.

Mais do que o dinheiro perdido, ela se tornou um mau exemplo e foi abandonada por amigos.

A história, que está sendo preparada para virar filme, levanta também o tema de excessos nas redes sociais, mesmo que em grupos privados. Quem se arrisca a contar tudo o que se passa em sua vida está sujeito a vazamentos, intencionais − como nesse caso − ou acidentais.

No meio da confusão, o The Sun foi o menos afetado. Assim como os outros tabloides, ele vive de vazamentos muito antes de as redes sociais existirem. Mas elas podem estar facilitando um pouco o trabalho e exacerbando as insanidades em torno da notoriedade e do jogo de influência.


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