Por Álvaro Bufarah (*)

Coloque os fones de ouvido. Aperte o play. Por anos, esse ritual quase secreto garantia um santuário. Enquanto a televisão nos sufocava com intervalos intermináveis e o rádio FM parecia um emaranhado de vinhetas e locutores histéricos vendendo consórcios, o podcast era o nosso refúgio. Ali, na intimidade do ouvido, dois seres humanos conversavam sem pressa. Era um pacto silencioso de confiança. A publicidade até existia, claro, mas vinha como um conselho sussurrado pelo próprio apresentador, que recomendava um colchão ou um software de gestão como quem indica um bom café.

Acontece que o paraíso, como de costume, durou pouco. Recentemente, a ZeroAds – uma empresa cuja razão de existir é justamente criar filtros para limpar comerciais do áudio digital – analisou mais de 60 mil episódios. O resultado é o diagnóstico de uma metamorfose em curso. Embora o podcast médio ainda seja razoavelmente limpo, dedicando cerca de 10% do seu tempo às marcas, a crista dessa onda já fala a língua arcaica do rádio AM.

Em alguns programas gigantescos da iHeartMedia, o leitor de áudio parece ter virado um sintonizador de caranga velha. O Handel on the Law, um show de conselhos jurídicos, chegou ao cúmulo de dedicar 44% de sua duração a anúncios. Quase metade do tempo. Você dá o play para ouvir sobre um processo trabalhista e ganha um feirão de carros de brinde.

A explicação é simples e um pouco preguiçosa: a indústria do rádio descobriu o feed RSS. Em vez de recriar a linguagem do áudio sob demanda, os grandes conglomerados apenas pegaram a programação linear, cheia de blocos engessados, e a despejaram na nuvem. Pior: somaram aos comerciais antigos as novas inserções dinâmicas de algoritmos. É a dupla monetização. O ouvinte paga a conta da ganância em minutos jogados fora.

O paradoxo é poético. Quanto mais a indústria entope o episódio de comerciais para faturar alguns centavos a mais, mais o público procura ferramentas para degolar esses mesmos comerciais. Criou-se uma corrida armamentista: o estúdio enfia seis anúncios seguidos; o ouvinte paga um aplicativo de inteligência artificial para amputar o áudio; o criador reclama que perdeu a receita.

Dizem que a inteligência artificial agora vai resolver isso. Ela vai mapear seus desejos mais íntimos para te entregar um único anúncio cirúrgico, hiperpersonalizado, em vez de quatro comerciais genéricos. Talvez funcione. Mas a linha entre a relevância e a sensação de estar sendo vigiado no próprio momento de descanso é tênue.

O rádio tradicional sempre viveu do excesso, da massa, da frequência ostensiva. O podcast nasceu do oposto: da escolha deliberada, do nicho e do afeto. Se você transforma a conversa de um podcaster em uma vitrine poluída, a mágica se desfaz. A credibilidade, que levou anos para ser construída episódio a episódio, vira pó no terceiro bloco comercial.

(Crédito: Jacqueline Macou/Pixabay)

No fim das contas, quando um programa dedica quase metade da sua duração aos anunciantes, ocorre uma inversão grotesca. Já não é a publicidade que vive dentro do conteúdo. É o conteúdo que pede licença para existir, bem ali, no miolo de um grande feirão comercial.

A pergunta que fica para os grandes executivos do áudio não é quantos minutos de comercial eles conseguem espremer em 40 minutos de arquivo MP3. A verdadeira questão é saber quanta ganância a paciência do ouvinte ainda consegue suportar antes de apertar o stop para sempre.

 

Fontes consultadas

COATS, Cameron. Analysis Shows Podcast Ads Still Lighter Than Radio’s Load. Radio Ink, 21 jul. 2026. Matéria-base sobre o levantamento da ZeroAds e a comparação com a carga comercial do rádio.

ZEROADS. We Measured the Ads in 60,000 Podcast Episodes. ZeroAds, 8 jul. 2026. Estudo com 60.536 episódios, mediana de 4,3 minutos de publicidade e análise das limitações da amostra.

CASTNEWS. Estudo americano mede anúncios em 60 mil episódios de podcast. Castnews, 13 jul. 2026. Síntese em português do levantamento e de seus principais resultados.

OXFORD ROAD; PODSCRIBE. Estudo sobre carga publicitária, resposta do consumidor e eficiência dos anúncios em podcasts. A pesquisa acompanhou 164 anunciantes em mais de 1.300 programas.

DEIGHTON, Katie. Podcasts Used to Be Ad-Light Oases. Not Anymore. The Wall Street Journal, 23 ago. 2024. Análise do crescimento da carga publicitária, das pressões financeiras e dos riscos de saturação.

MAGELLAN AI. Estudos de desempenho da publicidade em podcasts. Dados de 2026 indicam maior taxa de resposta para anúncios realizados pelos apresentadores em comparação com formatos produzidos e programáticos.

YOUGOV. More Than Meets the Ear: U.S. Podcast Ads Report 2026. Relatório sobre atenção, confiança, reação dos ouvintes e diferenças entre consumidores de podcasts em áudio e vídeo.

OXFORD ROAD. Re-Thinking YouTube: Why Your Video Podcast Ads May Be Converting 25% Worse Than Audio. Estudo comparativo sobre conversão de anúncios em podcasts de áudio e vídeo.

VERMA, Shivam et al. Cold-Starting Podcast Ads and Promotions with Multi-Task Learning on Spotify. Pesquisa aplicada sobre inteligência artificial, segmentação e otimização de anúncios e promoções no ecossistema de podcasts.

RASHID, Mohammad; YOGANARASIMHAN, Hema. Adaptive Ad Load Design for Sponsored Search Markets: Evidence, Theory, and Deployment. Estudo experimental sobre a relação entre aumento da carga publicitária, receita, conversão e engajamento.

SOUNDS PROFITABLE. The Danger of Rising PodLoad. Análise sobre o aumento da carga comercial e os riscos para a experiência do ouvinte e para a eficiência publicitária.


Álvaro Bufarah

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.

(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo.

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