O homem do saco

Aquele senhor flagrado pela televisão roubando a medalha destinada ao jovem goleiro Matheus, do time de futebol júnior do Corinthians, na celebração da Taça São Paulo, nunca me enganou. Não foi exemplo para ninguém. É bom exemplo para a juventude surrupiar o prêmio maior de um menino às portas do mundo, que deveria ser saudável, do futebol brasileiro?

Aquele senhor está preso na cidade de Nova York, por corrupção por onde passou. Aquele senhor jogou no São Paulo e virou chefe político do bairro de Santo Amaro. Ali, fica o Largo Treze de Maio, um dos berços paulistanos do PT, reduto das primeiras manifestações contra a agonizante ditadura, aproveitando o fim do AI-5. Dele saíram as primeiras passeatas, rumo aos saques a supermercados, acampamentos no Ibirapuera e perigosas invasões de casas de armas. Volta e meia, a tropa de choque da PM se armava no Largo Treze para evitar estripulias.

Em um dia de calmaria naquele velho reduto, pedi ao repórter Wilson Marini, depois editor-chefe do nosso Correio Popular, de Campinas, e renovador de jornais pelo interior afora, que mostrasse como era a vida em dia de paz naquelas paragens. Repórter que gosta de gastar sola de sapato, só escreve se o texto cheirar a mato, pó ou poluição, encafifou com um velho mendigo, alto e andrajoso, que perambulava por ali carregando um saco de estopa.

Sai de um cômodo, enche o saco com papel velho, volta para sua toca e começa de novo. Vamos ler o relato do Wilson, rememorando aquele dia: “Foi das reportagens mais difíceis de escrever. Junho de 1981. De repente, estava diante de um ex-lutador de boxe, que vivia em situação de penúria, Jack Marin, ‘El Terrible’ dos anos 1930, campeão na Espanha. Fez mais de 100 lutas e perdeu poucas. Quebrava garrafas no queixo pontudo, sem se ferir. Apoiado numa cama de lençóis fétidos, mexia os pés no chão batido de um casebre de 12 metros quadrados. Ali estava um herói derrotado pela vida, aos 78 anos, enfiado num paletó preto carcomido. O que teria ocorrido com Jack Marin? Longos minutos de silêncio eram interrompidos por moscas que sobrevoavam uma pilha de pães ainda embalados, com as pontas comidas pelas formigas. De repente, descubro quem mandava entregar os pães todos os dias. O velho aponta para uma foto oficial do governador do Estado, José Maria Marin: ‘Esse aí é meu filho, um homem muito bom’, disse. No Palácio dos Bandeirantes, quando abriu o jornal no café da manhã do dia seguinte, Marin caiu no choro: ‘Me pegaram!’”.

Se você confia em políticos, ele confidenciou a amigos que aquilo era opção do próprio pai e que falharam as tentativas da família de recuperá-lo. Recusava o abrigo dos filhos. A história de Jack tomou uma página inteira do Estadão, apesar dos apelos do filho para manter escondida sua vergonha. Hoje, Jack dá nome a um clube-escola, no bairro da Aclimação. Liguei lá e um professor confessou que não faz a menor ideia de quem seja o patrono nem o filho do patrono. O Brasil também gostaria de esquecer quem é esse filho do patrono.