Hábito secreto

* Por Jorge Eduardo Marques da Silva

Corria o ano de 1992 e eu trabalhava em A Notícia, avó do Meia Hora. O jornal tinha uma redação boa, mas pequena. Então, cada um de nós acabava sendo um pouco chefe de reportagem de si mesmo e dos estagiários. Eu entrava às 8 horas. Chegava uns 20 minutos antes e lia a produção da madrugada, feita ou pelo Renato ou pelo Marcelo ou pelo Paulo. Via se tinha que terminar alguma coisa, o que era raro, dado o nível dos profissionais, ou se precisava aumentar os noticiários de Polícia ou Cidades.

Era uma manhã tranquila e eu pude ajustar a programação toda para a Zona Sul. A madrugada tinha sido farta em notícias policiais e, assim, pude acomodar duas equipes em um só carro. Com o Porquinho (o apelido veio de uma confissão das práticas eróticas com uma leitoa na adolescência) de motora, saímos eu, Andreia e Pitombeira rumo à ensolarada orla carioca. Minhas pautas eram as primeiras e a dela, a final, uma ação da Enoli Lara, que era colunista de sexo e erotismo do jornal.

Eu tinha um hábito secreto: sempre que rolava uma pauta em dia de sol na praia, tirava a roupa, deixava no carro e, de cuecas, mergulhava no mar. Secava ao sol, me vestia e continuava a trabalhar. Era uma energizada para aguentar a jornada que começava à 1h na Rádio Manchete e só acabava às 16h/17 horas. Isso depois de escrever dois grandes jornais na rádio e sete foguetinhos de hora e fazer, no mínimo, umas duas ou três matérias para o jornal – o recorde foram sete.

Tudo bem. Eu tinha 27 anos… Bom, eis que eu tinha acabado a minha parte e tínhamos de esperar a hora da Enoli. Fiz o de sempre: fiquei de cuecas na ensolarada Copacabana e fui para o mar, sob intenso protesto da Andreia, que já era minha namorada e não queria me ver daquele jeito na frente de todo mundo. A praga foi forte. O outro carro estava na Baixada e o nosso chefe, Roberto Ferreira, já havia chegado e estourou outra confusão pelos cafundós da Zona Norte. Ele, então, deu a ordem para o Porquinho retornar à base e seguir para a outra pauta, me trazendo.

Mas como ele poderia me levar, se eu estava dentro d’água? Pior: a dupla Andreia e Pitomba tinha ido atrás da pauta com a Enoli. Sob pressão, ele voltou para a base, na rua do Riachuelo, onde a outra equipe embarcou e foi seguir sua pauta. Detalhe: com minhas calças, camisa e sapatos no carro. Mas não só isso: com a apuração das três matérias… Quando voltei ao lugar onde estava o carro, me desesperei. Cadê todo mundo? Logo Andreia e Pitombeira apareceram e eu estava lá, de cuecas, sem dinheiro e sem a apuração.

Nu, literalmente. As pessoas perguntavam a Andreia se eu tinha sido assaltado. Um vexame… Andreia ligou para a redação e soube que o carro vazara para longe e que o Roberto estava puto com a minha ausência. A solução foi ela pegar um táxi, com o dinheiro do Pitomba, ir à minha casa (que, por sorte, era em Copa), convencer a minha mãe a pegar uma roupa (a velha sempre achava que eu tinha tomado um tiro e que estava no hospital e que estavam escondendo algo dela…) e me dar para vestir e voltarmos.

Assim foi feito e eu, com o cu na mão, sem apuração e fazendo um esforço mental tremendo para me lembrar de tudo, voltei à redação com duas horas de atraso. A essa altura, não era apenas o Roberto, mas ele, o falecido José Alberto Cal Monteiro e o Jaguar que estavam putos.

O jornal fechava às 16h e às 15h eu não tinha escrito uma linha. O Roberto me deu um esporro daqueles de arrancar o couro, com toda razão. “Você atrasou o jornal todo, seu irresponsável, para ver a bunda da Enoli”.

Calei e pensei que seria demitido na sequência. Mas não podia dizer que era porque estava mergulhando de cuecas. Ele não ia acreditar (acho que agora vai…). Sentei à máquina de escrever e pari as três matérias em 45 minutos, tudo de cabeça, umas 30 linhas cada. O jornal conseguiu fechar na hora, apesar da minha cagada. Fui perdoado, não sem mais um esporro. E fomos tomar uma.

Nessa hora, o Porquinho chegou e me entregou a roupa, a carteira e a apuração. Até ele sabia que a apuração era a coisa mais sagrada do jornalismo. Eis o que a mania de fazer matéria pela internet tira da gente: no mínimo, a chance de viver uma história boa dessas.

 

* Jorge Eduardo Marques da Silva é diretor de Comunicação das Organizações Paulo Octavio, em Brasília. Carioca, teve passagens por Rádio Tupi, Rádio Globo, Manchete, A Notícia, Jornal do Commercio e Jornal de Brasília, sem contar as assessorias de imprensa.