Instituto Memória Brasil administrará acervo pessoal de Assis Ângelo

Um grupo de amigos reuniu-se no último mês com Assis Ângelo, em seu apartamento no bairro dos Campos Elíseos, em São Paulo, para com ele fundar o Instituto Memória Brasil, que terá a missão de administrar o seu precioso acervo de cultura popular brasileira, com nada menos do que 150 mil itens, entre discos (bolachões, CDs, DVDs etc.), livros, partituras, pinturas e fotos. É um dos maiores acervos pessoais do País, como algumas reportagens já mostraram ao longo dos anos. Próximo de completar 60 anos, Assis decidiu organizar seu ?museu pessoal? numa instituição formal, em condições de captar recursos e transformá-lo num museu de fato, aberto ao público, e de fomentar de forma mais intensa a disseminação da cultura popular no País. Coisa que, aliás, ele próprio tem feito ao longo de sua carreira, em programas de rádio (acaba de descontinuar o Brasil se encontra aqui, na Trianon), nos livros que escreve, edita ou produz, nos discos musicais e de poesias que edita, nas mostras de artes plásticas de que participa e nos jobs diversos que faz País afora. Na presença de amigos como o escritor Roniwalter Jatobá, as gêmeas cantoras Célia e Celma, o advogado e músico Jorge Mello, entre outros, e em meio a livros, discos e revistas espalhados pelos cômodos de seu apartamento-museu, Assis Ângelo anunciou, na noite de 9/9, a criação do Instituto Memória Brasil ? Acervo Assis Ângelo, para administrar os mais de 150 mil itens de seu acervo cultural, que montou com sacrifício pessoal e recursos próprios ao longo de décadas de pesquisas no Brasil e no exterior. Obviamente, a partir de agora ele deverá iniciar um périplo por empresas e instituições públicas e privadas buscando parcerias e recursos para dar a esse acervo a dimensão que merece. Assis concedeu a este J&Cia a entrevista que se segue: Jornalistas&Cia ? Por que razão você decidiu transformar um acervo pessoal num acervo institucional e de quem foi a ideia? Assis Ângelo ? Por entender que um acervo desse porte não deveria ficar o tempo todo apenas comigo. Acho que é preciso compartilhá-lo com outras pessoas, principalmente estudantes, professores, estudiosos e pesquisadores interessados no assunto Brasil, incluindo música. A ideia foi da produtora cultural paulistana Andrea Lago, com quem tenho trabalhado no desenvolvimento de projetos no campo da cultura popular, entre os quais alguns ao lado de profissionais como a cantora Inezita Barroso, sobre quem acabo de publicar o livro A Menina Inezita Barroso (Cortez Editora); e compositores e instrumentistas como Paulo Vanzolini, Osvaldinho da Cuíca, Téo Azevedo, Gereba, Tinoco (da dupla com Tonico), Vanja Orico, Carmélia Alves. J&Cia ? Como ficou composta a diretoria do Instituto Memória Brasil ? Acervo Assis Ângelo? Assis ? Eu serei o diretor-presidente e ao meu lado estarão o jornalista e escritor Roniwalter Jatobá, como diretor vice-presidente, e Andrea Lago, como diretora administrativa. J&Cia ? Qual é o tamanho aproximado de seu acervo? Assis ? É um acervo amplo e significativo, com cerca de 150 mil itens, incluindo discos de todos os formatos (78, 76, 45 e 33 1/3 rpm; compactos simples e duplos, LPs, CDs), mais de 20 mil fotos de artistas, milhares de partituras, folhetos de cordel e livros sobre música e folclore, centenas de fitas-cassete e MDs com entrevistas exclusivas com compositores e intérpretes (como Silvio Caldas, Nelson Gonçalves, Pedro Sertanejo, Antenógenes Silva, Manezinho Araújo, João Pacífico, Adauto Santos, Alberto Marino Jr., Mário Zan, Paulinho Nogueira, Waldir Azevedo, Carlos Poyares, Zica Bergami), poetas populares/repentistas como Patativa do Assaré, Diniz Vitorino, Otacílio Batista, e estudiosos como Luís da Câmara Cascudo e Paixão Cortes. Há também muitos jornais e revistas, como Careta, O Malho, O Mundo Ilustrado, Revista Ilustrada, que precisam ser digitalizados e catalogados. J&Cia ? Pode citar algumas preciosidades desse acervo? Assis ? Há muitas, como o primeiro disco produzido de forma independente no Brasil por Cornélio Pires, em 1929, e toda a sua série, além dos dois filmes que ele produziu, também no começo do século passado. J&Cia ? Quando você começou a organizá-lo e por quê? Assis ? Há mais de 40 anos, quando me apaixonei pela cultura popular e comecei a comprar discos, folhetos e livros sobre o tema. Eu sempre quis escrever a respeito, e isso fiz nos jornais e revistas por onde passei, entre os quais Diário Popular, Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, entre outros. J&Cia ? Quanto imagina ter investido em recursos próprios ao longo desse período nesse acervo? Assis ? Impossível responder, porque nunca contabilizei isso. Aliás, continuo comprando e não contabilizando. Basta que julgue importante como objeto de pesquisa. J&Cia ? O que pretende exatamente com o Instituto? Assis ? Facilitar o acesso a pessoas interessadas em pesquisa sobre cultura brasileira a partir da cultura popular e viabilizar projetos na forma de livros, discos, programas de rádio e tevê, e um grande portal na internet, que poderá ter o nome de Memória Brasil etc.. J&Cia ? Que obras pessoais, de sua autoria, esse acervo já gerou e está gerando? Assis ? O Brasileiro Carlos Gomes (Ed. Nacional, 1987); Nordestindanados, Causos & Cousas de uma Raça de Cabras da Peste ? de Padre Cícero a Câmara Cascudo (RG Editores, 1987); A Presença dos Cordelistas e Cantadores Repentistas em São Paulo (Editora Ibrasa, 1996); Dicionário Catrumano, Pequeno Glossário de Locuções Regionais (Ed. Letras & Letras, 1996); O Poeta do Povo, Vida e Obra de Patativa do Assaré (Ed. CPC/Umes, 1999); Dicionário Gonzagueano, de A a Z (edição da Trends Engenharia, 2006); A Presença do Futebol na Música Popular Brasileira (Ed. do autor, 2010); o áudio-livro O Poeta e o Jornalista (Universidade Falada/Editora Alyá, 2009); os CDs Assis Ângelo Interpreta Poetas Brasileiros (ao lado de Zé Ramalho, Elba Ramalho, Jackson Antunes e outros); e Poetas Nordestinos dos Séculos XIX e XX na voz de Assis Ângelo, entre outros. Do acervo, já foram extraídas exposições sobre o grupo musical Demônios da Garoa, numa estação do Metrô de São Paulo; outra sobre poeta Patativa do Assaré, na Casa das Rosas; e outra sobre a infância da cantora Inezita Barroso, no Parque da Água Branca; além de uma sobre o ano de 1968 no Centro Cultural Banco do Nordeste, com a presença dos compositores e instrumentistas Sérgio Ricardo e Théo de Barros, mais José Hamilton Ribeiro.  J&Cia ? Que outras poderiam ser produzidas? Assis ? Uma série de perfis biográficos sobre nossos grandes artistas; um livro sobre a música feita para São Paulo, Capital, junto com uma grande exposição; e outro sobre o hinário cívico nacional, destinado às escolas. Serão livros volumosos, que carecem de patrocínio. O livro sobre Sampa (Roteiro Musical da Cidade de São Paulo, Pequena Enciclopédia da Música Brasileira) está aprovado pela Lei Rouanet, mas ainda falta a captação dos recursos necessários. No momento, estou concluindo um livro infantojuvenil sobre Luiz Gonzaga e outro, em dois volumes, também aprovado pela Rouanet, sobre a vida e obra do mesmo artista. A exposição a respeito da música para Sampa está programada para janeiro do próximo ano, na unidade Sesc Santana.  Nota da Redação: Contatos com Assis podem ser feitos pelo e-mail assisangelo@uol.com.br.