Texto publicado originalmente em 7/6/2022 no IJNet

 

 

* Por Jade Drummond

Segundo o Atlas da Notícia, a criação de novos veículos digitais é uma tendência consolidada no Nordeste e que pode ter contribuído, junto ao rádio, para a diminuição dos desertos de notícia na região. As iniciativas independentes de jornalismo cresceram e abriram mais espaço para a produção de conteúdo com um olhar local, mas a sustentabilidade financeira e a falta de visibilidade nacional ainda são desafios enfrentados pelos jornalistas nordestinos.

Nesse contexto, o Fórum Pamela Howard para Cobertura de Crises Globais organizou o webinar gratuito “O mercado de jornalismo no Nordeste” para discutir sobre as novas iniciativas e como o mercado jornalístico está se desenhando na região. Participaram do bate-papo Laércio Portela, editor e cofundador da Marco Zero ConteúdoBeatriz Jucá, ex-repórter do El País e do Diário do Nordeste; e Lucas Maia, diretor de tecnologia da Agência Tatu.

Assista ao webinar completo, realizado em 3 de junho, neste link e veja os destaques da conversa abaixo.

Mídias tradicionais não falam mais sozinhas

O Nordeste, assim como o resto do Brasil, tem grandes conglomerados de mídia que sempre dominaram as principais rádios, TVs e jornais, mantendo a maior parte da audiência concentrada em dois, três ou quatro grupos de comunicação. Com o crescimento do jornalismo independente na região, esses grupos passaram a dividir o espaço com outras vozes e não falam mais sozinhos com o público.

“A mídia independente tem feito mais do que um contraponto, do que mostrar o outro lado da notícia”, comenta Portela. Para ele, são olhares e recortes na produção jornalística que não apareciam na mídia tradicional. O jornalismo independente que Portela vê em Pernambuco é de iniciativas que já nascem segmentadas – cobrindo raça, gênero, direito à cidade, cultura etc – e que são posicionadas, deixam claro o comprometimento com direitos humanos e com a democracia.

Maia explica que em Alagoas o crescimento da mídia independente se deu de forma diferente de outros estados. Em 2019, ocorreu uma grande greve de jornalistas, com adesão em massa, para garantir o piso salarial da profissão. O objetivo foi alcançado, mas teve como consequência um número alto de demissões nos grandes conglomerados de mídia. Essa situação acelerou, então, o surgimento de novas iniciativas independentes na região, que acabaram se tornando concorrentes desses veículos tradicionais.

No Ceará, Jucá vê o jornalismo independente pautando a grande imprensa. “O que eu tenho visto aqui é que as investigações mais aprofundadas e importantes têm ficado a cargo das iniciativas independentes, o que acaba pressionando os veículos tradicionais locais a cobrir também”, diz. “Falta o entendimento de que as histórias não são necessariamente locais e que o Brasil também acontece no Nordeste”. No jornalismo independente ela tem encontrado mais espaço para situar a realidade do Ceará de forma nacional e até internacional, como no caso de pautas que tratam de inovação para lidar com a emergência climática.

A busca pela sustentabilidade financeira

A Marco Zero Conteúdo é um portal de jornalismo investigativo que foi criado com o objetivo de cobrir o direito à cidade em Recife, que é um não-assunto na mídia tradicional. A organização é sem fins lucrativos e se sustenta financeiramente com apoio de associações focadas em direitos humanos e democracia. A equipe também participa de diversos editais locais, nacionais e internacionais para viabilizar recursos para os projetos da Marco Zero e busca trabalhar sempre em parceria com outras iniciativas de jornalismo independente da região. Recentemente, divulgaram o Mapa da Mídia Independente e Popular de Pernambuco, que reúne uma lista dessas iniciativas locais espalhadas pelo estado, com o objetivo de fortalecer a colaboração e o ecossistema da mídia independente local.

No caso da Agência Tatu, que é uma iniciativa de jornalismo de dados em Alagoas com fins lucrativos, a estratégia para alcançar a sustentabilidade financeira é a diversificação. A organização surgiu com o objetivo de ir contra o jornalismo declaratório, investigando mais a fundo dados públicos disponíveis. Logo, viram que existe interesse no mercado por profissionais qualificados para produzir análises de dados. Então, a Tatu passou a trabalhar com duas frentes: publicação de conteúdo próprio, que funciona também como uma vitrine para conseguir financiamento externo focado na produção jornalística independente; e prestação de serviços de comunicação e análise de dados para terceiros. Maia explica que buscar a sustentabilidade financeira é um desafio, não tem fórmula certa, e que um dos focos é não depender de apenas uma fonte de renda específica.

Sobre os financiamentos que iniciativas de jornalismo independentes têm recebido nos últimos anos, Portela entende que é importante sensibilizar esse ecossistema para a necessidade de que os recursos sejam espalhados por todo o Brasil, para fortalecer a mídia independente como um todo. “Senão, a gente corre o risco de reproduzir o modelo da mídia tradicional, que é ter apenas quatro ou cinco grandes grupos de comunicação São Paulo”, explica.

Os riscos do jornalismo investigativo local

Por lidar com investigações importantes e que muitas vezes envolvem violações de direitos, a cobertura independente local também tem que considerar os riscos físicos que os jornalistas e as fontes correm com certas apurações. “O risco é uma questão muito presente no meu trabalho”, diz Jucá. Como repórter freelancer e mulher, ela costuma fazer uma análise de risco quando recebe as denúncias e, às vezes, isso inviabiliza a publicação das investigações.

No Marco Zero, a equipe entendeu que precisava atuar institucionalmente para facilitar o apoio jurídico e de segurança aos jornalistas da região, pois acreditam que essa proteção também está muito centralizada no eixo Rio de Janeiro – São Paulo. Com isso, o veículo participou da fundação da Associação de Jornalismo Digital (Ajor) e está presente em diversos eventos de jornalismo. Uma dica para mídias independentes que precisam de aconselhamento jurídico é o serviço da ONG Repórteres Sem Fronteiras, que tem sido uma consultoria importante para o Marco Zero.

Redução do estigma do Nordeste 

Para Portela, a democratização da comunicação é importante para que o Brasil conheça também o Nordeste a partir de outra perspectiva, sem uma visão reducionista, preconceituosa e muitas vezes racista da região. “Você não precisa vir pro interior do sertão para falar de fome, no Brasil de hoje ela está em todo canto”, diz. Ele entende que essas novas mídias são importantes para produzir conteúdo com vieses mais amplos e diversos, que ajudam a reduzir esse estigma.

Nesse sentido, a escolha de fontes para comentar situações locais também é importante. Os jornalistas comentam que é comum veículos nacionais convidarem especialistas de São Paulo para comentar eventos ou fatos que aconteceram no Nordeste, como se a região não tivesse vozes qualificadas para falar sobre a própria realidade. “Trazer um olhar local nas reportagens é importante”, pontua Jucá, que já viu direcionamento de editores de outros estados que não se aplicavam à realidade da região e, por ser dali, ela conseguiu dar um caminho mais certeiro à pauta.

Além da redução do estigma, os jornalistas reforçam que os acontecimentos no Nordeste não são sempre hiperlocais. “Por mais que a gente bata na tecla, tem situações que parecem permanecer invisibilizadas, mas que deveriam estar até na imprensa internacional”, diz Maia se referindo ao caso recente de afundamento do solo de Maceió por ação da petroquímica Braskem.

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