Fotografe Melhor completa 20 anos

Aydano Roriz, presidente da Editora Europa, e Sérgio Branco, editor da revista, contam curiosidades dessa trajetória A revista Fotografe Melhor, da Editora Europa, completa 20 anos neste mês de setembro e além de uma edição recheada, com 160 páginas e 30 mil exemplares, estreará a nova versão do site Fotografe. Ao olhar o sucesso e a consolidação de um título segmentado, num dos mercados mais afetados pela crise (tanto a econômica quanto a de modelo de negócio), não se tem ideia da série de percalços que a publicação enfrentou desde o seu lançamento, acumulando prejuízos e fracassos ao longo de seus primeiros anos. A história da revista é contada em dobradinha pelo presidente da empresa e seu editor, respectivamente, Aydano Roriz e Sérgio Branco. Portal dos Jornalistas – Como foram os primeiros tempos de Fotografe Melhor? Aydano Roriz – A Fotografe nos deu muito prejuízo nos primeiros anos. Na publicidade, apanhávamos de lavada da Iris Foto e demoramos muito para ajustar a fórmula editorial. Apenas a partir da chegada do Sérgio Branco é que fomos aos poucos chegando à formula certa e, consequentemente, ao respeito e sucesso que gozamos hoje. Portal dos Jornalistas – Mas vocês tiveram a oportunidade de comprar a Iris Foto, não é verdade? Aydano – Sim, com a morte do fundador e da sua filha e sucessora, os herdeiros queriam nos vender o título. Só que, antes de me meter a fazer revistas de fotografia, fui a Colônia, na Alemanha, visitar a Photokina (“The world’s leading trade fair for photo and video”). E foi lá que vislumbrei, pela primeira vez, o potencial desse mercado. No regresso, analisei criteriosamente a revista e joguei aberto com os herdeiros. A Iris Foto não me parecia uma revista dedicada ao leitor, e sim aos anunciantes. Admitiram. Contudo, era uma revista consagrada – disseram eles –, a revista mais antiga do Brasil de circulação contínua. Verdade. Salvo erro, à época, já estava no nº 500 e tal. Fiz com que eles vissem a dificuldade de mudar, perante o leitor, a imagem de uma revista tão antiga, e os convidei a nos associarmos para lançar uma nova revista de fotografia. Deixei o Nilton Pilz (o viúvo) e a cunhada (Bia Marques – minha amiga até hoje) sozinhos na sala para discutirem. Resumindo: não tinham condições de se associar. Porém, o Nilton topava ser o diretor de Redação da nova revista (Fotografe Melhor), enquanto a Bia continuaria tocando a Iris Foto ou tentando vendê-la. Portal dos Jornalistas – Em termos de publicidade, esse era então um bom mercado? Aydano – Quando a edição nº 1 da Fotografe Melhor estava impressa, pedi ao nosso gerente de publicidade para marcar reuniões com os dois maiores anunciantes potenciais da época: Kodak e Fuji. Fomos atendidos pelo diretor de Marketing da Kodak e não esqueço uma frase que ele disse: “Essa sua revista vai ser amarela ou verde? Você precisa escolher. Eu, Kodak, não anuncio se tiver anúncios da Fuji. E desconfio que a recíproca seja verdadeira”. Eu respondi que a revista não seria nem amarela (Kodak), nem verde (Fuji), muito menos azul (Konica) ou vermelha (Agfa). Seria uma revista branca, que se propunha prestar serviços ao leitor, de modo a alavancar o mercado de fotografia no Brasil. Essa minha fala nos custou vários meses sem anúncios da Kodak. Acabaram, todavia, rendendo-se ao bom senso. Portal dos Jornalistas – Algumas tragédias perseguiram a revista nos primeiros anos. Pode relembrá-las? Aydano – O Nilton Pilz e eu fizemos juntos as cinco primeiras edições da Fotografe. Até que, enquanto acompanhava uma produção de capa, ele sofreu um infarto fulminante. E quem me avisou foi a Bia, a cunhada dele. Deixou mulher jovem, crianças… Uma desgraça! Na noite em que comemorávamos o quinto aniversário, numa alegre festa na nova sede própria da Editora Europa, um dos nossos mais promissores profissionais, um jovem de 20 e poucos anos, autêntico gênio da informática, gênio mesmo!, estava cometendo suicídio em seu apartamento. Traumas com o pai e a mãe, com a namorada… Com a Editora Europa é que não foi. Eu, pessoalmente, o admirava tanto (admiro, ainda), que sempre o tratei com deferência. A partir daí, felizmente, acabaram-se as tragédias. Mas o Sérgio Branco também tem algumas curiosidades sobre o Pilz. Sérgio Branco – Logo que a revista foi criada, em 1996, recebi uma ligação do Pilz. Eu era o editor-chefe da revista Duas Rodas e o Pilz queria entrevistar um fotógrafo da revista para uma pauta sobre fotos de ação e movimento, que foi publicada na edição número 2. Indiquei a ele o Manzi, que cobria provas de motociclismo de velocidade e motocross. Entrevista feita, Pilz me pediu alguns cromos do Manzi. Selecionei uma cartela e enviei para a Editora Europa. O Roberto Araújo, diretor editorial, que já trabalhava com o Aydano nessa época, foi quem indicou a Duas Rodas ao Pilz, pois fora editor-chefe da revista durante 17 anos (aliás, comecei na área de revistas com ele, em novembro de 1989, ao deixar a Folha de S.Paulo). O tempo passou e nada dos cromos de volta. Tentei falar um dia na redação da Fotografe, mas ninguém atendeu. Pedi para falar com o Roberto, o único que conhecia na Editora Europa. Foi então que ele me informou sobre a morte do Pilz, um choque para todos. Disse que localizaria os cromos e me devolveria, o que ocorreu dias depois. Na época, jamais imaginaria que um dia daria sequência ao que Pilz e o Aydano começaram. Portal dos Jornalistas – E como foi a sua transferência para a revista? Sérgio – No final de 2000 decidi deixar a Duas Rodas. Comuniquei ao Josias Silveira, diretor da revista, que fecharia a edição de dezembro e que em janeiro de 2001 estaria fora. Preparei-me para um período sabático de três meses. Só voltaria a procurar emprego em março. Mas no dia 27 de janeiro de 2001, o Roberto Araújo me ligou pedindo para ajudá-lo a apagar um incêndio: ele havia assumido como diretor editorial da Editora Europa, demitido quase toda a equipe de Fotografe e precisava de alguém para fechar a edição de fevereiro, que estava atrasada. Relutei, mas decidi ajudá-lo. Fechei a edição de fevereiro, ele me pediu para fechar a de março também, depois a de abril… E lá se foi meu período sabático. Gostei do astral da empresa, o tema me interessava (pois fotografava amadoristicamente desde os 17 anos) e percebi que ali havia chance de fazer uma revista segmentada como jamais havia sido realizada por aqui. Com o apoio do Aydano e do Roberto, fiz um novo projeto editorial e usei minha experiência de editor especializado em veículos a motor para implementar testes independentes de câmeras, lentes e filmes na revista, algo inédito no Brasil. Isso deu um grande diferencial para a Fotografe no mercado. Portal dos Jornalistas – E qual a importância da Fotografe para o meio? Aydano – Em que pese a minha suspeição, considero essa revista um braço extremamente importante do jornalismo. Até mesmo por causa do anuário O Melhor do Fotojornalismo Brasileiro, já em sua sétima edição. Afinal de contas, convenhamos, o trabalho desses nossos coleguinhas é um tanto ingrato. Quando conseguem fazer fotos espetaculares, a vida dessas suas obras é um tanto fugaz. Em princípio, dura no máximo uma semana, se publicadas em revistas semanais; em jornais, o tempo de vida é ainda mais curto. E o nosso papel é reconhecer-lhes o valor, eternizando-as em um belo livro capa dura. Não é à toa que, a cada ano, “chovem” na redação da Fotografe Melhor milhares, talvez milhões, de imagens capturadas por jornalistas e fotojornalistas do Brasil inteiro, candidatando-se a participar do Anuário. Portal dos Jornalistas – E a questão comercial? Vocês conseguiram solucionar? Aydano – Como todas da Editora Europa, a Fotografe é totalmente independente de anunciantes. Claro que anúncios são sempre bem-vindos. Porém, a redação não poupa críticas a quem merece críticas. Nosso maior compromisso é, e sempre foi, com o leitor. Portal dos Jornalistas – E qual o perfil atual da publicação? Sérgio – Com o tempo, fomos implementado matérias culturais (o Juan Esteves, com quem trabalhara na Folha, virou articulista) e espaços para interagir com o leitor, marca forte da Fotografe. Hoje há quatro seções dedicadas aos leitores: Revele-se (são selecionadas seis fotos de leitores a cada edição), Portfólio do Leitor (o leitor monta seu portfólio e a revista seleciona e publica um por edição), Raio X (o leitor envia fotos e um especialista, o fotógrafo e professor Laurent Guerinaud, comenta erros e acertos de cada imagem, num total de 20 comentários por edição) e Lição de Casa (a revista informa um tema que será comentado por Laurent Guerinaud na edição seguinte e os leitores enviam fotos sobre o tema; as melhores ilustram o artigo na revista). Portal dos Jornalistas – Que outras preocupações editoriais permeiam a publicação? Sérgio – A revista busca manter-se atenta às tendências do mercado, tanto que uma reportagem na edição 98, com a cobertura da Photokina de 2004 (a maior feira do setor fotográfico no mundo) bancou a informação de que a era digital era um caminho sem volta, mesmo diante de desconfianças no meio fotográfico. O tempo comprovou que a revista estava correta na avaliação que fez sobre o futuro da fotografia no mundo. Outro pilar do projeto editorial é dar oportunidade a talentos da fotografia de todas as regiões do Brasil. E um dos principais meios para revelar esses talentos foi a criação de concursos. Primeiro, o Leica-Fotografe, que ocorreu de 2003 a 2013. Depois, o Concurso Universitário de Fotografia, realizado de 2007 a 2013. Uma mudança feita pela Receita Federal nas regras para concursos culturais inviabilizou a continuidade desses eventos. Mas conseguimos voltar a realizá-los, e lançamos para a edição especial de vigésimo aniversário, agora de setembro de 2016, o Concurso Fotografe 20 Anos, patrocinado pela Nikon. A edição ainda terá uma série de matérias especiais. Portal dos Jornalistas – Como a revista encara e se relaciona com os muitos eventos de fotografia existentes? Sérgio – Temos um grande envolvimento em projetos culturais e já apoiamos, com divulgação, centenas de eventos fotográficos pelo Brasil afora. Mantemos parcerias com os dois principais festivais de fotografia do Brasil, o Paraty em Foco e o Foto em Pauta Tiradentes, com participação ativa em ambos, levando a cada um deles convidado especial da revista (este ano, no Paraty em Foco, nosso convidado será Walter Carvalho, fotógrafo e diretor de cinema e TV). Portal dos Jornalistas – E a fórmula editorial tem mudado muito, buscando adaptar-se aos novos tempos? Sérgio – Fomos ajustando no decorrer dos anos e hoje acredito que podemos ser considerados uma revista de variedades dentro do segmento de fotografia, já que buscamos mesclar todo tipo de informações técnicas e dicas de especialistas com informações culturais, seja por meio de perfis de fotógrafos ou por intermédio de resenhas de livros. Outro diferencial são os testes de câmeras e objetivas feitos com o uso do software Imatest. Essa inovação ocorreu a partir da edição 170, de novembro de 2010. Antes, durante quase dez anos, os testes eram de uso prático e capitaneados pelo experiente fotógrafo Mário Bock.