Feridas da GZM continuam abertas uma década depois

Dezenas, centenas, milhares foram as histórias de vida afetadas pelo descalabro administrativo-financeiro do mais importante jornal de Economia da história do Brasil, a ainda querida Gazeta Mercantil. Não, a Gazeta Mercantil já não tem um corpo em que se sustentar, porque este, esquartejado por barbaridades empresariais de todas as naturezas, foi indigentemente sepultado sem honras no campo largo do tempo. Foi um sepultamento lento, impiedoso, lancinante, onde os gritos da desesperada coragem de muitos, com o inexorável passar dos dias, deram lugar aos sussurros da indignação e ao mutismo de vergonha de todos. Não houve choro explícito, porque homens (e mulheres e crianças) não choram. Não nessa hora. Mas foram muitas as lágrimas que, contidas, pregavam peças escapando fugidias aos olhos, sem frescor, sem alegria. Sem tristeza, até. Porque eram apenas lágrimas da incredulidade. Como aceitar, afinal, que um jornal que era o exemplo mais bem acabado da defesa serena e pragmática do capitalismo sustentável fosse um poço de insustentabilidade? Como explicar que a publicação econômica mais brilhante de que se tinha notícia no Hemisfério Sul e que norteava a economia do País fosse um abismo de ?dernorteamento? econômico? Como desconfiar que uma organização que exigia das empresas e do mercado práticas fiscais responsáveis fosse uma fraude contábil? Como acreditar que um veículo que defendia e se colocava ao lado de quem era bem sucedido empresarialmente fosse um fiasco de gestão? Como entender que um jornal que falava verdades, e por elas era respeitado, praticasse mentiras? Difícil. Muito difícil. Tão difícil quanto entender como jornalistas tão experimentados, talentosos, respeitados e ciosos de sua reputação pessoal (e também do veículo em que atuavam) demorassem tanto para reagir, praticamente anulando as poucas chances que teriam de reverter o quadro se fizessem isso ao cabo e ao tempo. Foi-se o corpo. Ficou a alma, a energia, o exemplo do bom e digno jornalismo, por muitos apontado como uma das melhores escolas de que se tem notícia no País. Estão por aí, espalhados por inúmeras redações e outras atividades, as dezenas, centenas de jornalistas que passaram pela Gazeta Mercantil, particularmente nos anos da Major Quedinho, no Centro de São Paulo. Se saíram com os bolsos vazios, o coração despedaçado e a autoestima abalada, com certeza carregaram consigo um excepcional legado, o da retidão, da ética e do bom jornalismo. Foi para contar um pouco dessa traumática história, mostrando a montanha russa em que se transformou o fim, da Gazeta Mercantil, num ciclo que se agudizou com a greve de outubro de 2001, que este Jornalistas&Cia convidou a editora-contribuinte Nora Gonzalez. Nora, que foi personagem e testemunha desse processo, escreveu com a razão. Mas os leitores vão perceber que em várias passagens o coração falou mais alto, enriquecendo ainda mais esse emocionante trabalho. Importante frisar que parte da culpa deste especial é de Cecília Zioni, que, com duras críticas à mídia, a quem acusa de ter negligenciado e relegado essa história ao esquecimento, fez a provocação certa, na hora apropriada. Está aí o especial, que busca resgatar, dentro dos limites de nossa capacidade e recursos, um pedaço dessa triste história.- Jornalistas&Cia – Edição Especial – Dez anos da greve da Gazeta Mercantil