Especial Dia do Jornalista: Gosto para a ficção e olhos atentos à realidade

Miriam Leitão confessa não saber viver sem o jornalismo e no mesmo instante em que repete esta frase reforça o desejo de continuar investindo em sua carreira de escritora. Autora de obras de impacto como Saga brasileira: a longa luta de um povo por sua moeda, que em 2013 chegou à sétima edição estimulando reflexões sobre a história recente do País, a também escritora comenta seu fervor pela realidade. Nem por isso deixa de dar os primeiros passos na ficção – ela que tem como um dos ídolos o também mineiro Guimarães Rosa. Às vezes é preciso fugir de tudo e se abrigar na ficção, diz ela, que admite ter chorado de emoção em vários momentos em que escrevia a Saga. Também foi às lágrimas durante um programa na CBN, quando se relatava o caso de violência sexual sofrida por uma menina. Sensível e feminina, Miriam ajuda a expandir o território ocupado pelas mulheres no jornalismo. A suavidade no tom de voz e na abordagem dos interlocutores não anula o vigor com que conduz as entrevistas. Tem um estilo firme ao cuidar de temas que, às vezes, transcendem a política econômica e os negócios. Sejam líderes políticos, empresários ou pesquisadores, seus entrevistados são questionados de maneira incisiva. Quando se intensificou a discussão sobre a democratização do acesso às universidades públicas, garantindo vagas para os pobres, negros e índios, Miriam saiu em defesa das quotas. Ponderou tratarem-se de recurso eficaz, se mudado e aperfeiçoado. Condenou o racismo “à brasileira” e falou da necessidade da construção de um Brasil onde a elite tenha a cara do País.  Ela é casada com Sérgio Abranches, cientista político, jornalista e escritor, que recebeu o Prêmio Jornalistas&Cia/HSBC de Sustentabilidade como Personalidade do Ano em Sustentabilidade de 2011, seu  parceiro inseparável em projetos e viagens pelo Brasil. Sérgio é uma das grandes personalidades do País na defesa do meio ambiente. Mãe, avó, dona de casa e, como todas as brasileiras, cuidadosa com as crianças, Miriam se emociona ao pensar sobre qual será o Brasil onde no futuro viverão cidadãos contemporâneos de Vladimir e Matheus, seus dois filhos, o enteado Rodrigo e os dois netos, Mariana e Daniel Militante política nos anos de chumbo, a então estudante Miriam foi presa e torturada. Eram tempos de ditadura militar. Criança em Caratinga, no interior de Minas Gerais, ela imaginava que, ao crescer, seria escritora e já se interessava por questões sociais. Sua opção como estudante era História, porém decidiu pelo Jornalismo quando entrou em uma redação. Virou repórter e há mais de quatro décadas desenvolve um trabalho premiadíssimo. Em 2013 recebeu mais uma vez o Prêmio Mulher Imprensa da Revista Imprensa e, como sempre faz nessas ocasiões, valeu-se do microfone e do direito à voz que essas iniciativas ensejam para denunciar a situação de vulnerabilidade das mulheres, sobretudo das meninas, que continuam às milhares sendo vítimas de crimes hediondos Brasil afora. Com os vários prêmios que conquistou ao longo da carreira, turbinados pelas conquistas consecutivas do Troféu Mulher e do Prêmio Comunique-se, Miriam está entre os dez mais no Ranking Jornalistas&Cia dos Mais Premiados Jornalistas Brasileiros de Todos os Tempos. Primeira profissional brasileira a receber o Maria Moors Cabot, da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, conquistou também, entre outros, os prêmios Jornalismo para a Tolerância, da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ); Orilaxé, do Grupo AfroReggae; Ayrton Senna de Jornalismo Econômico; Camélia da Liberdade, do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas; e Jornalismo Econômico, da Ordem dos Economistas do Brasil. O Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, foi uma de suas mais recentes conquistas e veio com Saga Brasileira: a longa luta de um povo por sua moeda. História contada por quem a vive Filha de uma professora primária e de um pastor presbiteriano, tem 11 irmãos em uma família habituada a vivenciar os anseios da população. Na prática do jornalismo econômico esta visão foi-se ampliando. Protagonista de um setor com prevalência de números, encontra razões para sensibilidade. O jornalismo econômico não deve ser uma coisa gelada… uma ata do Copom… explica a ex-menina tímida de Caratinga, na Zona da Mata mineira. Na cidade de onde saiu para ser personalidade nacional, o colégio em que estudou tem placa lembrando o orgulho em ser a escola da aluna ilustre. Durante uma festa em sua homenagem, Miriam relatou as dificuldades no início de carreira como jornalista-mulher. Alunos e professores manifestaram orgulho em tê-la como estudante. Para o público, seus momentos de enfrentamento da realidade são exemplos de determinação. E para quem acompanha sua batalha diária frente à realidade do País permanece, sempre, a expectativa de que ela continue a não gostar de sair em férias. A torcida é para que a compensação pelo estresse diário a impulsione para um intervalo dedicado à ficção. Fica-se à espera de livros como A perigosa vida dos passarinhos pequenos e A menina do nome enfeitado que ela já tem prontinhos…