Ecos de guerra e sons de paz

*Por Cristina Vaz de Carvalho, editora do Jornalistas&Cia no Rio de Janeiro.

O Rio de Janeiro vive, esta semana, o primeiro alinhamento da comunicação federal e estadual sobre o clima de guerra civil na cidade. Após desentendimentos públicos entre o ministro da Defesa, o governador do Estado, o secretário de Segurança e os comandos das polícias, nas últimas semanas, ouvimos finalmente todos falando a mesma língua, pelo menos nos microfones dos meios de comunicação.

Ao mesmo tempo, só havia notícias boas sobre o Rock in Rio, nos dias 15 a 24 de setembro. Numa cidade dividida entre o inferno que fecha escolas e postos de saúde, com som de tiroteios ecoando por toda parte, e a festa ruidosa, sem hora para acabar, as frases do rock mais pesado soavam como música de paz. Quem viveu a gênese da cultura hippie, a repetição do slogan Paz e amor enquanto os Estados Unidos mergulhavam cada vez mais fundo na guerra do Vietnã, não pode deixar de traçar um paralelo.

Em termos de comunicação, viu-se de tudo. Nem faltou o bom humor, com gaiatos que postavam no Whapp: “para quem estiver com medo de ir ao Rock in Rio, compro seu ingresso (a preço vil)”. Nem o mau gosto do general Mourão (ainda ele), pregando uma intervenção militar no País. Como se não bastasse, Luiz Philippe de Orleans e Bragança – o nome diz que é descendente de Dom Pedro – lança Por que o Brasil é um país atrasado?, livro com opinião monarquista. No meio da encrenca, tem gosto pra tudo. E para completar, o prefeito do Rio disse que era o momento de dar um “banho de loja” na Rocinha, no meio da operação de guerra no local. Mais curiosa foi a reação dos moradores, que levaram a oferta a sério, e começaram a pedir saneamento, urbanização, tudo a que têm direito.

Terezinha Santos, que criou no Facebook o grupo Gestão de Crise, depois de 30 anos atuando nessa área, pretende discutir as crises institucionais e operacionais do ponto de vista da gestão de comunicação. Vemos acontecer as mesmas coisas de sempre, porque os dirigentes não dão ouvidos ao gestor de comunicação. Alguns participam de treinamentos, mas ignoram os ensinamentos técnicos na hora de falar com a imprensa. Não se sabe se existe intenção por trás de declarações desastradas, ou se é despreparo e falta de bom senso. Não faltaram exemplos nos últimos dias.

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