Dissenção familiar provoca mudança no comando da Folha de S.Paulo

Sérgio Dávila

Sérgio Dávila assume a Direção de Redação no lugar de Maria Cristina Frias e fala com exclusividade a J&Cia. Coluna Mercado Aberto é extinta

A Folha de S.Paulo está sob nova direção desde 17 de março. Sérgio Dávila, no jornal há 25 anos, os últimos nove como editor executivo, é o novo diretor de Redação, sucedendo a Maria Cristina Frias, que ficou no posto por seis meses, desde a morte do irmão Otávio Frias Filho.

O comunicado sintético emitido pela empresa no final da manhã de segunda-feira limitou-se a informar que a mudança foi uma decisão dos acionistas, por maioria, sem entrar em detalhes. Sabe-se que Luiz Frias, irmão de Cristina e do falecido Otávio, detém 2/3 do capital da Folhapar, que controla integralmente a Folha de S.Paulo e 64,6% do UOL. E que, como majoritário, tem também o controle da organização. Mas nesta reestruturação contou ainda com o apoio de Fernanda Diamant, viúva de Otávio e uma das três acionistas da Folhapar com direito a voto, ao lado do próprio Luiz e de Cristina. Isso limitou qualquer movimento de Cristina em obstar o processo.

A dissenção familiar, segundo o que se sabe, tem a ver com a situação financeira do jornal. Maria Cristina, do mesmo modo que Otávio, anteriormente, defendia investimentos na qualificação e inovação do diário, a partir de recursos (distribuição de dividendos, por exemplo) das outras operações do grupo (leia-se UOL e PagSeguro). Mas Luiz discordava da continuidade desse processo, exigindo que o jornal fosse autossustentável. Como as partes não chegaram a um consenso, prevaleceu, por óbvio, a posição majoritária.

O assunto ganhou impulso sobretudo nas mídias sociais, em matérias de tons diferenciados, mas que mostram, do lado de Luiz Frias, uma decisão baseada na defesa dos interesses financeiros maiores do grupo; e, por parte de Maria Cristina, a de ter sido vítima de uma decisão familiar inusitada, da qual só teria tomado conhecimento ao chegar ao jornal, ali descobrindo ainda que sua coluna havia sido extinta e que sequer o e-mail poderia operar, por já ter sido desativado.

Curiosamente, ela foi destituída do cargo alguns dias após a única entrevista como diretora de Redação da Folha, que concedeu à ombudsman Paula Cesarino Costa. Nela, defendeu de forma enfática os princípios do Projeto Folha, de um jornalismo independente, crítico e apartidário, inquieto e que continuaria a agir criticamente com o governo, como fez com todos os demais.

O que está a caminho, neste novo processo, por tudo o que se depreende, é um corte de grandes proporções nos gastos do jornal, inclusive de pessoal. Espera-se para as próximas horas uma lista de dispensas, que deve atingir todas as áreas da empresa.

O que se espera não esteja a caminho são mudanças no curso do Projeto Folha. Ao menos no comunicado, esses princípios foram reafirmados.

Em relação aos acionistas, não se sabe ainda os desdobramentos jurídicos dessa reestruturação, já que agora a constante presença de advogados nas conversas deverá imperar nas negociações da família. O fato é que todo o mercado jornalístico ficará nos próximos meses atento ao que lá acontecer, por tudo o que representa o jornal e seus princípios para a imprensa e a sociedade brasileiras.

De concreto, até o fechamento desta edição, sabia-se que as demissões já haviam começado, o que vamos acompanhar nos próximos dias, e que no lugar da coluna Mercado Aberto voltou a ser publicada a coluna Painel S/A, tendo como titular Joana Cunha, que foi repórter de Maria Cristina na coluna e correspondente do jornal em Nova York. (Veja+)

Sérgio Dávila: “Equilíbrio financeiro é fundamental para a preservação da independência editorial”

Jornalistas&Cia – Desde o nascimento do Projeto Folha, salvo engano em 1984, tendo Otavio Frias Filho como líder, a Folha nunca experimentou um comando editorial sem o sobrenome Frias. Primeiro, com o próprio Otávio, e depois, numa passagem bem rápida, com a Maria Cristina. Via-se de certo modo a autonomia de acionista tomando decisões editoriais de impacto, em particular nas denúncias contra malfeitos do poder. Como encara o desafio, sobretudo num momento de ataques e pressões intensas contra a imprensa e a Folha, em particular, de autoridades e milícias digitais?

Sérgio Dávila – A decisão segue as melhores práticas do mercado mundial. As Redações do New York Times e do Washington Post, por exemplo, são comandadas por jornalistas profissionais contratados no mercado. O mesmo ocorre no Brasil, em jornais como O Globo e o O Estado de S. Paulo.

J&Cia – Soubemos por colegas da redação que Maria Cristina ficou sabendo de sua destituição quando chegou ao jornal, nessa segunda-feira (18/3) e viu que até o seu e-mail estava desativado. Alguma razão para ela não ter sabido antes ou participado da decisão? Houve dissenso familiar em relação aos destinos do Grupo Folha?

Sérgio – A decisão foi tomada por maioria de acionistas em reunião convocada para esse propósito com 25 dias de antecedência. Ou seja, ela estava ciente dessa pauta havia um mês.

J&Cia – A coluna Mercado Aberto, que Maria Cristina assinava, foi extinta e no lugar dela o jornal está reeditando a coluna Painel S/A. Lemos que Maria Cristina poderia assumir as funções de diretora editorial e secretária do Conselho Editorial do jornal. Está correta a informação?

Sérgio – Essa possibilidade acabou não se efetivando.

J&Cia – Quais são as suas responsabilidades adicionais no novo cargo e o que muda na sua atuação pessoal à frente da Redação? O cargo de editor executivo será extinto?

Sérgio – Como diretor de Redação, serei responsável pela execução do Projeto Editorial do jornal e pela vigência de seu Manual, cuidarei das relações institucionais do jornal e responderei também pelos editoriais do jornal, função que eu já vinha exercendo informalmente desde o adoecimento de Otavio Frias Filho. Passo a me reportar ao presidente da empresa, Luiz Frias. O cargo de editor executivo foi extinto.

J&Cia – Entre os comentários correntes, sobre a decisão de destituir Maria Cristina do comando editorial, está a de que se mostrava urgente equilibrar o borderô do jornal, o que incluiria cortes na redação. Ou seja, a saída dela teria a ver também com a demora nos ajustes. O jornal promoverá cortes? Já há detalhes que possam ser revelados?

Sérgio – Equilíbrio financeiro é fundamental para a preservação da independência editorial. Apesar das dificuldades pelas quais passa o setor de mídia, a Empresa Folha da Manhã tem-se mantido financeiramente saudável, inclusive devido a ajustes e reduções de despesas promovidos nos últimos anos. Exemplos no mundo e no Brasil atestam o que ocorre quando essas medidas não são tomadas a tempo. Não dever um centavo a banco ou fornecedor é uma raridade no setor, no Brasil e fora do País. A Folha é de longe a empresa com as melhores condições para atravessar a mudança e continuar a desenvolver um modelo de negócio sustentável no longo prazo. Essa é a meta, custe o que custar.

J&Cia – Quantos jornalistas integram as equipes de Redação da Folha e do Agora São Paulo? E qual o tamanho que a empresa considera ideal?

Sérgio – A Redação conta hoje com cerca de 300 jornalistas e outros tantos colaboradores. Conta também com cerca de 100 colunistas. Não há um tamanho ideal, e sim um que reflita a realidade econômica da empresa.

J&Cia – Vimos que também o Conselho Editorial passou por uma reformulação, com as saídas de Celso Pinto e Janio de Freitas e a nomeação de Ana Estela de Sousa Pinto, Cláudia Collucci, Cleusa Turra, Hélio Schwartsman, Heloisa Helvécia, Mônica Bergamo, Patrícia Campos Mello, Sérgio Dávila, Suzana Singer e Vinicius Mota. Que mudanças são esperadas com essa reestruturação?

Sérgio – Uma diversidade maior de vozes.

J&Cia – Quais impactos a decisão anunciada terá ou poderá ter na performance do jornal? Alguma mudança de curto prazo? E no médio e longo prazos, quais os planos? Poderá haver mudanças na linha e no planejamento editoriais?

Sérgio – A Folha seguirá buscando manter-se como o maior e melhor jornal do País. Para isso, poderá fazer mudanças que interessem ao leitor, sem se desviar da linha editorial implementada por Otavio Frias Filho e consagrada no Projeto Folha.

J&Cia – Em relação ao Agora, mudanças à vista?

Sérgio – O Agora chega aos 20 anos cumprindo sua função de ser um jornal que fala diretamente com seu leitorado e com ótima venda em banca. Ganhará novo projeto gráfico e novo site. Do ponto de vista operacional, a sinergia com a Folha continuará sendo aprimorada.

J&Cia – Qual o tamanho da audiência atual da Folha, somando-se impresso e digital? E como isso será trabalhado nesse novo ciclo, com você à frente da Redação?

Sérgio – A Folha bateu seu recorde histórico de audiência em outubro de 2018. É o maior jornal na internet, com 240 milhões de páginas vistas e 37 milhões de visitantes únicos (números de fevereiro). O objetivo, é claro, é seguir sendo líder.

J&Cia – Em quais caminhos o jornal apostará pensando em liderança e relevância de seu conteúdo?

Sérgio – O jornal quer manter a liderança na publicação de furos e informações exclusivas, na vigilância dos poderes constituídos e no jornalismo crítico, apartidário e pluralista que pratica. Ampliar a variedade de seu leque de colunistas, seja em gênero, seja em posição política. Seguir inovando em linguagens que atraiam novos leitores e leitores novos, como os podcasts (caso do Café da Manhã), os documentários jornalísticos e as séries premiadas sobre temas relevantes da atualidade. Investir em alfabetização midiática. E atrair startups de mídia para a sua órbita.

J&Cia – Em termos de modelo de negócios, qual a aposta do jornal, considerando assinaturas, publicidade, pay wall, branded content etc?

Sérgio – Os jornais que estão dando origem a boas notícias financeiras, como o New York Times, apostam nas receitas de assinaturas digitais. Mas receitas de publicidade continuam sendo relevantes, inclusive a publicidade online.

J&Cia – Como a empresa tem visto os crescentes movimentos da sociedade – e mesmo de publishers – questionando as grandes plataformas tecnológicas, como Google e Facebook, pelas disfunções e distorções que têm provocado na atividade jornalística, com impactos na oferta social de informação de qualidade?

Sérgio – O duopólio mundial tem de ser responsável e responsabilizado pelo conteúdo que divulga, como qualquer empresa de mídia. Parcerias estratégicas pontuais são bem-vindas e têm acontecido.

J&Cia – Como vocês estão olhando a questão do jornal em papel, no curto, médio e longo prazos?

Sérgio – Provavelmente haverá redução da base de leitores em papel, e aumento expressivo do número de leitores em plataformas digitas.

J&Cia – Em relação aos outros negócios do Grupo, como o PagSeguro, do UOL, um sucesso de mercado e que é dependente de regulamentação oficial, existe alguma preocupação de que o governo faça retaliações em função do jornalismo independente, crítico e apartidário professado pelo jornal?

Sérgio – Atuo no Grupo Folha e não no Grupo UOL. São empresas totalmente independentes, inclusive com acionistas diferentes. Por isso, essa ilação não é verdadeira. A Folha continua a ser a Folha de sempre.

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1 comment

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  1. Claudio Viana

    Jornalismo independente, crítico e apartidário.? O bife Wellington da seção de gastronomia ultrapassou os limites da razão. Psicopatia pura

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