Comunicação de Boris Johnson também vai pra UTI. E quem brilha é a rainha

Boris Johnson. Crédito: Thomson Reuters

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

Ao acompanhar a cobertura jornalística sobre o primeiro-ministro britânico Boris Johnson atingido pelo coronavírus, impossível não lembrar de Tancredo Neves. Não apenas porque os dois líderes tiveram a saúde afetada em momentos cruciais para seus países – Tancredo na redemocratização e Boris no Brexit. Mas também pelo processo de comunicação, com omissões e vácuos capazes de dar margem a dúvidas e especulações.

São eras e líderes diferentes. Tancredo era um político das antigas, vivendo em um país com poucos jornais e TVs. Boris é jornalista, foi editor de grandes diários britânicos e navega com desenvoltura no universo das redes sociais. Comanda a equipe com mão de ferro e sua companheira chefiou a comunicação do Partido Conservador.

Com tamanha experiência, é fácil imaginar que ele saiba como seus ex-colegas apuram: ouvindo fontes e não apenas reproduzindo discurso oficial. E que conheça o comportamento dos excelentes jornalistas políticos de seu país em coletivas: educados, porém, incisivos.

Ainda assim, o que se viu nos últimos dias foi uma condução de risco, que traz lições importantes para crises envolvendo personalidades.

A noticia de que o primeiro-ministro (e também seu principal assessor, Dominic Cummings,  o secretário Nacional de Saúde Matt Hancock e o Chief Medical Advisor Chris Whitty) estavam com o vírus, revelada há duas semanas, gerou grande impacto. Deixou transparecer que as medidas de isolamento por eles pregadas não estavam sendo aplicadas na cúpula do Governo.

Johnson isolou-se, mas continuou tuitando e participando de reuniões por teleconferência. Após uma semana a coisa complicou. Na última sexta-feira (3/4) não voltou às atividades como se esperava porque os sintomas – principalmente febre – persistiam. Começou uma corrida por notícias e versões desencontradas sobre o real estado de saúde do líder.

Em vez de esclarecer, o Governo se calou, ou deu informações inconsistentes. Na noite de domingo (5/4) veio a bomba: ele fora internado, alegadamente para fazer exames. Novas especulações: qual o hospital? Por que internar para exames que poderiam ser feitos em casa? Estaria ele no respirador? Entubado? Com pneumonia?

Horas mais tarde, no briefing diário, o secretário de Relações Exteriores e substituto em caso de impedimento, Dominic Raab, tentou ser genérico e sinalizar que estava tudo normal. Não deu certo.

Foi pressionado, como seria de se esperar de uma plateia com alguns dos mais experientes jornalistas do país. Questionado sobre quando havia falado por último com o chefe – no sábado – acabou revelando que o primeiro-ministro não estava exatamente na sua melhor forma há mais tempo do que o Governo tentava fazer parecer. Uma foto dele abatido só reforçou a tese.

Horas mais tarde, quando anunciado que Johnson seguira para a UTI, nova onda de especulações. Mas o Governo continuou afirmando que ele estava bem, sem uso do respirador, e que a ida era apenas por precaução. Pode até ser. Mas poucos acreditaram. A falta de confiança foi agravada pelas apurações, com fontes assegurando que o caso não era tão simples.

Não é todos os dias que o líder de um país vai para terapia intensiva. Há semelhanças com o caso de Tancredo Neves, em que durante um bom tempo os boletins médicos sugeriam um quadro positivo, até o triste fim. Também no caso de Johnson a comunicação do Governo e as falas de seus auxiliares tentaram nos primeiros dias transmitir um cenário de pouca gravidade, incompatível com uma internação em UTI. 

Transparência e agilidade não podem faltar em um momento como esse, sob pena de gerar insegurança e desconfiança sobre tudo o que se fala dali por diante.

Houve obviamente um sentimento de empatia em relação ao primeiro-ministro, com políticos de todos os partidos manifestando-se pela sua recuperação. Mas também muita ansiedade.

E veio da rainha Elizabeth II o conforto de que o Reino Unido tanto precisava, com um pronunciamento impecável em cadeia nacional na noite de domingo. Escrito por ela própria, fez referências pessoais a momentos difíceis do passado e assegurou que tudo vai melhorar. Aos 93 anos, a monarca esbanja credibilidade e sabe tudo de comunicação.

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