Aydano Roriz, entre a história e a tecnologia

Aydano Roriz é um daqueles casos emblemáticos de profissionais oriundos da Editora Abril, que decidiu se aventurar em seu próprio negócio, a exemplo de Domingo Alzugaray (Editora Três) e  Mino Carta (Editora Confiança). Nascido em Juazeiro, na Bahia, em 15 anos no Grupo Abril, tanto em São Paulo, como no Nordeste, passou por importantes publicações como Playboy, Quatro Rodas, Cláudia, Nova e Capricho. Saiu da empresa em 1986 para realizar seu sonho de fundar a Editora Europa. Convidado a moderar, no V Fórum Aner de Revistas, o painel Tablets: novo modelo de negócios, sua participação não se resumiu ao papel original. Além de traçar um panorama sobre as inovações de sua editora, Roriz divertiu o público com uma fictícia troca de e-mails entre ele e John Lennon (john@lennon.ceu) sobre a melhor estratégia a ser traçada nesse momento de incerteza do mercado. Na resposta do e-mail, o ex-Beatle sugere um vídeo que supostamente estaria no Youtube onde exibia uma paródia de Imagine. Nela, a música começava com a seguinte frase: Imagine there?s no paper (imagine que não há papel) e encerrava com Imagine all the people with a tablet in their hands (imagine todas as pessoas com um tablet em suas mãos). Assim é Aydano. Ao mesmo tempo em que demonstra ser um profundo conhecedor e entusiasta dos romances históricos, foi o fundador e comanda até hoje a Editora Europa, pioneira no Brasil no mercado de tablet, e responsável pelo lançamento da primeira revista a explorar essa plataforma no Brasil. Em 5 de agosto de 2010, chegava ao mercado a versão de Natureza, com as 12 edições anteriores, no iPad da Apple, apenas quatro meses após o lançamento do aparelho nos EUA. A Europa atualmente edita vários títulos com foco no mercado de tecnologia, casos de 3D World Brasil, CD-ROM Fácil, Fotografe Melhor, PlayStation, Xbox 360 e VídeoSom, entre outras, e também outros em segmentos como o de Turismo, caso de Viaje Mais, e Meio Ambiente, como a Natureza. Terminado o ciclo de palestras do Fórum Aner, realizado nesta 2ª.feira (12/9), em São Paulo (ver J&Cia 811-A), Aydano (pronuncia-se Áydano) recebeu J&Cia para um descontraído bate-papo, em que falou do relançamento de seu livro O Fundador e dos desafios de dirigir sua empresa aqui no Brasil, vivendo na Ilha da Madeira, em Portugal, e também de seu instituto para crianças carentes na Bahia, e dos planos para o seu futuro e de sua editora. J&Cia ? O que o levou a reescrever essa nova edição de O Fundador?Aydano Roriz ? Os originais de O Fundador são de 1999, ou seja, do século, do milênio passado, e depois dele eu já lancei cinco outros livros, sempre na linha do romance histórico. Entre as pesquisas para produção das novas obras, sempre aparecem fatos interessantes que nos fazem lamentar já ter publicado um livro. Quando consegui, pela própria Editora Europa, comprar os direitos de O Fundador da Ediouro, responsável pelo lançamento da primeira edição, resolvi aproveitar não apenas para revisá-lo, mas praticamente reescrevê-lo, obviamente com os mesmos personagens e mantendo o enredo principal. J&Cia ? E por que o formato de romance histórico?Aydano ? Aprendemos na escola que Tomé de Souza (personagem central de O Fundador) era um fidalgo português que foi convocado pelo rei para ser o primeiro imperador geral do Brasil, mas esse cara não tinha mulher, filho, personalidade, não tinha amantes? Ele ficou três anos no Brasil, será que ele não arrumou nenhum caso por aqui? Esse é o sabor do romance histórico, porque ele não se atém apenas aos fatos já publicados, mas também a questões que são duvidosas. No caso de O Fundador, me aproveito de várias fontes para fazer minha própria interpretação e o fato de ser jornalista ajuda muito, pois nos leva a sempre descobrir coisas relevantes e às vezes muito interessantes por aí. Para se ter uma ideia, eu tenho livros do século XVII, que consegui comprar em sebos, com o carimbo da inquisição, autorizado pelo tribunal do Santo Ofício. Lá é que se percebe que a história conhecida é uma história censurada, sobretudo quando se trata de Portugal e Espanha. J&Cia ? Essas pesquisas já geraram a base para uma nova obra?Aydano ? No momento estou escrevendo meu oitavo livro. Será o quarto da série A saga da invasão holandesa ao Brasil, que até o momento já conta com O Livro dos Hereges (2004), Van Dorth (2006) e A Guerra dos Hereges (2010). Espero realmente que seja o último porque sinceramente já não aguento mais falar de holandês. Mais um pouco e vou falar holandês correntemente (risos).  Os dois primeiros foram sobre a invasão dos holandeses na Bahia, o terceiro sobre a invasão em Pernambuco e esse agora é sobre o governo de Maurício de Nassau em Pernambuco. J&Cia ?  De onde surgiu todo esse interesse pelos holandeses?Aydano ?  Na verdade foi o interesse dos holandeses pelas nossas terras que sempre me intrigou. Se você olhar o globo terrestre e analisar onde ficam Holanda e Brasil, vai ver que um país está realmente muito longe do outro. Aí eu me perguntava: ?por que diabos esses caras quiseram atravessar o oceano e enfrentar toda a série de contratempos para invadir a Bahia? Quais as razões para isso? Eu acabei descobrindo alguns desses motivos por acaso. Só que a história não é tão simples assim como se imagina. Tudo tem uma razão de ser. Por isso resolvi explorar o assunto e já estou chegando ao quarto livro. J&Cia ? Como você foi parar na Ilha da Madeira?Aydano ? Numa das muitas pesquisas de campo que realizei, sobre a produção de açúcar, descobri que antigamente essa era um tecnologia extremamente restrita, conhecida apenas por judeus. Era um segredo industrial guardado a sete chaves e os únicos produtores do mundo estavam na Sicília e na Ilha da Madeira. Fui à Ilha da Madeira, gostei, voltei, comecei a me identificar com o lugar e decidi que queria morar lá. Quando falei para minha mulher: vamos embora daqui (Brasil)?, ela achou que eu havia ficado louco, mas logo também acabou gostando da ideia. J&Cia ? Para as pesquisas de seus livros a mudança deve ter sido muito boa, mas o que ela representou na sua atuação direta na editora?Aydano ? A Editora Europa é minha vida. Eu trabalhei quinze anos na Abril pensando em montar minha própria editora e é natural que eu me preocupe com o que vai acontecer com ela. E se eu morrer, como é que fica? Eu percebi que se não me afastasse dela fisicamente, no dia que eu morresse a empresa talvez também desaparecesse. Precisava aproveitar essa oportunidade para profissionalizar ao máximo toda operação. Foi o que fiz e isso já dura seis anos. Felizmente tudo está indo muito bem. J&Cia ? E como fica esse legado daqui pra frente?Aydano ? Minha mulher e eu decidimos não ter filhos. Há doze anos montamos o Instituto Tânia & Aydano Roriz, que mantém um serviço social responsável pelo atendimento de cerca de 1.700 mil jovens no oeste da Bahia, aos quais são oferecidos desde cursos de eletricista até informática, inglês e espanhol. Nossa intenção com ele foi montar uma espécie de Centro Cultural, levando para lá um pouco do nosso sonho e de tudo aquilo porque tanto lutamos. * Coincidentemente, nesse momento da entrevista, quando já se passavam das 20h, toda estrutura do evento sendo desmontada, com poucas pessoas ainda por lá, fomos interrompidos por Luiz Siqueira, diretor executivo da Europa que pergunta em tom de brincadeira e amizade: E aí ?bicho?, vamos embora? Após pedir mais alguns minutos para terminar a conversa, Roriz continua: Aydano ? Certo dia cheguei para esse cara aí, o Luiz, que começou comigo ainda garoto, foi treinado e hoje está há 17 anos na casa, e fiz um acordo. Ano após ano eu repasso uma pequena porcentagem da empresa para ele. No prazo de 13 anos ele será o nosso segundo maior acionista, com 25% da empresa. Para ele é muito importante porque virou sócio e dá o sangue pela empresa, mas em troca vai ter que manter funcionando minha fundação e cuidar desse legado quando eu não estiver mais por aqui. Confesso que se tivesse um filho, gostaria que fosse alguém como ele, por isso acho que estamos em boas mãos. J&Cia ? Como é a relação com sua equipe à distância?Aydano ? Com todos os recursos existentes, consigo permanecer ainda muito presente, lógico que não fisicamente, mas eu reúno, por exemplo, todos meus funcionários uma vez por mês para uma conversa coletiva. Em vídeo conferência. Ela acontece sempre na primeira 4ª.feira do mês e mobiliza os mais de cem funcionários da empresa. Já com os demais diretores a conversa é diária. J&Cia ? E a essa distância como você o enxerga o mercado de revistas brasileiro?Aydano ? Você pode ver aí que o pessoal está bastante empolgado com todas as novas tecnologias que tem surgido. Rapidamente os resultados vão aparecendo. Hoje pela minha editora, por exemplo, já temos mais de 100 e-books publicados e cerca de 250 edições de revistas disponíveis nos aplicativos Europa para tablets. O grande barato é que facilmente rompemos barreiras antes impensáveis. Para se ter uma ideia, mais de 50% dos meus livros, por exemplo, são vendidos no exterior. Recentemente vendemos publicações nossa para alguém lá no Kuwait, isso é realmente incrível.