Por Assis Ângelo

Em continuidade à abordagem da obra de João Guimarães Rosa, digo que sem dúvida é um achado a frase dita e repetida pelo afoito jagunço Riobaldo: “O sertão está em toda parte”.

É certo que todo contista, novelista ou romancista põe aqui e acolá, na boca de seus personagens, ideias ou frases próprias. Portanto não é de se admirar que a frase dita por Riobaldo tem raízes no pensamento de Rosa.

Ele cria, de fato, que o sertão se acha no oco do mundo e em qualquer língua. É claro que ele leu autores brasileiros anteriores a ele.

Em 1902, o carioca Euclides da Cunha fez publicar aquele que seria o seu mais importante livro: Os Sertões.

Os Sertões foi todo basicamente escrito no interior de São Paulo, Rio Claro.

Antes de Cunha, o maranhense Coelho Neto (1864-1934) publicou Sertão (1896). Esse livro reúne um punhado de contos maravilhosos. De chorar é, por exemplo, o conto Cega.

No conto aqui lembrado, Neto começa contando a história de uma mulher de nome Anna Rosa. Grávida, pare uma menina que se chamaria Felícia. Após o parto, a nova mãe dorme e acorda completamente cega. E mais não digo.

No mesmo livro, Coelho Neto conta num conto a história de um ex-vaqueiro de idade, que vive a relembrar coisas do seu passado bastante movimentado. Seu nome era Firmo. Chegava até a dizer que os bois o respeitavam. Podia ser, tanto que ao morrer houve quem dissesse ter visto boi de todo tamanho chorar.

Dá pra lembrar ou não o nosso querido Rosa?

Assis com exemplar do Suplemento da Tribuna, da Tribuna da Imprensa (RJ)

E atenção, prestem atenção: Afonso Arinos de Melo Franco (1868-1916), intelectual de grande gabarito, também escreveu muita coisa bonita referente à vida do povo. É dele o livro Pelo Sertão (1898). Voltarei ao assunto.

E sertão por sertão, lembro aqui que tal palavra se acha escrita pela primeira vez na carta de Pero Vaz de Caminha (1450-1500) ao rei D. Manuel. A carta é datada de 1° de maio de 1500.

– Puxa, Assis. Interessante! Uma coisa: voltando a tempos mais recentes, eu gostaria de saber se esses nomes todos aqui citados, fora Caminha, ocuparam espaço nos jornais do século 19 com folhetins.

– Sim, sim, Maria. O Brasil foi o país com o maior número de escritores escrevendo histórias continuadas para jornais e revistas. Começa em fins dos anos 30 do século 19.

– E houve jornais propriamente ditos literários naqueles tempos?

– Sim, houve. O primeiro deles pode ter sido O Patriota. Durou 18 números, de 1813 a 1814. José Bonifácio foi um dos seus colaboradores. E a coisa foi, foi até o século passado. Um dos últimos foi o Suplemento da Tribuna, que circulava no jornal Tribuna da Imprensa (RJ), do jornalista e figura não grata aos militares Hélio Fernandes (1921-2021).

– Caraca, isso dá pano pra manga!

– Pois é, pois é… Tem muito mais.

Contatos pelo http://assisangelo.blogspot.com.

 

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