Por Assis Ângelo
– Assis, você aqui e acolá tem falado sobre poetas e literatos portugueses no passado e no presente mais recente. Num dos seus livros, O Poeta do Povo, você fala que o cearense Patativa do Assaré (1909-2002) ficou parcialmente cego quando tinha 5 ou 6 anos de idade. Qual foi a doença que atingiu a vista do poeta?
– Bom, Flor Maria: o mal que atingiu a visão do mestre da nossa literatura popular foi dor-d’olhos.
– Dor-d’olhos?
– Sim. No tempo em que nasceu Patativa, de batismo Antônio Gonçalves da Silva, dor-d’olhos era como se chamava o sarampo.
– Então o português Antônio Feliciano de Castilho sofreu o mal do sarampo mais ou menos com a mesma idade do poeta brasileiro?

– Sim, sim. Coincidências existem. O português Castilho e o nosso Patativa acabaram morrendo cegos e nos deixando como herança uma obra monumental. Obra monumental foi também legada ao mundo pelo grande cego grego Homero.
– São de Homero Ilíada e Odisséia. Diz a história que essa obra foi primeiramente transmitida de boca em boca.
– Isso mesmo, Maria!
– Olha só que coisa fabulosa: em setembro do ano da graça de 2026 foi achado um fragmento de Odisséia na biblioteca da Universidade de Utrecht, Holanda. Esse fragmento manuscrito tem data aproximada de 1.700 anos.
– Muito bem, doutora historiadora.
– Obrigada, muito obrigada. Mas voltemos a tempos mais recentes. Você já leu o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa?
– Sim e é muito bom, como praticamente tudo que escreveu. Uma das suas obras-primas é o conto O Banqueiro Anarquista.
– Eu também gostei pela beleza e originalidade. O Livro do Desassossego é também incrível. E lá para as tantas ele fala de autores de antigamente, como Sócrates e o já citado Homero.
– O Livro do Desassossego é um denso mergulho na vida do povo e do mundo. Pessoa vai longe, muito longe. Ele vai fundo na interpretação do inconsciente humano. Muitas reflexões até então impensáveis se acham nesse livro. Nele se acham referências a cego, cegueira e até míope.

– Curioso, tinha me esquecido disso. Aliás, aparece muito míope na literatura?
– Sim, Maria. A presença de personagens míopes na literatura brasileira e estrangeira é bastante frequente. Aparecem em contos e romances de José de Alencar, Machado de Assis e tantos e tantos.
– É mesmo! Lembro-me de um conto interessantíssimo do italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Acho que o título é A Aventura de um Míope (1958). Agora mais uma perguntinha: sei que você já escreveu até romance, como Lua Estrela Baião: a História de um Rei (2012). E contos, você também já escreveu?
– Pois é, ninguém é perfeito. Ali pela metade dos anos de 1970 publiquei uma história em folhetim no jornal Correio da Paraíba. Folhetim é uma história publicada de modo sequenciado. A publicação do folhetim por mim escrito, Obsessão de um Rapaz de Olhos Míopes, durou mais ou menos uns dois meses. Depois eu o resumi e publiquei em livro, em 1978, quando eu já me achava em São Paulo e trabalhando como repórter na Folha. No mais, aguarde.
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