Por Álvaro Bufarah (*)

Virou lugar-comum nos eventos de comunicação e nos discursos de diretores de inovação a tese triunfalista de que o rádio está virando televisão – e que isso representaria a salvação definitiva da mídia sonora. Câmeras no estúdio, iluminação cenográfica, apresentadores preocupados com o reflexo do figurino no retorno do monitor e telas piscando por todos os lados. A narrativa oficial vende esse movimento como convergência natural e modernização bem-vinda. Trata-se, contudo, de um diagnóstico míope. O rádio não está se aprimorando ao tentar ser TV; está assinando um atestado de capitulação estética e funcional.

Para quem atua há mais de duas décadas no ecossistema de comunicação e jornalismo brasileiro, a confusão conceitual entre distribuição multicanal e mutilação de linguagem acende um sinal de alerta vermelho. Rádio e televisão não são irmãos gêmeos que usam roupas diferentes. São linguagens antagônicas, construídas sob regimes de atenção diametralmente opostos, voltadas a momentos díspares da rotina e fundamentadas em pactos cognitivos absolutamente distintos. Se o rádio virar televisão, ele abdica da sua essência e morre asfixiado. E se a televisão tentar operar sob a cadência puramente sonora, definha pelo tédio.

“O maior patrimônio do rádio sempre foi a liberdade que ele concede aos olhos do ouvinte. Ao exigir o olhar para validar o discurso, o radiodifusor abre mão do seu monopólio da escuta e entra em uma guerra de telas na qual já entra derrotado.”

A força histórica do rádio reside na sua invisibilidade. Ele é o único meio de comunicação que acompanha o cidadão brasileiro no trânsito engarrafado da Marginal Tietê, na linha de montagem da fábrica, nas tarefas domésticas matinais ou no rádio de pilha do trabalhador rural no interior do País. O áudio é secundário no sentido operacional da palavra: ele coexiste com o mundo real, estimula o teatro da mente e preenche os vazios do cotidiano sem exigir imobilidade física.

A televisão, por sua vez, é tirânica. Ela exige o olhar estático, a decodificação da imagem, a montagem visual e a entrega do campo de visão. Quando um estúdio de rádio passa a subordinar seu roteiro ao enquadramento da câmera, ao corte de corte-e-costura dos operadores de switcher e aos gestos ensaiados para gerar cortes verticais de redes sociais, a magia acústica se desfaz:

(Crédito: escoladeradio.com.br)

 

  • Perda da imaginação compartilhada: O rádio constrói cenários mentais sob medida para cada ouvinte. A imagem imposta padroniza, empobrece e limita a expressividade do locutor.
  • Incompatibilidade com o deslocamento: Ninguém assiste à tela enquanto pilota uma moto ou dirige em uma rodovia movimentada. Ao criar dependência da referência visual (“veja este gráfico na tela”), a emissora desconecta sumariamente seu ouvinte mais fiel.
  • A fragmentação da verdade local: O Brasil é um arquipélago de realidades socioeconômicas. Em vastas regiões do País, o áudio analógico e a gratuidade da sintonia ainda são a única fonte confiável de serviço, meteorologia e denúncia comunitária. A obrigação da tela é um capricho de classes médias hiperconectadas.

Os defensores da televisão no rádio costumam argumentar que estamos diante do nascimento de um novo formato integrado. Trata-se de uma redundância histórica. Esse espaço de convergência híbrida já existe há mais de trinta anos e atende pelo nome de internet.

O ambiente conectado e as plataformas de streaming são o solo natural onde texto, áudio e imagem dialogam, se complementam e se distribuem sob demanda. O que agências e produtores precisam entender é que utilizar a internet como duto de distribuição de áudio – com eventuais registros visuais para fins de recorte promocional – é profundamente diferente de transformar a matriz editorial do rádio em uma transmissão televisiva de baixo orçamento.

Quando uma rádio se contenta em exibir quatro pessoas sentadas em volta de uma mesa com fones gigantescos e microfones tapando seus rostos, ela entrega uma péssima televisão: estática, visualmente entediante e sem dramaturgia de imagem. Ao mesmo tempo, estraga o rádio, pois engessa o timing da locução e silencia pausas que faziam sentido apenas na intimidade do som.

O rádio não precisa de maquiagem para sobreviver a 2026. Ele precisa de repórteres nas ruas, de microfones bem calibrados, de apuração rigorosa, de senso de oportunidade no tempo real e de respeito absoluto à inteligência do ouvinte. Na corrida desesperada pela atenção visual, o maior trunfo da mídia sonora é precisamente a audácia de continuar sendo, com orgulho e maestria, apenas som.

 

Referências e Materiais Pesquisados

Para aprofundar os fundamentos teóricos sobre a especificidade das linguagens sonoras e os impactos da convergência de mídias, consulte as seguintes fontes:

  1. A Linguagem do Rádio e a Teoria dos Meios Sonoros: Intercom: Grupo de Pesquisa Rádio e Mídia Sonora – Acervo de Publicações
  2. Ecologia dos Meios e Atenção Simultânea: Nieman Journalism Lab: The Pitfalls of Visual Radio and the Audio-First Paradigm
  3. Métricas de Consumo Móvel e Comportamento Multitarefa: Edison Research: The Infinite Dial & Share of Ear Research Reports
  4. Desafios Regionais e Infraestrutura de Radiodifusão: Abert – Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão: Estudos e Cenários da Radiodifusão

Álvaro Bufarah

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste Intercom: Grupo de Pesquisa Rádio e Mídia Sonora – Acervo de Publicações.

(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo.

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