Por Álvaro Bufarah (*)
A contabilidade fria dos órgãos reguladores costuma revelar verdades que o discurso publicitário tenta suavizar. Os dados oficiais consolidados pela Federal Communications Commission (FCC) para o terceiro trimestre de 2026 desenham uma curva dramática na radiodifusão norte-americana: o número total de emissoras licenciadas caiu pelo terceiro trimestre consecutivo. O sinal de alerta, contudo, não vem apenas da sangria crônica do AM – faixa que perdeu 125 outorgas desde o fim de 2024 –, mas da perda de fôlego do único segmento que vinha amortecendo essa queda: o rádio FM educativo e não comercial.

Para quem atua no mercado brasileiro de comunicação há mais de quinze anos, o cenário norte-americano soa como um espelho de advertência. No Brasil, o processo de migração do AM para o FM estendido (eFM), iniciado na década passada e regulado pelo Ministério das Comunicações e pela Anatel, buscou exatamente estancar a inviabilidade técnica e comercial das ondas médias, sufocadas pelo ruído eletromagnético dos grandes centros urbanos. Nos Estados Unidos, onde esse movimento tomou rumos distintos, a sobrevida do AM chegou a um ponto de inflexão regulatória e econômica sem precedentes.
Até 30 de setembro de 2026, a FCC registrava 4.258 estações AM ativas nos Estados Unidos – uma perda líquida de 42 emissoras em apenas três meses e de 84 desde o encerramento de 2025. O FM comercial também amarga retração: perdeu 20 licenças no trimestre, recuando para 6.540 estações e engatando o oitavo trimestre seguido de encolhimento. Até então, a expansão acelerada das emissoras educativas e comunitárias supria o saldo negativo da radiodifusão em território americano. Esse colchão protetor, entretanto, começou a esvaziar.
O segmento educativo de FM adicionou modestas 9 emissoras no terceiro trimestre (alcançando 4.815 licenças), após avanços bem mais robustos de 28 no primeiro trimestre e 23 no segundo. Quando olhamos o recorte interanual, a desaceleração é vertiginosa: o crescimento anual do FM educativo foi de apenas 1,8% (85 novas emissoras), contra um salto estrondoso de 8,1% (353 outorgas) nos 12 meses anteriores.
“O recuo simultâneo do AM e do FM comercial rompeu a linha de equilíbrio do rádio tradicional: o setor público e comunitário já não tem tração orçamentária para compensar as frequências devolvidas pelo mercado privado.”
O descompasso entre as curvas de licenciamento da radiodifusão americana evidencia a reconfiguração estrutural do setor:
- Erosão constante da faixa AM: Queda de 2,0% em doze meses, com perda acumulada de 125 estações comerciais desde o final de 2024.
- Oito trimestres de baixa no FM comercial: Recuo anual de 0,8%, totalizando 6.540 estações ativas e indicando saturação de modelos puramente baseados em compra de espaço publicitário convencional.
- Freada brusca na expansão educativa: Aumento tímido de 1,8%, contra o salto de 8,1% registrado no ciclo anterior, refletindo o aperto orçamentário enfrentado por fundações, universidades e entidades comunitárias.
- Encolhimento da infraestrutura de suporte: Os retransmissores e amplificadores de FM caíram para 8.826 equipamentos ativos (-20 unidades), limitando a extensão de cobertura de pequenas redes locais.
| Faixa / Categoria de Rádio | Licenças Ativas (3ºT 2026) | Variação Trimestral | Variação Anual (12 Meses) |
| Rádio AM Licenciada | 4.258 | -42 | -2,0% (-85) |
| Rádio FM Comercial | 6.540 | -20 | -0,8% (-54) |
| Rádio FM Não Comercial / Educativa | 4.815 | +9 | +1,8% (+85) |
| Total Combinado (AM + FM) | 15.613 | -53 | -0,3% (-54) |

Essa crise de inventário reabriu uma fratura profunda nos bastidores políticos da Revisão Quadrienal da FCC. De um lado, gigantes do setor como o Salem Media Group pressionam pela desregulamentação total dos tetos de propriedade cruzada no AM, argumentando que a fusão de operações é o único caminho para cortar custos e garantir a sobrevivência financeira dos transmissores. Do outro, associações que defendem radiodifusores minoritários – como a National Association of Black Owned Broadcasters (NABOB) – alertam que a flexibilização dessas travas funcionará como um acelerador de canibalização, empurrando as poucas emissoras de propriedade de grupos historicamente sub-representados para as mãos de megaconglomerados.
Para os profissionais que gerenciam veículos e pensam políticas de comunicação no Brasil, os números da FCC trazem uma lição estratégica incontornável. A devolução de licenças e o fechamento de parques de transmissão nos EUA deixam claro que preservar a relevância do meio sonoro não é apenas uma questão de migrar frequências no espectro; é uma batalha de sustentabilidade do modelo de negócio. Se o radiodifusor não integrar a antena à distribuição digital no painel do carro e nas plataformas conectadas, a conta da energia do transmissor simplesmente não fecha – seja em Ohio ou em qualquer capital brasileira.
Referências e Materiais Pesquisados
Para checagem direta dos relatórios regulatórios e das disputas legislativas mencionadas nesta análise, consulte as fontes abaixo:
- Relatório Oficial de Licenciamento da Radiodifusão dos EUA: Federal Communications Commission (FCC): Broadcast Station Totals as of September 30, 2026
- Cobertura Setorial do Relatório Trimestral de Radiodifusão: Inside Radio: Non-Commercial FM Growth Slows as AM Losses Mount in Q3
- Petições e Debates da Revisão Quadrienal de Propriedade de Mídia: FCC Electronic Comment Filing System (ECFS): 2022 Quadrennial Regulatory Review – Proceeding 22-459 (Salem Media & NABOB Filings)
- Histórico da Transição e Dinâmica do Espectro Sonoro no Brasil: Ministério das Comunicações e Anatel: Painel do Processo de Migração AM-FM e Faixa Estendida

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.
(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo.









