* Por Assis Ângelo
– Assis, você me fez lembrar de um personagem da novela Xica da Silva, levada ao ar pela extinta Rede Manchete, entre 1996 e 1997. Esse personagem, Damião, era um “leva e traz”. Tipo moleque de recado, só que não era moleque. Era já homem feito e sem-vergonha que fazia tudo que lhe mandavam, especialmente a rival da Xica. História tocante, baseada na trajetória real da mineira Francisca da Silva de Oliveira que fora “comprada” por um rico contratador de diamantes, João Fernandes de Oliveira.
– Realmente, uma história e tanto! O curioso disso tudo é que o Damião a que você se refere não aparece no primeiro livro sobre Chica, Memórias do Distrito Diamantino, de Joaquim Felício dos Santos (1868). Também não aparece no livro de Júnia Ferreira Furtado, Chica da Silva e o Contratador de Diamantes, publicado pela Companhia das Letras em 2003.
– Olha só, eu não sabia disso! Nessa história, como entra o tal Damião que aparece na novela?
– Simples: o folhetim eletrônico tem dessas coisas. Walcyr Carrasco, autor da novela, criou o personagem Damião pra prender a atenção dos noveleiros e noveleiras.
– Caraca! Lembro que a cena que nos remete a Damião é chocante. Chocante e absurda! E não devo lembrar aqui para não ferir o bom gosto de quem ora nos lê.
– Na vida real brasileira o nome Damião é de pouco registro nos cartórios. Na ficção, o nome Damião não é comum e nem raro. Aparece aqui e ali em pelo menos dois contos do bruxo Machado de Assis.
– É mesmo?
– Sim, sim. Em 1882, o velho Machado escreveu e publicou O Imortal e, em 1891, O Caso da Vara.
– Ah! Desse eu me lembro. Li-o na minha adolescência. Trata de um jovem seminarista que não quer seguir a carreira religiosa e o resultado é que acaba fugindo do seminário e vai pedir a uma certa Sinhá Rita, amante de um padrinho, para que interceda em seu favor junto aos pais.
– Puxa, esse conto eu ainda não li.
– Normal, Assis. Machado nos legou mais de duzentos contos, sem falar nos dez romances e dez peças para teatro.
– Isso mesmo. E como se não bastasse, ainda nos legou poemas e crônicas que no correr da vida publicou nos jornais do seu tempo.
– Bom, com relação ao caso da vara devo acrescentar o seguinte: a Sinhá Rita tem uma jovenzinha escrava a quem ameaça bater com uma vara de marmelo. O Damião do caso jura a si mesmo que vai impedir a mulher de bater na jovenzinha. Porém, ele não cumpre o que a si próprio prometera para não chamar para si eventual dissabor que ela viesse a ter.
– Interessantíssimo, Maria. Interessantíssimo também é O Imortal, originalmente publicado sob o título Rui de Leão no Jornal das Famílias em 1872 e, dez anos depois, revisto e publicado na revista A Estação. O protagonista toma um elixir e vive mais de duzentos anos. No capítulo 5° aparece um personagem de nome Damião que é salvo pelo imortal. E por aqui segue a história que tem seis capítulos.
– E a história do rapaz de olhos míopes quando vai acabar?
– Calma, Flor Maria. Termina hoje…
Na segunda-feira Damião faltou ao trabalho. Na terça também. E na quinta e na sexta. Na quarta-feira saiu por aí sem se mostrar muito, até que uma voz perguntou:
– Moço, assustado?
Um tiro ouviu-se e a voz calou-se para sempre.
Damião agora tornara-se um assassino, um perigo à sociedade.
E passou-se o sábado, o dia. À noite, bateram-lhe à porta e levaram-no preso ao Distrito Policial, transtornado. E lhe fizeram perguntas. E não ouviram respostas e nem nada.
Nada.
Num cubículo, com mais alguns infratores incuráveis, Damião hoje permanece a um canto de parede imundo, fitando um ponto imaginário, com os olhos desprotegidos de lentes de graus. Sempre calado e submisso, até que alguém grita interrogativamente:
– Assustado, Damião?

– Gostou, Maria?
– Pra falar a verdade, gostei. O cara parece que fica doido mesmo, hein? Do nada ele saca um revólver e pum! A vítima cai no chão já mortinha da silva.
– Nos meus tempos de lá de trás, foi não foi eu publicava poemas e contos em suplementos literários como Correio das Artes, que circulava nos fins de semana como encarte do quarto mais antigo jornal do País ainda em circulação: A União, do qual também fui colunista.
– Muito bem, muito bem. E quando teremos mais um conto da sua lavra aqui nestas páginas?
– Sei lá, não sei.
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