Por Assis Ângelo
Antônio Feliciano de Castilho nasceu em Lisboa no ano de 1800 e morreu na mesma cidade, aos 75 anos de idade.

A história pessoal dele foi bastante tumultuada, cheia de percalços em praticamente todas as esquinas da vida. Castilho tinha cerca de 6 anos quando ficou praticamente cego. Mesmo assim, achou o caminho da escola, dos estudos. Ainda rapazola passou a estudar na conceituadíssima Universidade de Coimbra, onde diplomou-se em Direito.
É intensa e significativa a obra desse português.
Além de cursar Direito, passou a estudar línguas e a traduzir obras do latim, do italiano e do francês para a fala da sua terra.
Do seu fazer literário destacam-se poemas e outros textos identificados com a linha do romantismo, entre os quais A Noite do Castelo (1836), adaptada 25 anos depois como ópera pelo paulista de Campinas Antônio Carlos Gomes (1836-1896).
Figura de destaque no seu tempo, Castilho não se recusava a participar de boas polêmicas, como a que teve como provocador seu antigo pupilo Antero de Quental (1842-1891). No caso, o bate-boca teve como pauta o Romantismo e o Realismo, este último defendido à exaustão por Quental.
Quental matou-se, não por causa da referida polêmica. Mas essa é outra história.
Entre outros desafetos de Castilho achavam-se Teófilo Braga e Eça de Queiroz.
Pois bem, como já foi dito, Portugal preserva a sua história não só na área política, mas também na área literária. E na jurídica.
São muitos e muitos os literatos portugueses que enveredaram pelos caminhos da lei e concluíram curso de Direito na tão falada Universidade de Coimbra.
Além de Antônio Feliciano de Castilho, também se formaram em Direito Eça de Queiroz e Teófilo Braga.
O Direito tem história de muito tempo.
Em 1494, o jurista alemão Sebastian Brant (1457-1521) publicou o livro A Nau dos Insensatos. Nessa obra, o autor descreve uma longa viagem fictícia com destino a uma tal terra de loucos. Nessa viagem àquela terra se acham figuras representativas de uma sociedade que vive o tempo todo produzindo e consumindo absurdos. Entre tais figuras há padrecos, doutores advogados, juízes e réus diversos que tumultuam o ambiente e fazem dos cidadãos mais simples suas vítimas.

Pois é, o ontem parece hoje.
No século 19, o russo Nikolai Gógol criou e publicou uma historinha a que deu o título de Diário de um Louco (1835). Quem não leu essa obra, está mais do que na hora de a ler.
Onde se acham os cegos nesses livros?
Bom, cegos se acham em quase todos os livros, e talvez em todas as línguas.
Ah, sim: no livro de Brant aparece pela primeira vez na história a figura de uma mulher com venda nos olhos representando a Justiça. O significado é simples: os olhos escondidos indicam o caminho a ser tomado por juízes diante de réus, sejam eles quem forem.
Será que essa história toda tem a ver com o nosso centenário STF e os juízes que ora o representam?
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