Por Álvaro Bufarah (*)
O retorno anunciado da Rádio Eldorado ao dial da capital paulista provoca, em qualquer profissional da comunicação e ouvinte exigente, uma inevitável sensação de alívio. Em um espectro sonoro dominado por formatos pasteurizados, repetições algorítmicas de paradas populares e discursos inflamados que beiram o histrionismo, a Eldorado sempre foi a antítese do ruído. Sua tradição como “os melhores ouvintes” traduziu, por décadas, um pacto silencioso de civilidade: curadoria musical refinada, jornalismo de fôlego baseado no espólio centenário do Estadão e respeito absoluto ao tempo reflexivo de quem está do outro lado do receptor.
A celebração da sua presença no ar é legítima e necessária. O rádio em São Paulo fica indiscutivelmente mais inteligente quando os acordes da Eldorado encontram frequência para ecoar. No entanto, em análise jornalística rigorosa – própria de quem acompanha as entranhas da indústria da mídia sonora –, o aplauso afetivo não pode silenciar a sobriedade crítica. Se a nova movimentação se ancorar nos mesmos vícios de gestão que ditaram o destino da emissora na última década, o mercado assistirá apenas à repetição melancólica de uma crônica há muito anunciada.
A história recente expõe uma sequência de decisões estratégicas que fragilizaram o patrimônio radiofônico do Grupo Estado. O ponto de inflexão mais dramático deu-se no início de 2020, quando o conglomerado optou por negociar sua tradicional concessão própria nos 92,9 MHz – frequência histórica operada como Eldorado e, posteriormente, Estadão ESPN / Estadão FM – com a Rede Massa FM, de Carlos Roberto Massa, o Ratinho. A venda do canal próprio, um dos ativos mais valorizados do dial paulistano, empurrou a Eldorado de volta para uma condição de dependência e trânsito contínuo por frequências de terceiros.
A sobrevivência da emissora nos últimos anos nos 107,3 MHz já espelhava essa fragilidade estrutural. A frequência – pertencente à Fundação Brasil 2000 – dependia de contratos de gestão e locação com prazos de validade e incertezas jurídicas constantes. Essa itinerância pelo dial cobra um preço alto da audiência e do mercado anunciante: enfraquece o top of mind, gera descontinuidade na memória do ouvinte no carro e transmite ao mercado publicitário uma sensação crônica de precariedade institucional.

O problema central nunca esteve na bancada, no microfone ou na programação musical. A Eldorado sempre reuniu um time de jornalistas, produtores e locutores de excelência. A fratura exposta localiza-se na cúpula do Grupo Estado, que há muito parece enxergar o rádio não como um vetor contemporâneo de inovação transmídia, áudio digital e conexão comunitária, mas como um centro de custos secundário, administrado ao sabor de ajustes orçamentários de curto prazo. Faltou visão para integrar o rádio à revolução do podcasting e do áudio sob demanda com investimentos maciços em tecnologia e novos estúdios; faltou agressividade comercial para disputar contas publicitárias de peso além dos nichos cativos; e faltou, sobretudo, a convicção de que um veículo líder precisa de solidez patrimonial no ar.
O dial de São Paulo em 2026 não tolera amadorismo executivo nem sobrevida ancorada exclusivamente em nostalgia. Trata-se do mercado publicitário mais disputado e profissionalizado do País, onde redes consolidadas operam com frotas de transmissão de alta potência, forte sinergia com plataformas digitais de vídeo e presença onipresente em ecossistemas veiculares conectados. A Eldorado não concorrerá apenas com seus pares de programação adulto-contemporânea; concorrerá pela atenção de um ouvinte hiperfragmentado entre streamings globais, podcasts informativos e redes sociais sonoras.
Nenhuma força-tarefa de relações públicas, nenhum banho de loja em redes sociais ou campanha de marketing baseada no saudosismo sustentará a emissora se não houver um compromisso inequívoco de aporte financeiro, estabilidade de sinal e independência operacional. A marca Eldorado carrega valor intangível inestimável. Resta saber se o Grupo Estado aprendeu as lições dos últimos tropeços ou se insistirá em tratar um dos maiores patrimônios do rádio brasileiro com a miopia de quem ainda não entendeu o tamanho da responsabilidade que tem nas mãos.

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.
(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País.









