Por Álvaro Bufarah (*)

Nas mesas de reuniões das grandes agências e veículos de comunicação de São Paulo ou do Rio de Janeiro, um fantasma ronda o planejamento estratégico de 2026: a inteligência artificial generativa. Mas, longe do otimismo cego dos relatórios de consultorias puramente tecnológicas, quem vive o dia a dia do mercado de áudio e do jornalismo tradicional sabe que a relação do público com o algoritmo é cirúrgica e, acima de tudo, desconfiada. O uso explodiu, é verdade. Mas o nível de cautela nunca foi tão alto.

Dados consolidados do Techsurvey 2026, estudo anual de referência que analisa o comportamento da audiência em mais de 500 emissoras, jogam um balde de água fria nos defensores da automação artística integral. A pergunta de um milhão de dólares feita aos ouvintes – a maioria deles considerada heavy users de mídia – foi direta: vocês aceitariam que sua estação favorita trocasse artistas reais por canções criadas por inteligência artificial? A resposta, longe de ser morna, foi um sonoro “não”. Quase 75% dos entrevistados cravam que a música gerada por IA seria um fator decisivo para sintonizar a concorrência.

O paradoxo que os comunicadores acima dos 30 anos precisam decifrar para liderar suas equipes está na linha tênue entre a ferramenta e o produto final. Nós triplicamos o uso de IA nos fluxos de trabalho e estudo nos últimos dois anos. No topo dessa pirâmide utilitária estão os Millennials, com 37% de adoção semanal. No entanto, quando a tecnologia deixa de ser o meio para se tornar a “alma” do conteúdo – personificada em músicas ou vozes sintéticas –, a rejeição é imediata, especialmente entre a Geração Z.

Há uma profunda carga socioeconômica nesse comportamento. Enquanto o mercado corporativo costuma pintar os mais jovens como entusiastas de qualquer disrupção digital, 81% da Geração Z manifestam preocupação real e alarme com o crescimento veloz da inteligência artificial. Como bem apontam analistas internacionais do setor de mídia, essa fatia do público não está apenas exercendo um julgamento estético; eles estão lendo o cenário macroeconômico. Há um temor real de que as vagas de nível básico – a porta de entrada para jovens jornalistas, publicitários e criadores de conteúdo – desapareçam tragadas pela automação. A Geração Z já sente no bolso e na pele o impacto da IA nas contratações.

Para marcas e veículos que buscam relevância no ecossistema de mídia brasileiro, o termômetro atual aponta que o contra-ataque à pasteurização algorítmica não é tecnológico, mas cultural. Não por acaso, grandes conglomerados globais de mídia têm colhido resultados expressivos ao adotar selos de garantia de conteúdo 100% humano, uma estratégia que encontra eco em 60% dos ouvintes, com destaque histórico na audiência feminina.

A inteligência artificial, contudo, é apenas um capítulo na complexa reconfiguração do ecossistema de áudio em 2026. O avanço tecnológico exige que os radiodifusores olhem para três pilares fundamentais que a automação não consegue replicar:

  1. O poder do localismo e da personalidade – Em um mundo globalizado e artificialmente perfeito, a conexão local, o sotaque, a piada interna da cidade e a credibilidade da voz que o ouvinte conhece há anos continuam sendo moedas insubstituíveis.
  2. A guerra pelo “carro conectado” – A migração da audiência para o ambiente digital é um caminho sem volta. O desafio atual das emissoras é garantir relevância visual e interatividade nos painéis dos automóveis modernos, transformando o dial em uma experiência multiplataforma integrada.
  3. A força imbatível da gratuidade – Em uma era de fadiga de assinaturas (streaming fatigue), em que o consumidor se vê sufocado por dezenas de mensalidades de plataformas de vídeo e áudio, o rádio mantém seu apelo histórico de entretenimento gratuito e de fácil acesso.
(Crédito: Freepik)

Para os profissionais que moldam o mercado de comunicação brasileiro, a lição de 2026 é clara: a inteligência artificial deve ser vista como uma aliada de infraestrutura para otimizar a distribuição, melhorar a experiência nos carros conectados e gerenciar dados de audiência. Mas na hora de criar conexão, emocionar e reter a atenção do público, o segredo do sucesso comercial ainda reside naquilo que é imperfeito, local e essencialmente humano.

 

Para saber mais:

Resultados e Insights Globais do Estudo de Mídia: Jacobs Media Techsurvey 2026: Official Research Hub

Tendências de Consumo em Carros Conectados e Plataformas Digitais: Barrett Media: AM/FM Radio Listening Hits All-Time Low as Digital Surges

Análise de Dados sobre Envelhecimento de Audiência e Desafios de Mercado: Radio Ink: Techsurvey 2026 – Radio’s Core Aging Out Of Demo

Estratégia Corporativa e Métricas de Campanhas de Conteúdo Humano: Radio Ink: iHeart CCO Crunches the Numbers Behind ‘Guaranteed Human’

Estudo de Caso sobre Engajamento e Receptividade do Consumidor: iHeartMedia Insights: Guaranteed Human at CES 2026 – Real Voices Drive Real Outcomes

Posicionamento de Branding e Distribuição de Conteúdo Comercial: Editor and Publisher: iHeartMedia makes ‘guaranteed human’ a core branding message across all stations


Álvaro Bufarah

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.

(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo.

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