Por Assis Ângelo

Nos livros dos nossos grandes escritores do século 19 já havia figuras parecidas com o seu Joãozinho Bem-Bem do mineiro Guimarães Rosa?

Claro, Flor Maria. Existiam, sim. O Zé de Alencar, por exemplo, nos apresenta figuras ingênuas e violentas como no romance Til (1871).

E cantadores, violeiros, também já apareciam nos livros como personagens reais ou fictícios?

A Serra do Teixeira é uma localidade paraibana que faz divisa com Pernambuco. Foi nessa região que surgiram os primeiros poetas improvisadores autoacompanhando-se de viola ou pandeiro.

Aliás, entrou para a história do repentismo a peleja de Romano de Mãe D’água e Inácio da Catingueira, que era um negro escravizado sem pai nem mãe. No improviso poético e no toque do pandeiro era tido como gênio. Essa peleja é citada em livros de Rodrigues de Carvalho, Câmara Cascudo, Leonardo Mota e tal. Mota chega a registrar no livro Cantadores (1921) um embate histórico de Zefinha do Chabocão e Jerônimo do Junqueiro. Esse encontro foi narrado a Mota pelo cego cearense Sinfrônio. Começa assim:

Leonardo Mota

Quando estralou a notiça

Que o fama tá na ribêra,

Era tanto do canto

Que enchia o quadro da fera:

Accudiu Antonio dc Salle

Mais o Gerome Morêra;

Accudiu Antonio Pendença,

Santiago de Otivera;

Accudiu o Virgolino

E o Romano do Teixêra;

Herculano de Messia

Cego Vicente Barréra,

E o Fausto Correia Lima

Das Lavra da Mangabêra.

 

Nenhum destes me passou

O pé adiante da mão;

Só achei duas mulhére;

Tinha a pintura do cão;

Naninha Gorda dos Brejo,

Zefinha do Chabocão.

 

Eu tava numa funcção

Na fazenda “Cacimbinha”,

Quando vejo um positivo

Pedindo notiça minha,

Dando um recado atrevido,

Que me mandava a Zefinha.

 

Nesse tempo eu era limpo,

Mettido um tanto a pimpão,

Vesti-me todo de preto,

Calcei um par de calção. 

Botei chapéo na cabeça

E um chapéo de sol na mão;

Calcei os meus bruziguim,

Ageitei meu correntão,

Nos dedo da mão direita

Levava seis annelão,

Tres meu e tres emprestado:

Ia nestas condição…

 

Quando eu cheguei no terreiro

Um moço vêi me falá:

“Cidadão, se desapeie,

Venha logo se abancá,

Faz favo de entrá pra dentro,

Tome um copo de aluá”.

 

Me assentei perante o povo,

(Parecia uma sessão)

Quando me saiu Zefinha

Com grande preparação:

Era baixa, grossa e alva,

Bonita até de feição;

Cheia de laço de fita,

Trancellim, collá, cordão;

Nos dedo da mão direita

Não sei quantos annelão…

Vinha tão perfeitazinha,

Bonitinha como o cão!

Para confeito da obra:

Uma viola na mão…

 

No repentismo e na literatura de cordel existem muitos personagens criados pela imaginação vigorosa de poetas populares como Leandro Gomes de Barros (1865-1918). É dele, por exemplo, o vagabundo profissional Cancão de Fogo, criatura inspirada numa ave muito comum no Nordeste.

Leandro Gomes de Barros e seu cordel

O moleque Cancão, que na história era órfão de pai, especializou-se em fazer nada. Vivia de golpes que aplicava em pessoas abonadas. Justificava isso dizendo que nada mais estava fazendo do que apossar-se dos próprios bens. Quer dizer: não respeitava as regras do capitalismo.

Uma hora de papo pro ar, soltou essa quadrinha:

 

Eu creio no que vejo

E acredito no que pego

Reza pra quem já morreu

É como luz para cego

 

Bom, ele disse isso e eu digo isto:

 

Mas só a luz nos olhos

Não basta para quem quer ver

É preciso abrir as portas

Da escola do saber

Contatos pelo http://assisangelo.blogspot.com.

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