Por Álvaro Bufarah (*)

A expansão dos chamados “desertos de notícias” nos Estados Unidos deixou de ser apenas um problema localizado para se tornar um fenômeno estrutural – com implicações diretas para a qualidade da informação, o funcionamento da democracia e a própria cultura midiática contemporânea. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, o desaparecimento do jornalismo local não produz necessariamente um vazio informativo. Ele produz algo mais complexo – e, em muitos casos, mais perigoso: um ecossistema onde a informação continua circulando, porém sem mediação profissional consistente.

Levantamento da Medill Local News Initiative indica que em áreas com escassez de cobertura jornalística pouco mais da metade dos moradores passa a depender de fontes não jornalísticas – como redes sociais, influenciadores digitais, grupos comunitários e relações interpessoais – para se manter informada. Trata-se de uma inversão significativa na lógica de consumo de notícias: o jornalismo deixa de ser a principal referência, cedendo espaço a circuitos informais de informação.

Esse cenário se insere em uma transformação mais ampla da indústria. Nos últimos 20 anos, cerca de 40% dos jornais norte-americanos fecharam – aproximadamente 3.500 veículos –, reduzindo drasticamente a presença de cobertura local em centenas de comunidades . Atualmente, cerca de 50 milhões de pessoas vivem em regiões com acesso limitado ou inexistente a notícias locais, incluindo mais de 200 condados classificados como desertos informativos.

No entanto, talvez o dado mais inquietante não seja a escassez em si, mas a forma como ela é percebida – ou, mais precisamente, não percebida. A pesquisa mostra que moradores dessas regiões não se consideram desinformados. Pelo contrário, relatam facilidade no acesso a notícias. O problema está na redefinição do que passa a ser entendido como “notícia”.

Grupos em redes sociais, transmissões de TV de outras localidades, mecanismos de busca e influenciadores digitais compõem esse novo repertório informativo. Cerca de 42% dos entrevistados afirmam acessar diariamente grupos comunitários online, enquanto 41% recorrem a telejornais – muitas vezes sem cobertura direta de suas próprias cidades. Em seguida aparecem buscadores (35%), amigos e familiares (33%) e influenciadores (30%).

O resultado é um ambiente informativo onde há abundância de conteúdo, mas escassez de verificação, contexto e investigação. Sem jornalistas locais, desaparece também a capacidade de acompanhar decisões públicas, fiscalizar autoridades e construir narrativas consistentes sobre o cotidiano das comunidades.

Esse fenômeno não é exclusivo dos Estados Unidos. No Brasil, observa-se um processo semelhante, especialmente em regiões do interior e em municípios de pequeno e médio porte. Estudos do Atlas da Notícia indicam que centenas de cidades brasileiras também enfrentam escassez de veículos jornalísticos locais, criando bolsões informativos onde a cobertura é limitada ou inexistente.

Nesse contexto, o rádio – especialmente em sua dimensão local e comunitária – assume um papel estratégico. Diferentemente dos jornais impressos, que sofreram perdas mais acentuadas com a digitalização, o rádio mantém presença territorial, capilaridade e, sobretudo, vínculo com a comunidade.

Em muitas cidades brasileiras, emissoras locais – sejam comerciais, comunitárias, educativas ou universitárias – funcionam como uma das poucas fontes regulares de informação sobre o cotidiano. Programas jornalísticos, boletins informativos e até formatos híbridos (entre jornalismo e prestação de serviço) ajudam a suprir, ainda que parcialmente, a lacuna deixada pelo desaparecimento de jornais.

Mas essa substituição não ocorre sem tensões. Em alguns casos, rádios locais operam com recursos limitados, equipes reduzidas e forte dependência de anunciantes ou estruturas políticas locais. Isso pode afetar a autonomia editorial e reduzir a capacidade investigativa – elementos centrais do jornalismo.

Além disso, assim como nos Estados Unidos, as redes sociais também passam a ocupar espaço relevante no interior brasileiro. Grupos de WhatsApp, páginas no Facebook e perfis de influenciadores locais tornam-se fontes recorrentes de informação – e, frequentemente, de desinformação.

A semelhança entre os dois contextos revela um padrão global: quando o jornalismo local enfraquece, não há ausência de informação – há substituição por formas menos estruturadas e menos verificadas de circulação de conteúdo.

E os impactos vão além da esfera informativa. A pesquisa da Medill aponta que moradores de áreas com escassez de notícias confiam menos na mídia, interagem menos com jornalistas e têm menor propensão a apoiar financeiramente veículos de comunicação. Trata-se de um ciclo de retroalimentação: menos jornalismo gera menos confiança, que por sua vez dificulta a reconstrução do próprio jornalismo.

No Brasil, esse fenômeno também se manifesta, especialmente em regiões onde a relação entre mídia e comunidade se fragiliza. Sem presença constante de jornalistas, o trabalho informativo torna-se abstrato – distante do cotidiano das pessoas. E, sem essa proximidade, perde-se um dos principais pilares da credibilidade: o reconhecimento.

Outro ponto crítico é o impacto no engajamento cívico. Sem cobertura local consistente, reuniões públicas deixam de ser acompanhadas, decisões passam a ter menor visibilidade e a capacidade de fiscalização social se reduz. Em ambos os países, relatos indicam aumento da circulação de informações imprecisas e dificuldade de acesso a dados confiáveis sobre a gestão pública.

Ainda assim, o aspecto mais complexo desse processo é sua naturalização. Assim como no caso norte-americano, moradores de regiões brasileiras com baixa cobertura jornalística frequentemente não percebem a ausência como problema. Adaptam-se às fontes disponíveis e incorporam novas rotinas informativas.

É nesse ponto que o conceito de “deserto de notícias” ganha força simbólica. Não se trata apenas de ausência, mas de adaptação à escassez – uma condição em que a falta de jornalismo deixa de ser percebida como perda.

Do ponto de vista estrutural, o avanço desses desertos – nos Estados Unidos e no Brasil – coloca em evidência um desafio central: como reconstruir ecossistemas locais de informação em um ambiente marcado por transformações tecnológicas, pressões econômicas e mudanças de comportamento do público.

O rádio, especialmente em suas formas locais e comunitárias, surge como parte da resposta – mas não como solução isolada. Sua força está na proximidade, na presença cotidiana e na construção de vínculo. Mas sua sustentabilidade e capacidade de atuação dependem de políticas públicas, modelos de financiamento e inovação editorial.

No fim das contas, o que está em jogo não é apenas o futuro de um meio ou de um formato. É a própria capacidade das comunidades de compreender, debater e participar da realidade em que estão inseridas.

E talvez o dado mais revelador – tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil – seja este: em muitos lugares, o jornalismo local já não desaparece de forma abrupta. Ele se dissolve lentamente, até que sua ausência deixe de ser percebida.

Fontes para pesquisa


Álvaro Bufarah

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.

(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo.

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