Leonêncio Nossa mostra, já no título, o estilo de narração de seu livro João Guimarães Rosa, biografia (Nova Fronteira), resultado de pesquisas ao longo de uma década. As quase 800 páginas vêm com dezenas de fotos e acompanham o percurso humano e intelectual do autor de Grande sertão: veredas. Amparado por documentos raros e depoimentos reveladores, Nossa traz informações inéditas e aspectos do autor que, em suas palavras, ‘viveu várias vidas numa só’.

Da infância no interior de Minas Gerais à morte no Rio de Janeiro – dois dias após tomar posse na Academia Brasileira de Letras –, a biografia mostra a carreira de Rosa como médico no interior e diplomata em tempos de guerra. Foram cerca de 60 anos em que o biografado participou de momentos históricos, como a Revolução de 1932 e a Alemanha nazista, o início da Guerra Fria, e viveu sob a ditadura militar. Ao mesmo tempo, desenvolvia uma obra inovadora como poucas na literatura brasileira. Poliglota apaixonado pelas palavras e pela experimentação linguística, Rosa construiu sua obra entre boiadas sertanejas, bombardeios em Hamburgo e cabarés da Paris do pós-guerra.

Sua atuação como diplomata na Alemanha nazista foi monitorada pela polícia secreta. A ajuda aos judeus, encabeçada por sua mulher Aracy de Carvalho e por ele amparada em termos institucionais no consulado brasileiro de Hamburgo, quando facilitou trâmites burocráticos, representou riscos que comprometeriam sua carreira diplomática.

Leonêncio Nossa

Em entrevista para O Globo, Nossa refuta a imagem de Rosa, chamado certa vez por João Cabral de Melo Neto de “menino do mato”. Afirma ainda: “O sertão de Rosa é um mundo com seu dinamismo próprio, suas redes, suas interações, suas relações econômicas e políticas. Ele nunca disse que o sertão dele é rural. Foram os estudos, as camadas ao longo do tempo que sempre colocaram aquilo como um lugar fechado, isolado do mundo, como se fosse só o mundo da pecuária”.

No Brasil dos anos 1960, Rosa era considerado um escritor “folclórico”. O Jornal do Brasil criou uma coluna no suplemento dominical que tinha por título uma provocação: Acredita em Guimarães Rosa?. Sem reconhecimento pelo trabalho inovador que ele sabia realizar, encontrou acolhida em O Globo, que abrigou sua coluna Guimarães Rosa conta…, publicada aos sábados.

A obra de Rosa, hoje reconhecida por “potencializar as oralidades brasileiras”, foi assim definida pelo biógrafo: “O escritor teria buscado incorporar não apenas o português sertanejo, mas também vocábulos africanos, indígenas e até os sons dos animais, criando uma língua que fosse capaz de expressar a complexidade do mundo que queria narrar”.

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