Por Jorge Eduardo Antunes

Corria o ano de 2008 e eu ocupava, à época, o cargo de editor-chefe do Jornal de Brasília, o mais alto daquela redação. O empresário e ex-senador Paulo Octávio, com quem viria a trabalhar anos depois, era o então vice-governador do DF e me convidou para uma entrevista no programa que Aristóteles Drummond mantinha em um canal regional. Aceitei, com meu habitual bem-humorado mau humor, sem saber o que me esperava.

Após a gravação, que transcorreu sem maiores problemas, me encaminhei ao meu carro, quando o vice-governador me chamou para um evento insólito. “Vamos jantar com o Julio Iglesias?”, disparou. Pensei ter ouvido errado, mas me lembrei que naquele mês de março ele faria um show na capital do País. Não tinha mais compromissos e topei – afinal, iria ver o ídolo da minha mãe. PO, como é conhecido o político Paulo Octavio, entrou no banco carona do meu carro, para minha surpresa (e dos seguranças e de seu motorista). E lá fomos nós para a churrascaria, de uma extinta rede nacional.

Havia, na filial de Brasília, salas reservadas para eventos. Era lá o jantar com o cantor e entourage – um séquito de mulheres de todas as idades, secundadas pelos empresários que bancavam a turnê do espanhol no Brasil. Eu e PO sentamos ao lado de Julio, ele à direita do interprete de Manuela, eu à esquerda. Ao meu lado, o assessor do vice-governador, o queridíssimo Darse Júnior, que deu seus primeiros passos jornalísticos na redação do JBr.

Notei que, na mesa, havia várias garrafas de bebida, em especial três de vinho, das de 1,5 litro. Na época, estava sem beber, pelo quinto ano. PO e Julio Iglesias começaram uma conversa em portunhol sobre dona Sarah Kubitschek, bisavó de seus filhos mais novos e amiga do espanhol. Mas logo o papo morreu. O cantor dispersava-se rápido, mexia com as mulheres, e isso constrangia PO, sempre muito comedido e que quase não bebia.

A certa altura, Julio Iglesias começou a conversar comigo, após PO me apresentar a ele. Como tenho nível intermediário de espanhol, comecei a falar na língua de Cervantes. E fui logo perguntando dos tempos em que ele era goleiro do time júnior do Real Madrid. Seus olhos brilharam e nós dois engatamos um papo sobre futebol, política e morenas, três paixões que vimos que eram comuns.

Já embebido no vinho, que mais tarde eu descobriria ser francês, Julio Iglesias começou a me elogiar para todos, sem que eu soubesse o porquê.  Virava para PO e dizia “Paulo, este hombre es un genio”, o que denotava claramente seu estado etílico, pois, para mim, apenas falávamos platitudes. E, a certa hora, ele insistiu: “Jorge, prueba este vino”. Olhei para a garrafa e lá estava escrito o que eu não esperava: Château Margaux, 1982. Vinho que jamais teria dinheiro ou paladar para beber.

O dilema era de fácil solução: eu ia beber. Não havia outro jeito. Não dava para ignorar a oferta, quem oferecia e nem a qualidade do que seria degustado. Eu e Darse nos servimos e, ao provar, decidi que aquilo é que era bebida. Não ia tomar algo assim nunca mais, mas certamente voltaria a apreciar um bom vinho, com moderação – algo que fiz regulamente até a Covid quase me matar, em agosto do ano passado.

Sorvemos algumas taças, até que Julio Iglesias deu PT – a famosa perda total. Foi preciso levá-lo até um táxi e o encarregado de ampará-lo fui eu… Braço embaixo da axila esquerda e mão na direita, conduzi o megastar até o carro, que o levou ao hotel. Não sem antes ser intimado a ir ao show e ouvir ele dizer a PO, por umas dez vezes, que eu era um gênio – e até hoje eu acho que foi o Margaux que o convenceu disso.

Entrei no meu carro, deixei PO com seus motoristas e seguranças e fui para casa, contar aquela noite doida para Andreia Salles, jornalista e minha esposa. Cheguei a cantarolar Hey por breves momentos, mas logo me concentrei no som do carro. Não era época de Spotify, não tinha CD dele no carro e era bom cuidar do volante depois de me inebriar com Margaux em seu chateau…

Mas, ao chegar, mudei de ideia e liguei para minha mãe, contando do jantar. E levei uma bronca: “O senhor, hein… nem para pegar um autógrafo para mim”. Essa dona Nair era fogo!


Jorge Eduardo Antunes

A história desta semana é de outro estreante no espaço, Jorge Eduardo Antunes, ex-diretor de Comunicação das Organizações Paulo Octávio e ex-editor chefe do Jornal de Brasília, entre outros, atualmente titular do programa Ponto e Vírgula, na Rádio JK FM, da Capital Federal.


Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

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