O teclado que não tinha a letra O

Foca recém-chegado no final da década de 1960, um companheiro (que hoje já partiu) recebeu como missão me acompanhar numa entrevista. Devia escrever seu texto e comparar com o meu que, com quatro anos de jornal, era considerado veterano. Era assim que se ensinava jornalismo.

O entrevistado, sapateiro italiano, viera expor suas “obras de arte” calçáveis e tudo correu bem. Voltamos ao jornal, indiquei uma máquina para o foquinha, escrevi a matéria e esperei o foca, que não terminava nunca. Quando fui à mesa dele, explicou que estava demorando “porque essa máquina não tem a letra O”.

Assim, cada “O” que precisava teclar ele tirava a lauda, escrevia o “O” à mão e voltava a pôr o papel na máquina. É claro que havia o “O”, mas na oficina o consertador de máquinas tinha substituído a tecla que caíra por uma com o “W” gravado. Para quem dominava o teclado não havia problema… a não ser para o foca.

Já com vários repórteres rindo, perguntei ao foca porque não trocara de máquina por outra com o “O”. Ele olhou a redação, já vazia, e perguntou: “Trocar com quem, não tem ninguém escrevendo….”.

Passados uns dias o Leônidas, saudoso contínuo da recepção, recebeu mais um “inventor maluco”, figura comum na redação da Major Quedinho. O carinha explicou que o grande problema do mundo era o desperdício de alimento e a falta de energia. Por isso bolara uma maneira ultrarrápida de defumar peixe para preservá-lo e tinha certeza de que os americanos queriam roubar sua ideia, motivo pelo qual decidira divulga-la no Estadão.

O problema é que a invenção não estava totalmente pronta, metade do peixe ficava perfeito, mas a outra metade podre, como se podia ver no sanduiche de sardinha semidefumada e semipodre que ofereceu ao repórter. Mas era preciso divulgar a invenção mesmo incompleta, insistiu, ou os gringos levariam mais essa brilhante ideia brasileira.

Quem viveu aquela época sabe que toda semana apareciam inventores, de motores a água, de prédios pré-fabricados baratíssimos, de foguetes para ir à Lua, por isso o repórter indicado agradeceu o sanduiche semipodre, voltou para a redação… e colocou o sanduiche no bolso do paletó do mesmo foquinha.

Moacyr Castro

O eterno chefe Moacyr Castro não sabia do trote, chamou o foca (já não tão foca, com duas semanas de jornal) e o mandou ao Ibirapuera para uma cobertura. O foca pegou o táxi, chegou ao Ibirapuera, enfiou a mão no bolso para pegar a grana… sentiu o melado do sanduiche semipodre (ou semidefumado, dependendo do ponto de vista). Com um nojo incrível não desceu do táxi, mandou o motorista dar meia-volta. Voltou à redação, exigindo que alguém tirasse o sanduiche do seu bolso. A história se espalhou e o Moacyr dizia que a matéria não foi feita “porque mandei o repórter e ele disse que o Ibirapuera não estava lá”. Maldade do Moacyr, o foca foi efetivamente ao parque, mas achou que fazer entrevista com peixe podre no bolso, isso não faria.

Meses depois, já “veterano”, o mesmo jornalista, já não mais foca, teve que confrontar Paulo Maluf, então presidente da Caixa Econômica, acusado de uma falcatrua qualquer. Chegou, acusou, falou das provas, cobrou uma resposta. No seu estilo tradicional Maluf ignorou a pergunta e disse: “Muito bom você estar aqui, pois podemos lançar um projeto para financiar casa própria para os jornalistas, o que você acha, qual o valor a Caixa deve oferecer?” E falando dos detalhes do projeto, recomendou que levasse a proposta ao Sindicato, foi direcionando o jornalista para a porta de saída sem, é claro, qualquer resposta ao assunto da pauta.

Furioso, o ex-foquinha denunciou na redação a proposta indecorosa, esbravejou que nunca pensou que alguém tentasse comprar seu silêncio… e comprou uma briga com vários colegas que que suspiraram desanimados quando o projeto inexistente da Caixa não saiu. 

Bebeto Queiroz

A história desta semana é novamente de Luiz Roberto de Souza Queiroz, o Bebeto (lrobertoqueiroz@uol.com.br), assíduo colaborador deste espaço, que esteve por muitos anos no Estadão e hoje atua em sua própria empresa de comunicação.

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