Morre Roberto Civita

Exatos cinco dias após a morte de Ruy Mesquita, do Grupo Estado, aos 88 anos, morreu em São Paulo na noite desde domingo, 26 de maio, aos 76 anos de idade, no mesmo Hospital Sírio Libanês, Roberto Civita, presidente do Grupo Abril. Civita estava internado havia três meses para a correção de um aneurisma abdominal, mas o rompimento da veia aorta e uma hemorragia de grandes proporções, durante a cirurgia para a implantação de um stent, tornaram o quadro grave, a ponto de já naquele momento a empresa ter anunciado a transferência interina da Presidência Executiva do Grupo para o filho Giancarlo Civita, o Gianca. Desde então, embora representantes da empresa tentassem mostrar algum otimismo, garantindo que em alguns meses Civita voltaria ao comando, já se sabia que isso seria quase impossível pelo seu estado de saúde. Rumores, à época, davam conta de que ele recebera 17 litros de sangue até que a hemorragia fosse estancada, não sem as consequências que se seguiram. Nota no site da Abril (www.abril.com.br) informa que Civita deixa a mulher Maria Antonia, os filhos do primeiro casamento Giancarlo, Roberta e Victor, além de seis netos e enteados. O corpo foi cremado nesta segunda-feira, 27 de maio, no Crematório Horto da Paz, em Itapecerica da Serra, São Paulo. Morte de Civita é destaque nos principais portais informativos A morte de Roberto Civita entrou para as manchetes dos principais portais de notícias já na noite do próprio domingo. Embora todos trouxessem um pouco da história de RC, caso de sua origem italiana (nasceu em Milão), da saída da família da Itália para fugir do nazismo, do período em que viveu e estudou nos Estados Unidos, da volta ao Brasil quando convenceu o pai a bancar lançamentos editoriais que mudariam a face da Abril, como Veja, Exame e Playboy, há em cada matéria curiosidades que se complementam. O G1 (Globo.com), por exemplo, lembra que no ranking da revista Forbes, publicado em março, Roberto Civita e família aparecem como a 11ª maior fortuna do Brasil e a 258º maior do mundo, com um patrimônio estimado em US$ 4,9 bilhões. O UOL, do Grupo Folha, destaca a entrevista que Civita deu ao Valor Econômico em 2012, quando falou sobre a agressividade da revista Veja: “Se você não está gerando reações fortes, está fazendo algo errado. Não acredito em imprensa que quer agradar a todo mundo. Por que você faz uma revista? Só para ganhar dinheiro? Eu acho que vem junto uma responsabilidade. Eu falo isso há 50 anos… Para todo mundo. Para os meus filhos. Eles não gostam, mas eu falo. Se você não quer ter a responsabilidade, vai fazer álcool, vai plantar batata”. Ainda no UOL, Carlos Costa, que trabalhou por 23 anos na Abril, lembra que “RC, como Roberto Civita assinava os bilhetes, foi o primeiro filho de Sylvana Alcorso, da nobreza romana, e de Victor Civita, fundador da Editora Abril, casados em 1935”. Ele também diz que Roberto “sempre foi reservado, mais reflexivo, talvez marca da convivência com o pai, pouco efusivo com o primogênito e mais aberto com Richard, seu irmão, que também era o preferido de Sylvana – “os olhos azuis da mamãe”. Prudente, ouvia e se aconselhava quando se via frente a decisões complexas – como publicar a entrevista de Pedro Collor, detonadora do impeachment de Collor”. No texto especial para o UOL Carlos Costa diz ainda que o ano de 1982 marcou o racha entre Roberto e seu irmão Richard, e que, por decisão do pai, Roberto passou a cuidar da linha editorial, enquanto Richard ficou com a administração. Ou seja, daquela vez o pai se alinhara ao lado do primogênito, que ficou com a Abril, deixando para Richard a divisão de livros, fascículos, frigoríficos e hotéis. “Com um perfil mais técnico – diz Costa em seu texto –, Roberto contrastava com os arroubos criativos do pai. Era RC quem conseguia plasmar as intuições de VC, tornando-as sucessos editoriais. Se Victor era um excelente relações públicas, Roberto implantou na empresa uma visão profissional de gestão editorial, nos moldes americanos. A independência editorial e a separação dos interesses comerciais do trabalho jornalístico foram obras de RC. Por ocasião da morte do pai, Roberto se reconciliou com seu irmão Richard”. O Estadão.com, em meio às informações sobre a morte de Roberto Civita e sua trajetória, destaca que “em seu mais recente balanço, a Abril S/A registrou receita de R$ 2,975 bilhões em 2012, queda de 5,9% sobre o ano anterior. O lucro líquido foi de R$ 64,2 milhões no ano passado, ante os R$ 185, 9 milhões registrados em 2011”. A matéria do Estadão aborda os altos e baixos dos vários empreendimentos do Grupo Abril sob a gestão de Roberto Civita, como a criação da MTV, da TVA, do BOL, da ESPN, entre outros. Diz o texto do Estadão.com: “O cenário piorou com a desvalorização cambial, em 1999. A companhia viu sua dívida em dólares disparar. Civita, então, viu-se forçado a iniciar um processo de venda de ativos, como sua participação na ESPN Brasil e no próprio UOL. Somente em 2006 a companhia conseguiu vender a TVA para a empresa espanhola Telefônica”. E acrescenta: “Numa tentativa de melhorar a situação financeira do grupo, Civita vendeu, em 2006, 30% da Abril para a companhia de mídia sul-africana Naspers. Com o aporte dado pelos estrangeiros, a companhia conseguiu uma redução de sua dívida líquida, alongando o perfil para cinco anos e diminuindo juros. Em 2007, o saldo da dívida líquida era de R$ 178 milhões, abaixo dos R$ 681 milhões de 2006”. Ao tratar do atual perfil de controle do Grupo, diz a nota do Estadão.com que “atualmente, a Abrilpar, holding da família Civita, controla a Abril S/A e detém o comando do capital da Abril Educação S/A – empresa líder em conteúdo para alunos e professores dos níveis infantil ao fundamental. A Abril Educação inclui as editoras Ática e Scipione (compradas por Civita em 1999) e os sistemas de ensino Anglo e SER (adquiridos pelo empresário em 2010 e 2011), além dos colégios pH, do Rio de Janeiro, e ETB, de São Paulo. Em 2010, a Abril Educação passou a atuar separadamente da Abril S/A por meio de uma reorganização societária. No mesmo ano, 20% das ações da Abril Educação foram vendidas para o fundo de private equity BR Investimentos. Também naquele ano, o Grupo Abril fez a aquisição de 70% da Elemidia, empresa de mídia digital em elevadores e painéis. Os 30% que haviam permanecido com a família Forjaz, fundadora da empresa, foram comprados em 2012. Em 2011, a Abril anunciou a contratação de Fábio Barbosa, ex-presidente do conselho de administração do Santander Brasil, como presidente da companhia. Barbosa respondia diretamente ao presidente do conselho, Roberto Civita”. O próprio Portal do Grupo Abril (www.abril.com.br), ao destacar que RC “dedicou 55 de seus 76 anos à paixão de editar revistas”, destaca uma das coisas que ele sempre costumava dizer aos recém-chegados à empresa: “Ninguém é mais importante que o leitor, e ele merece saber o que está acontecendo. Veja existe para contar a verdade. A fórmula é muito simples. Difícil é aplicá-la o tempo todo”. “Risonho, cordial, otimista, Roberto Civita sempre acreditou que nenhuma atividade vale a pena se não for praticada com prazer”, diz a nota do site da Abril, acrescentando a pergunta que ele sempre fazia aos profissionais com os quais convivia: “Você está se divertindo?”. A nota da Abril conclui dizendo que ele “mantinha-se otimista mesmo quando contemplava a face sombria do País. Para ele, o Brasil só conseguiria atacar com eficácia seus muitos problemas se antes aperfeiçoasse o sistema educacional, modernizasse o capitalismo nativo, removesse os entraves à livre iniciativa e consolidasse o estado democrático de direito. ‘O que Veja defende, em essência, é o cumprimento da Constituição e das leis’, repetia. Também essa fórmula parece simples. Difícil é colocá-la em prática. Foi o que o editor de Veja sempre soube fazer”.