Eficiência para entender anseios e calibrar discurso definiram eleição britânica

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

Luciana Gurgel

Após a vitória do Partido Conservador britânico nas eleições gerais, contrariando pesquisas que apontavam vantagem apertada, o papel dos meios de comunicação vem sendo exaustivamente debatido. É difícil demarcar a influência da imprensa e das mídias sociais sobre o eleitor, mas há sinais interessantes sobre o impacto de cada uma.

Um deles é o alcance das redes como fonte de informação no país. Segundo o novo relatório da PAMCo (Publishers Audience Measurement Company), todos os jornais reunidos (incluindo versões online) atingiram 47,9 milhões de pessoas entre outubro de 2018 e setembro deste ano, superando os canais do Facebook (com 42,6 milhões) e Google, com 41,5 milhões.

Isso não significa que os britânicos tenham sido mais influenciados pela mídia tradicional ao escolher o candidato. Mas sugere que ela se mantém relevante diante das plataformas digitais quando se trata de informação.

O problema é que ambas são vistas com desconfiança. Uma pesquisa do Intuit Research/Norstat antes do pleito indicou que 57% dos britânicos acreditam que a mídia veicula notícias falsas, percentual que sobe para 71% entre os usuários do Facebook e 67% dos seguidores do Twitter. A estatal BBC vive um inferno astral, acusada de parcialidade por todos os lados.

Há também questionamentos sobre a capacidade de a propaganda eleitoral em redes sociais converter eleitores. Jake Wallis Simons, do Daily Mail, citou um registro da plataforma Who Targets Me apontando que os videos do derrotado Partido Trabalhista foram vistos 82,2 milhões de vezes, contra apenas 24,5 milhões dos do Conservador.

A tese está em linha com um estudo científico feito pelas universidades americanas Northeastern e Southern California e pela organização Upturn sobre propaganda eleitoral no Facebook. Os experimentos comprovaram que ao direcionar as mensagens por relevância, a rede social acaba atingindo pessoas que já concordam com aquela posição política, reduzindo a eficácia no sentido de conquistar adeptos.

O meio e a mensagem – Com maior ou menor grau de confiança, porém, a realidade é que em um país de alta escolaridade e acesso fácil à internet os eleitores não ficam mais sujeitos a apenas uma fonte, como no passado, em que o assinante de um título conservador como o The Times raramente era exposto a opiniões divergentes. E aqui entra o mais importante em qualquer processo de comunicação, seja para um candidato ou para uma marca de sabonete: quem consegue ser mais eficiente ao entender os anseios do público e calibrar o discurso conforme as expectativas.

O Partido Conservador venceu a guerra. Boris Johnson foi ridicularizado no fim da campanha por controvérsias como a recusa em ser entrevistado pelo duro apresentador Andrew Neil; por se esconder em um frigorífico para fugir da Imprensa ao visitar uma fábrica; ou ainda por colocar no bolso o celular de um jornalista da ITV que tentava confrontá-lo com a foto de uma criança atendida no chão de um hospital.  Memes circularam nas redes, sobretudo entre o público contrário ao Brexit – intelectuais, jovens, residentes de Londres e gente que posta mas não vota.

Não colou nele, que venceu fácil e agora tem maioria expressiva no Parlamento. Garantiu a vitória com uma surpreendente votação em regiões historicamente trabalhistas, cuja importância econômica foi esvaziada devido ao fechamento, fábricas, minas e do comércio de rua afetado pelas vendas online.

O resultado da eleição mostra que o Partido Conservador, ainda que dominado pela elite, soube transmitir à classe média e trabalhadora britânica a ideia de que o Brexit vai restaurar a glória do passado, um discurso nacionalista que soou como música aos ouvidos de quem quer uma vida melhor. Isso foi mais decisivo do que críticas sobre transparência ou questões morais. E talvez mais “seguro” do que as promessas radicais do Trabalhista.

Parece que continua atual a frase cunhada em 1992 pelo então assessor da campanha de Bill Clinton, James Carville: “É a economia, estúpido!”.

E em uma nação em que a imprensa escrita assume seu lado, o Daily Telegraph, alinhado a Johnson – que até se tornar primeiro-ministro assinava lá uma coluna – não perdeu tempo. Três dias após a eleição, capitalizou a proximidade com uma ação de marketing online conclamando o público a assinar o jornal cuja equipe “mais conhece Boris”. Isso é que é campanha de oportunidade.

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