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sexta-feira, maio 27, 2022

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Detenção de Cláudia Trevisan nos EUA gera protestos

Foram diversos os protestos contra a detenção de Cláudia Trevisan, correspondente do Estadão em Washington, no último dia 26/9, na Universidade Yale, nos Estados Unidos, enquanto tentava localizar o presidente do STF Joaquim Barbosa, que fazia uma conferência no local. Fato amplamente noticiado na imprensa em geral e na mídia especializada, Cláudia foi algemada e mantida incomunicável por quase cinco horas, inicialmente dentro de um carro policial e depois em uma cela do distrito policial de New Haven, cidade onde fica a universidade. Ela só foi liberada depois de autuada por “invasão de propriedade privada”. Cláudia garante não ter invadido qualquer instalação restrita da universidade e que todos os locais que percorreu eram públicos e abertos. Ela também confirma ter trocado e-mails com Janet Conroy, assessora de imprensa da Escola de Direito da universidade, que a informara ser o evento com Barbosa fechado à imprensa, mas disse que esperaria pelo ministro do lado de fora do auditório onde se daria o seminário. Já havia conversado por celular com o próprio ministro, mas este avisara que não falaria com a imprensa. Ela o informou, porém, que o abordaria do lado de fora do prédio. “Passei cinco anos na China, viajei pela Coreia do Norte e por Mianmar e não me aconteceu nada remotamente parecido com o que passei na Universidade de Yale”, disse ela ao Estadão. No domingo (29/9), Laurentino Gomes publicou em seu blog, no qual geralmente trata do lançamento do seu mais recente livro, 1889, ou de seus compromissos de trabalho como escritor, que naquele dia escreveria “sobre o impacto de uma notícia que me causou profundo incômodo. (…) O episódio levanta algumas questões perturbadoras. O tratamento seria o mesmo caso se tratasse de uma repórter dos jornais The New York Times ou Washington Post, da rede de televisão CNN ou qualquer outros dos grandes veículos de comunicação dos Estados Unidos? Certamente não porque, nessa hipótese, a reação corporativa da imprensa americana seria avassaladora e muito provavelmente obrigaria as mais altas autoridades do país a se pronunciar sobre o caso. (…) Mais do que vítima da atitude arbitrária de um policial, Claudia foi obviamente alvo do preconceito contra estrangeiros e, em particular, latino-americanos, que infelizmente ainda permeia parte da sociedade americana. Morei nos Estados Unidos durante um ano, enquanto fazia pesquisas para o livro 1889. Em geral, fui bem tratado e acolhido pelos americanos, entre os quais fiz vários amigos. Mas também vivi esse preconceito na pele em mais de uma ocasião. (…) O ministro Joaquim Barbosa e os responsáveis pela Universidade de Yale afirmam que o evento era ‘fechado para a imprensa’. Na minha opinião, não existe ‘evento fechado para a imprensa’ se lá dentro existir um assunto de interesse público ou um personagem que deva ser entrevistado em nome do interesse público. O ministro Barbosa está no centro de um vendaval político no Brasil: o mal acabado e mal explicado julgamento do chamado Escândalo do Mensalão, a respeito do qual a sociedade brasileira exige prestação de contas. Portanto, é alvo natural da investigação jornalística e não pode, sob pretexto algum, fugir das perguntas dos repórteres”. Na mesma linha, Paulo Moreira Leite publicou em sua coluna de 30/9  em IstoÉ que “quando uma autoridade recusa um pedido formal de entrevista, o que sempre tem o direito de fazer, tenta-se uma aproximação direta para se obter um depoimento, o que os jornalistas também podem fazer. É a situação mais comum do mundo. Se não quisesse mesmo falar, Barbosa poderia recusar de novo. Se não quisesse nem responder diretamente, poderia valer-se de um assessor para impedir até uma aproximação ou, em caso extremo, pedir à segurança da universidade que mantivesse Cláudia Trevisan à distância. Tudo isso faz parte do jogo universal entre repórteres que querem um depoimento e autoridades que não querem falar. Você já deve ter visto isso várias vezes nos filmes. O que não se pode aceitar é a entrada da polícia em ação. Ela não se limitou a impedir que Claudia fizesse a entrevista. Prendeu, algemou, manteve incomunicável por horas. Agiu como se estivesse querendo impedir um crime – e não uma entrevista. Com base em quê? Em nome de quem? Direitos fundamentais foram atingidos. É brutal e inaceitável. Cabe às autoridades norte-americanas esclarecer o que se fez e por quê”. No seu Diário do Centro do Mundo, Paulo Nogueira já no sábado (28/9) questionava sobre qual teria sido o papel de Joaquim Barbosa na prisão de Cláudia. E respondia: “Pode ser nenhum, é certo. Mas as especulações se multiplicam. Cláudia tentava entrevistar JB depois de um seminário do qual ele participou na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Ele a avisara de que não iria falar com a mídia, e então Cláudia planejou abordá-lo na saída. (…) Teria ele pedido providências à direção da universidade para se livrar da indesejada repórter? É uma hipótese que faz sentido. Joaquim Barbosa já tinha uma pendência com o Estadão. Destratou um jornalista do Estadão que lhe perguntou sobre os 90.000 reais em dinheiro público que ele gastou na reforma dos banheiros de seu apartamento funcional em Brasília. O caso de Yale pega Joaquim Barbosa num momento particularmente ruim. Ele saiu desmoralizado das sessões das quais resultou a aprovação dos embargos para réus do Mensalão”. Por meio de sua assessoria, o ministro disse “ter sido informado sobre o episódio pela organização do seminário Constitucionalismo Global 2013, do qual participava”, e lamentou o incidente, “já que a jornalista estava lá apenas fazendo seu trabalho”. Para Venício A. de Lima, o professor da UnB e articulista do Observatório da Imprensa, “imagine se o presidente da Suprema Corte dos Estados Unidos viesse ao Brasil convidado a participar de um seminário sobre constitucionalismo na Faculdade de Direito (de Direito!), em uma de nossas mais conceituadas universidades privadas (digamos, a Mackenzie) e um correspondente estrangeiro (digamos, do New York Times), ao tentar localizar a sala onde o ministro estava, fosse preso, algemado, ficasse incomunicável durante cerca de cinco horas e fosse acusado de ‘invasão de propriedade privada’. O que diriam sobre a liberdade de expressão e a liberdade da imprensa no Brasil, não só o governo dos Estados Unidos, mas a mídia norte-americana e, sobretudo, a própria mídia nativa e seus porta-vozes? No mundo em que vivemos, os julgamentos – da mídia e da Justiça – são sempre seletivos e obedecem a conveniências nem sempre confessáveis”. O próprio jornal da universidade, Yale Daily News, publicou matéria sobre o episódio em sua edição de 30/9, na qual, segundo Tom Conroy, porta-voz da universidade, Robert Post, deão da Escola de Direito, “pediu imediatamente” a liberação de Cláudia assim que tomou conhecimento da detenção e que fossem retiradas as acusações contra ela. Em entrevista ao diário, Cláudia afirmou que retirar as acusações “era o mínimo que eles poderiam ter feito”. Disse ter sido presa sem motivo, submetida a “comportamento abusivo”, inclusive sendo algemada, sem permissão para usar o telefone e tendo que urinar à vista dos carcereiros: “Se isso não é violência, realmente não sei o que seria. Fiquei chocada por saber que Yale considera esse tipo de atitude como procedimento normal”. Já a assessora de imprensa da Escola de Direito Janet Conroy não quis comentar o assunto. David Hartman, porta-voz da polícia de New Haven, disse ao jornal que o departamento não tinha qualquer responsabilidade sobre o ocorrido e que a detenção havia sido feita exclusivamente por integrantes da polícia da universidade. Em nota, a Fenaj solidarizou-se com a correspondente, repudiou sua autuação por “transgressão criminosa” e afirmou que “tal ocorrência é um flagrante desrespeito à liberdade de imprensa e aos direitos humanos em um país que se autoproclama guardião das liberdades e da democracia. O caso será denunciado à Federação Internacional dos Jornalistas e a organismos internacionais”. Confira em a íntegra do relato dos acontecimentos que Cláudia enviou ao embaixador Cézar Amaral, cônsul-geral do Brasil em Hartford. A Jornalistas&Cia, ela disse na última 3ª.feira (1º/10): “O meu advogado está conversando com Yale e o promotor de New Haven para ver como o caso será encerrado”.

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