Por Assis Ângelo

Falar de Guimarães Rosa é fácil, muito fácil.

Dei de cara com a obra dele ainda nos meus tempos de João Pessoa. Comecei logo com Grande Sertão. Deu-me uma coisa assim, assim, que ainda não sei explicar.

Guimarães Rosa

Tempos e tempos depois, já há muito morando em Sampa, fui levado a falar sobre esse grande autor mineiro. Proferi uma série de “palestras animadas” em todas as unidades da rede CEU, Centro Educacional Unificado.

À época, o grande e único romance de Rosa completava 50 anos de lançamento pela Livraria José Olympio Editora.

João Guimarães Rosa passou pela vida como um ser multifacetado. Fez tudo que quis e como quis no campo profissional que escolheu, como escritor, médico e diplomata. Dizia ser antipolítico, até porque nascera “com cadeado na boca”.

Quando esteve na Alemanha representando o Brasil, Rosa conheceu a jovem Aracy e com ela casou-se e teve filhos.

Dona Aracy de Carvalho, que trabalhava como secretária no consulado onde o marido dava expediente, conseguiu salvar centenas de judeus das garras de Hitler. Isso é sabido. O pouco sabido é que pra isso ela precisava da assinatura dele. E isso é política.

O escritor Rosa justificou o apoio que deu à mulher em favor dos judeus dizendo que sertanejo que era não poderia jamais aturar injustiça, vinda de onde viesse.

O autor de Tutameia e outros livros de contos não tinha nenhuma identificação com a ideologia comunista. Chegou até a aplaudir a derrubada do presidente João Goulart pelos militares, em 1964. Porém, entre seus amigos se achava o jornalista Franklin de Oliveira, comunista de carteirinha. Esse amigo perdeu o emprego e ficou à deriva. Sabedor disso, Rosa acionou o editor do Correio da Manhã, Paulo Bittencourt, que acionou o todo poderoso Roberto Marinho (1904-2003).

O resultado dessa história é que Marinho deu emprego a Oliveira.

Poucos dias depois, o bambambã do jornal O Globo recebeu uma ligação de milico de alta patente criticando-o por tal contratação. Marinho respondeu, na bucha: “Nos meus comunistas mando eu!”. E bateu o telefone, esbravejando.

Rosa dizia também que não era de bom alvitre o escritor – fosse quem fosse – politizar seus textos. Curiosidade: no livro Grande Sertão: Veredas, o autor mineiro cita nominalmente o líder comunista Luís Carlos Prestes e a sua famosa Coluna.

Incongruência?

Muita gente sabe que os primeiros contos de Guimarães Rosa saíram nas páginas da extinta O Cruzeiro. O primeiro deles, O Mistério de Highmore Hall.

A história narrada nesse conto tem como cenário um lugar qualquer da Inglaterra. É recheada de emoção, suspense e tal. À moda de…. tan-tan-tan-tan… Edgar Allan Poe.

Lembro disso pelo fato de Rosa ter criticado Machado de Assis pela influência que teve da obra de Poe, entre outros gringos.

Machado dominava os idiomas francês e inglês. É dele a tradução do conto O Corvo, clássico de Edgar Allan Poe.

O linguajar da vaqueirama mineira de Guimarães Rosa ainda não se fazia presente nos seus textos iniciais. A única referência se acha em Caçadores de Camurças, título do terceiro texto publicado na revista do Chatô. Um dos textos, Makiné, foi publicado n’O Jornal, em fevereiro de 1930. Esse jornal chegou a ser o maior do conglomerado Diários Associados.

Terceiro conto de Rosa publicado em O Cruzeiro

Tão importante quanto o vaqueiro José Mariano da Silva foi João Henrique Ribeiro, vaqueiro líder da boiada que teve entre seus condutores o escritor João Guimarães Rosa.

Numa entrevista à Revista Cult, de fevereiro de 2001, João Henrique disse muita coisa interessante sobre Rosa: “Na viagem não podia chamar ele de Dr. João. Era Rosa, vaqueiro Rosa”.

João Henrique era conhecido como Zito. E fazia as vezes de cozinheiro: “Em muitas boiadas eu fui cozinheiro. Eu fazia aquele entala-gato. Foi o Rosa que colocou esse nome. Dizia que era comida ruim”.

Zito jurava que a sua comida era boa, com feijão, arroz, farinha e carne seca.

A boiada era constituída de 360 cabeças. Mas pouca gente hoje sabe o número exato de vaqueiros que estiveram naquela parada. Zito disse que os vaqueiros eram Tião Leite, Santana, Sebastião de Jesus, Gregório, Manuel Manuelzão, Bindoia, João Rosa, o violeiro Aquiles e um adolescente de 12 anos, além do próprio Zito.

Nessa entrevista à Cult, João Henrique Ribeiro disse que a sua maior vontade era mandar fazer novos óculos para voltar a ler Guimarães Rosa.

O percurso de Guimarães Rosa com os vaqueiros tangendo a boiada durou dez dias. Nesse período, foram percorridos cerca de 250 km – ou 40 léguas, como as distâncias eram medidas à época.

O Cruzeiro de 21 de junho de 1952 registrou essa história em texto e fotos.

Assis com a reportagem sobre Rosa em O Cruzeiro

Contatos pelo http://assisangelo.blogspot.com.

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