Por Álvaro Bufarah (*)

A explosão da inteligência artificial aplicada à produção audiovisual vem transformando silenciosamente a lógica da criação de conteúdo digital. O que antes exigia equipes completas de roteiristas, locutores, editores, designers e produtores agora pode ser parcialmente automatizado em poucos minutos por plataformas capazes de gerar voz, imagem, roteiro, edição e até estratégias de distribuição. Mas, no meio desse entusiasmo tecnológico, emerge uma questão cada vez mais central para a indústria criativa: se tudo pode ser automatizado, o que ainda torna um conteúdo verdadeiramente humano?

Essa tensão aparece de forma recorrente em vídeos, tutoriais e discussões recentes sobre produção automatizada para plataformas como YouTube, TikTok e podcasts. O avanço de ferramentas de voz sintética, clonagem vocal, geração automática de vídeo e edição baseada em IA consolidou um novo estágio da chamada “economia criativa algorítmica” – um ambiente onde a eficiência técnica cresce exponencialmente, enquanto autenticidade e presença humana passam a operar como diferenciais estratégicos.

(Crédito: DALL-E)

Hoje, criadores conseguem gerar narrações hiper-realistas com sistemas de inteligência artificial, automatizar cortes, resumir vídeos longos, produzir roteiros completos e adaptar conteúdos para múltiplas plataformas praticamente sem intervenção humana direta. Ferramentas como sintetizadores de voz, sistemas automáticos de sumarização e plataformas de edição baseada em IA já são utilizadas não apenas por grandes empresas, mas por criadores independentes que buscam acelerar produção e reduzir custos.

A mudança não é apenas operacional – é estrutural.

O YouTube, por exemplo, deixa gradualmente de ser apenas uma plataforma de vídeos para se transformar em um ecossistema automatizado de produção, distribuição e recomendação. A própria lógica da criação passa a ser influenciada por algoritmos que indicam temas, formatos, títulos, duração ideal e estilos de narrativa mais eficientes para retenção de audiência.

Nesse contexto, a inteligência artificial não funciona apenas como ferramenta de apoio. Ela começa a participar ativamente do processo criativo.

Pesquisas recentes sobre uso de IA generativa em produção de conteúdo audiovisual mostram que criadores utilizam essas tecnologias em praticamente todas as etapas da cadeia produtiva: planejamento de pauta, criação de prompts, produção de voz, edição visual, thumbnails, títulos, legendas e otimização de engajamento. Mas existe um paradoxo interessante nesse avanço: quanto mais eficientes se tornam os sistemas automatizados, maior parece ser a valorização de elementos percebidos como espontâneos, imperfeitos e humanos. Vozes sintéticas conseguem reproduzir entonação, ritmo e emoção com impressionante precisão, mas ainda enfrentam dificuldades em transmitir aquilo que muitos pesquisadores chamam de “presença social” – a sensação de convivência real entre comunicador e audiência.

Essa discussão dialoga diretamente com transformações observadas também no rádio, nos podcasts e nas mídias sonoras em geral. Plataformas conseguem prever preferências, recomendar conteúdos e personalizar experiências, mas ainda têm dificuldade em replicar plenamente contexto cultural, improviso e empatia territorial.

Em outras palavras: algoritmos podem organizar conteúdo; construir pertencimento continua sendo mais complexo.

O crescimento das chamadas vozes sintéticas para YouTube ilustra bem essa tensão. Ferramentas capazes de gerar narrações realistas vêm sendo amplamente promovidas como solução para creators que desejam escalar produção, internacionalizar canais e automatizar fluxos de trabalho. A promessa é sedutora: produzir mais conteúdo, em menos tempo e com menor custo operacional.

Ao mesmo tempo, cresce também a preocupação com saturação estética. À medida que diferentes criadores passam a utilizar sistemas semelhantes de geração de voz e edição, muitos conteúdos começam a apresentar ritmos, entonações e estruturas narrativas quase idênticas. O resultado é uma espécie de homogeneização algorítmica da criatividade.

Essa padronização afeta diretamente um dos ativos mais importantes da economia da atenção: identidade.

No ambiente digital contemporâneo, criadores não competem apenas por visualizações – competem por reconhecimento emocional. E é justamente aí que o fator humano continua operando como diferencial competitivo.

(Crédito: sad.ms.gov.br)

Pesquisadores vêm observando que conteúdos com forte marca de personalidade, espontaneidade e sensação de intimidade continuam gerando maior vínculo com audiências, mesmo em plataformas altamente automatizadas. Isso ajuda a explicar por que podcasts conversacionais, transmissões ao vivo e formatos menos “perfeitos” mantêm alto nível de engajamento.

A lógica parece contraditória: em uma era de automação total, a imperfeição humana ganha valor simbólico.

Esse movimento também impacta diretamente o mercado publicitário e as estratégias de marca. Empresas passam a buscar criadores capazes de construir relações autênticas com comunidades específicas – algo que algoritmos ainda não conseguem replicar integralmente. A confiança, nesse cenário, transforma-se em ativo econômico.

Ao mesmo tempo, a expansão da IA no audiovisual levanta questões éticas relevantes. A clonagem de voz, a produção automatizada de discursos e a dificuldade crescente de distinguir conteúdos humanos de sintéticos ampliam preocupações com autenticidade, transparência e desinformação.

Não por acaso, debates sobre rotulagem de conteúdo gerado por IA vêm crescendo em diferentes mercados. A preocupação já não está apenas na qualidade técnica da automação, mas em seus impactos culturais e sociais.

Curiosamente, esse cenário recoloca em evidência uma característica histórica das mídias sonoras: a relação afetiva construída pela voz. Durante décadas, rádio e podcast desenvolveram vínculos baseados em recorrência, intimidade e sensação de presença contínua. Agora, plataformas digitais tentam reproduzir essa lógica em escala automatizada.

Mas talvez exista um limite estrutural nessa tentativa. Porque, no fim das contas, a questão central talvez não seja se a IA conseguirá produzir conteúdos indistinguíveis dos humanos. A pergunta mais importante pode ser outra: até que ponto o público continuará desejando experiências totalmente artificiais?

O futuro do audiovisual provavelmente não será definido pela substituição completa entre humanos e algoritmos. Ele tende a ser híbrido – combinando eficiência técnica com autenticidade emocional.

E, nesse novo ecossistema, o elemento mais valioso talvez não seja a automação em si, mas a capacidade de preservar aquilo que ainda soa genuinamente humano em meio ao ruído algorítmico.

 

Sugestões de fontes para aprofundamento

Álvaro Bufarah

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.

(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo.

 

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