Por Assis Ângelo

Sob as rodas de um trem também sucumbiu a protagonista de um romance do russo Tolstói, Anna Karênina.

O conto de Gorki me fez lembrar também um conto do francês Voltaire (1694-1778), intitulado O Carregador Zarolho.

O zarolho do conto de Voltaire é personagem excepcional. Jovem, forte, sem compromisso amoroso com ninguém. Sentia-se bem e feliz trabalhando, comendo e dormindo num cotidiano inalterável.

A história aqui lembrada passa-se no mundo árabe.

Le Borgne grimacier – desenho de Jean Jacques Lequeu (1757-1826)

Num dia indefinido, o carregador, de nome não explicitado no conto, tem a visão despertada por uma carruagem levando uma belíssima mulher. Princesa. Encantado, o carregador segue o que vê a sua frente.

Bom que se diga, meu amigo, minha amiga, que naquele tempo passado dessa história era comum que essas mulheres belíssimas viajassem sem cocheiro e sem lacaio. Era o caso.

O carregador corria, corria, corria ao lado da carruagem sem se cansar. Achava-se apaixonado pela bela figura feminina.

De repente, os cavalos que levavam a bela se assustaram e por pouco não a levaram precipício abaixo.

Num passe de mágica, o carregador conseguiu cortar as rédeas e salvar a carruagem e sua ocupante.

O final dessa história tem a ver com As Mil e Uma Noites. Bagdá.

Bagdá tem muito a ver com a figura de maior destaque do romance O Conde de Monte Cristo, do velho Alexandre Dumas (1802-1870).

Dumas Pai, como ficou conhecido Alexandre, autor de pérolas da literatura mundial como Os Três Mosqueteiros e tantas outras belezas que todo mundo conhece, era de origem negra. O seu pai, Thomas (1762-1806), foi o primeiro general negro da história da França. A sua avó, Marie-Cessette Dumas, era escrava.

Thomas-Alexandre Dumas (Crédito: Wikimedia Commons)

O Conde Negro, livro biográfico escrito pelo norte-americano Tom Reiss, Prêmio Pulitzer de 2003, conta toda essa história, inclusive o fato de ele ter provocado a ira do seu chefe, Napoleão Bonaparte. Fantástica.

O general Thomas foi preso na Itália e morreu jovem, com apenas 43 anos de idade.

O avô do autor de O Conde de Monte Cristo casou-se com uma negra escrava haitiana e com ela teve quatro filhos, entre eles Thomas.

Thomas e os seus irmãos foram vendidos pelo pai, que sumiu do mapa.

Algo exatamente parecido aconteceu no Brasil ali pelos anos de 1840. Fato: Luís Gonzaga Pinto da Gama foi também vendido pelo inescrupuloso pai português Antônio Agostinho Carlos Pinto da Gama. Tinha 10 anos de idade e era baiano. Aos 17 anos lutou e lutou para provar que fora vítima de injustiça. E nessa luta, como rábula que foi, Gama conseguiu legalmente a alforria de 700 escravizados e escravizadas.

Luís Gama (Crédito: Wikipedia)

A história de Luís Gama (1830-1882) é história para jamais ser esquecida, principalmente por quem tem um mínimo de lucidez e consciência.

Antes de Alexandre Dumas e seu pai, a história registra a presença negra na velha Rússia. Foi lá, no final do século 17, que Pedro, o Grande, acolheu e alforriou o bisavô do primeiro e mais importante romancista e poeta russo: Alexandre Pushkin, autor de A Dama de Espadas e A Filha do Capitão. E não custa lembrar que esse Alexandre inspirou Dostoiévski a escrever o clássico Crime e Castigo.

Como curiosidade, diga-se: o bisavô de Pushkin virou general do exército russo. Era africano.

Contatos pelo http://assisangelo.blogspot.com.

" "
0 0 votos
Article Rating
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários