Quanto vale um exemplar de uma edição de revista apreendida nas bancas? Não tenho a menor ideia. Acredito que cada caso seja um caso; e que o preço varie de acordo com a tiragem, a importância do título, a data e o tal do contexto histórico. Retomando a pergunta: e quanto valeria um exemplar de uma edição de revista que, por pura paúra da editora responsável, a Abril dos bons tempos, nem sequer chegou a ser distribuída? Tenho na gaveta um exemplar assim. Novinho em folha − ou nem tanto, pois a capa, vitimada pela passagem de 34 anos, se descolou. Pelo que sei, todos os demais exemplares foram destruídos de maneira inapelável. Ou ao menos deveriam ter sido. Sobrou o meu.

Deve valer algum dindim, ora essa.

O curioso é que o tal exemplar não é de uma revista que, por exemplo, tratasse de política a sério. Longe disso − e põe longe mesmo. A revista nem mesmo seria lançada nos idos sombrios da ditadura militar, mas em pleno e solar período do Brasil recém-redemocratizado.

O ano era 1986, com José Sarney na Presidência (até aí morreu o Neves). Quem viveu o período sabe que, tirando uma ou outra estupidez, como a proibição do filme Je Vous Salue, Marie, do cineasta suíço (sim, suíço) Jean-Luc Gordard, a censura não dava mais as caras. A última chefe do Departamento de Censura Federal, Solange Hernandez, perdera a boquinha havia dois anos.

A tal revista, perdão pelo suspense, era uma edição especial − “one shot”, tiro único, como os publicitários diziam − da popular Contigo, que então vendia como pãozinho quente. A redação vivia em festa, com tiragens a cada semana maiores. Tempos, de fato, feéricos. Vez por outra, desciam à redação, no fechamento, Thomaz Souto Corrêa e Alberto Dines, diretores da Abril, sobraçando garrafas gigantes do melhor champanhe, dessas de pódio de Fórmula 1, para comemorar as vendas. Tiravam uma casquinha da glória que, por justiça, cabia então ao diretor de Redação, o saudoso Paulo Stein.

Contigo, na época, passara por mais uma grande mudança editorial. Havia tempos deixara de ser uma revista de fotonovelas. Na ocasião, tinha abdicado, também, de manter-se como publicação voltada exclusivamente para a cobertura de TV − ainda que este fosse, sem dúvida o assunto principal. Num período em que, terminada a ditadura militar, o País, aliviado, queria voltar a falar de política no dia a dia, Contigo participava, atuante, dessa retomada. Com muito bom humor.

Sim, era uma revista popular. E daí? A Última Hora também fora um jornal popular. E renovou o jornalismo brasileiro. Contigo, guardadas as devidas proporções, faria algo similar. O redator José Antônio Simch da Silva, por exemplo, com raro talento e milimétrico senso de humor, “traduzia” todas as semanas para os leitores − leitoras, principalmente − de Contigo a quantas andavam os rumos da política no País. Ênio Longo, diretor de arte, na azáfama do fechamento, encontrava tempo para ilustrar os textos. Ele, um dos designers que melhor uso fez da salinha do prisma. Infelizmente, esse tipo de jornalismo popular morreu.

Não parece em vias de ressuscitar.

Foi Alberto Dines quem sugeriu a Paulo Stein que ocupasse a última página, espaço nobre de cada edição, com a seção Fotofofoca, aproveitando fotos de políticos e gente famosa e acrescentando jocosos balões de história em quadrinhos. Não era nenhuma novidade na imprensa, ressalve-se. No comecinho dos anos 1960, havia uma seção exatamente igual, sem tirar nem pôr, na revista O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand, com as “fotopotocas” − de início criadas por Ziraldo. Na própria Contigo, Décio Piccinini mantinha uma coluna de notas que incluía, aqui e ali, duas fotopotocas. Com muita graça, por sinal.

Sujou! A revista popular proibida
Fotofofoca

Novidade, no duro, foi a descoberta de que havia um time de primeiríssima para bolar as fotofofocas. Além do próprio Décio, sempre engraçadíssimo, a equipe que, de modo espontâneo, se apresentou para o mister tinha, em ordem alfabética: Édson Aran (garoto ainda, assinava Édson Arantes, mas já era então um ótimo texto de humor), o próprio José Antônio Simch da Silva (irmão do desenhista Edgar Vasquez, do personagem Rango), Júlio Bartolo (dono de um humor sarcástico e impagável e, mais tarde, diretor-geral da ESPN), Luiz Chagas (guitarrista do grupo Isca de Polícia, de Itamar Assumpção, e pai da cantora Tulipa Ruiz e do músico Gustavo Ruiz, na época crianças) e Pedro Giacommini (que surpreendia com tiradas ótimas e faria carreira no jornalismo automotivo). Modéstia às favas, acrescento meu nome à lista. Eu não era dos piores nesse ofício.

Mas o melhor de todos, que eu me lembre, era o Chagas, com um humor ao mesmo tempo nonsense e demolidor. Era ele quem gostava de requisitar as fotografias ao Dedoc (o departamento de pesquisa e documentação da Abril), no que tecia surrealismos do tipo “mande uma foto do Congresso sob tempestade com um palhaço em primeiro plano”. Se houvesse tal imagem, seria perfeita. Por que não pedir ao prestativo e eficiente Dedoc? Vá lá que aparece algo parecido.

Perdão se mantenho o suspense sobre o motivo de a Abril destruir uma tiragem inteira, mas me faz bem lembrar o sucesso da seção Fotofofoca e gastar mais algumas linhas de confete. Ganhamos até um Prêmio Abril de humor. Um dos entusiastas era Roberto Civita em pessoa. Foi ele quem se decidiu pela publicação de uma edição especial, toda ela com fotofofocas. Sim, esta mesma, a vítima da cruel autocensura da editora.

Sujou! A revista popular proibida
Tancredo Neves

Paulo Stein liberou uma verba extra para concluirmos o especial. Com ela, compramos vodca (era a bebida da moda nos anos 1980), cerveja e um uisquinho. Também encomendamos pizzas na vetusta Urca da avenida Brigadeiro Luiz Antônio (sim, ainda hoje de pé, na esquina com a Santos). Marcamos a reunião para um sábado, no meu apartamento de solteiro, ali perto. A mesa da sala de jantar do apê, em torno da qual nos sentamos para bolar as fotofofocas, era versátil. De um lado, exatamente igual a outras tantas. Bastava acionar duas alavancas, no entanto, e ela se tornava uma mesa de bilhar. Aliás, o encontro começou com umas boas tacadas.

Matamos a vodca. Sobrou cerveja. Restou algum uísque também. Entre um gole e outro, deparamos com fotos de artistas e, sobretudo, políticos da época. Por ordem de aparição na revista: Figueiredo, Magalhães Pinto, Delfim Netto, Tancredo, Aureliano Chaves, Sarney, Ulysses Guimarães, Dante de Oliveira, Franco Montoro, ACM, Lula, Dilson Funaro, Maluf, Fidel Castro, Pinochet, Reagan, Gorbachev, Mao Tsé Tung e Margareth Tatcher. Um grande elenco.

Jânio Quadros mereceu um capítulo especial. Tanto na revista quanto nessa história toda.

Candidato naquele ano de 1986 a prefeito de São Paulo, o histriônico cidadão parecia sem chances, fora da disputa. Não pagava placê. Fernando Henrique Cardoso era o virtual eleito. Inadvertidamente, sentou-se até na cadeira de prefeito, suscitando, após o sufrágio, o comentário de Jânio de que era preciso limpar o assento, em virtude das “nádegas indevidas”.

Enquanto as campanhas eleitorais corriam soltas, Jânio era quase todas as semanas “debulhado” − verbo que gostávamos de usar, no sentido de atazanar − na seção Fotofofoca. Muito natural, portanto, que voltássemos à carga na feitura do especial. As brincadeiras, muitas vezes, comentavam a contumaz predileção do homem da vassoura pelo álcool destilado. Fermentado idem.

Sujou! A revista popular proibida
Jânio Quadros

Uma coincidência complicou os planos da Abril para a edição especial. Para surpresa geral, Jânio Quadros foi eleito. Ao mesmo tempo em que o especial era rodado na gráfica da avenida Marginal.

Aqui há um ponto obscuro na história, que os colegas da época em muito ajudariam se esclarecessem. Lembro apenas que, com Jânio na Prefeitura, a Abril abriria um flanco indesejável se atacasse o prefeito a esmo. Seria alguma dívida com a Prefeitura? Falta de algum alvará?

Não consigo recordar. De qualquer maneira, alguém da direção da editora − ou, mais provável, do departamento jurídico da empresa −, folheando o exemplar de Fotofofoca mal saído da gráfica, decidiu-se pelo corte sumário das 12 fotofofocas sobre o prefeito recém-eleito. Tal como estava impressa, a revista não seria distribuída − eis o veredicto.

Àquela altura, nós da redação já havíamos recebido cada qual o seu exemplar do reparte a que Paulo Stein tinha direito. Peguei dois. De maneira que, quando nos foi solicitado (ordenado é a palavra correta) devolver o exemplar, fiquei com um de lambuja.

Sei apenas que, por questões técnicas, não seria possível cortar as páginas de Jânio Quadros e distribuir a edição já impressa. Foi preciso destruí-la; e imprimir uma nova — sem, bem-entendido, as piadas contra o trêfego alcaide.

Um aviso final: meu exemplar não está à venda. Custava 17 cruzados. Mas não tem preço.


Walterson Sardenberg Sobrinho

A história desta semana é novamente de Walterson Sardenberg Sobrinho, o Berg. Ele foi repórter de Manchete; editor de Placar, Brasileiros e Viagem & Turismo; editor-chefe de Gosto, Próxima Viagem, MIT e The President; e diretor de Redação de Náutica, Contigo e Mergulho.

Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

 

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