Contrários ao Brexit, autores britânicos anunciam tour pela Europa para celebrar a amizade

Especial Reino Unido

Luciana Gurgel

Por Luciana Gurgel (https://twitter.com/lcnqgur?lang=pt), especial para o J&Cia

O ambiente tenso por causa do Brexit e o “climão” com os vizinhos europeus fez com que quatro dos mais lidos autores britânicos – Ken Follett, Lee Child, Kate Mosse e Jojo Moyes – resolvessem unir-se para mandar uma mensagem de paz.

Kate Mosse (esq.), Jojo Moyes, Ken Follett e, no vídeo, Lee Child

Nessa terça-feira (25/6), eles anunciaram para jornalistas, na Associação de Correspondentes em Londres, o projeto The Friendship Tour, uma série de encontros pela Europa em novembro para conversar com o público e dizer que não são a favor do Brexit nem de suas teses, como a rejeição aos imigrantes.

É um esforço de relações públicas notável para o país, mas não está sendo promovido pelo Governo. O financiamento vem das editoras.

A iniciativa foi de Follett, autor de best-sellers como Pilares da Terra e A Chave de Rebeca, que contabilizam mais de 170 milhões de exemplares vendidos em 80 países.

Ele foi incisivo: “Estamos desconfortáveis com os acontecimentos dos últimos três anos. O país deu a impressão de que todos os britânicos não gostam dos europeus e não querem fazer parte da Europa. Isso nos constrange”. 

O autor contou que a ideia surgiu em janeiro, durante um festival literário em Sevilha. Lembrou que o Reino Unido é herdeiro de uma rica tradição literária europeia, destacando nomes como Lampedusa, Cervantes, Goethe e Victor Hugo. E que é “embaraçoso” serem vistos como parte de uma nação que odeia estrangeiros.

Perguntados sobre se o tour teria relação com uma possível queda de vendas após o Brexit, todos foram enfáticos em afirmar que não. Follett observou que as obras são traduzidas e impressas em cada país. E reafirmou que a motivação é emocional, consistindo em uma forma de expressar como se sentem nesse momento e o quanto valorizam os leitores de todos os países.

Lee Child disse não temer impacto em vendas, e sim nas amizades e relacionamentos, já que os europeus agora acham que os britânicos não gostam deles: “O tour é para lembrar que metade da população votou pela saída, mas a outra metade, da qual somos representantes, votou por ficar na Europa”.

O quarteto expressou o desconforto que os que discordam do Brexit sentem na pele, citando situações pessoais. Jojo Moyes disse acordar todos os dias questionando-se sobre como se chegou a tal ponto. Kate Mosse, cuja trilogia Labirinto se passa na França, destacou a ligação do Reino Unido com o continente.

Foi uma conversa mais política do que literária, espelhando o momento tenso por que passa o Reino Unido, às vésperas da escolha de um novo primeiro-ministro pelos filiados ao Partido Conservador, que representam apenas 0,2% da população.

Um repórter de Barcelona arrancou risos quando perguntou a Lee Child se o personagem de seus livros, o herói Jack Reacher, conseguiria evitar que Boris Johnson se tornasse primeiro-ministro. Brincadeiras à parte, Follett mostrou-se desencantado, sem enxergar em nenhum dos dois candidatos as condições para fazer o país sair do imbróglio: “Não vejo final feliz para essa controvérsia”.

Uma curiosidade é que a apresentação foi só para jornalistas estrangeiros. Os autores foram questionados sobre o motivo de o tour ser na Europa e não no próprio país, pois o problema está aqui. Follet explicou que seria infrutífero, por não haver ponto de contato entre os britânicos que querem ficar e os que querem sair: “Os primeiros focam em temas como amizade e enriquecimento cultural proporcionado pela conexão com outros países, enquanto os demais sustentam que a Grã-Bretanha é melhor sozinha, que não querem imigrantes. O tour não é para convencer, e sim para dizer aos nossos leitores que não queremos deixar a Europa, que não odiamos estrangeiros e que valorizamos a troca internacional de ideias, principalmente em literatura”.

A partir de uma declaração de Nigel Farage, líder do partido de extrema-direita Brexit, que teria dito não ter tempo de ler livros, Follet fez uma interessante reflexão sobre o papel da literatura na sociedade: “Em um romance, o leitor entra na mente de personagens de outras culturas, idiomas, religiões ou etnias. Isso cria empatia, ajudando a perceber o quanto temos em comum com quem é diferente”.

Mas foi Lee Child quem deu a melhor resposta sobre falta de tempo para leitura, recordando uma frase de Mark Twain: “O homem que não lê bons livros não tem nenhuma vantagem sobre o que não pode ler bons livros”.

Para quem quiser saber mais, o site www.thefriendshiptour.com vai trazer nas próximas semanas detalhes sobre o tour, que terá sessões em Milão, Berlim, Paris e Madri e será transmitido por streaming.

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