Atentado na Nova Zelândia: imprensa e canais digitais afundaram no mesmo barco

Especial Reino Unido

Luciana Gurgel

Por Luciana Gurgel, especial para o J&Cia

O atentado terrorista da Nova Zelândia, transmitido ao vivo pela internet, levou empresas jornalísticas e de mídias sociais, geralmente em lados opostos nos debates sobre o futuro do jornalismo, a apanharem juntas. Em questão, a responsabilidade na disseminação de notícias capazes de incentivar atos bárbaros como esse. Por outro lado, o risco de a imposição de limites afetar a liberdade de expressão.

Jacinda Ardern

Nessa terça-feira (19/3), Jacinta Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia, fez uma declaração pessoal e um apelo. Ela disse que jamais mencionaria o nome do autor do atentado por ser ele um criminoso em busca de notoriedade. E conclamou veículos e pessoas a seguirem esse exemplo.

A busca de notoriedade foi precisamente o caso desse terrorista. Ele utilizou um esquema sofisticado de promoção do atentado, que motivou uma análise detalhada por veículos como o Daily Telegraph. Além de postar na 8chann, uma rede que reúne extremistas, envolveu o nome do polêmico PewDiePie, que contabiliza cerca de 90 milhões de seguidores na internet, como forma de gerar views.

O britânico nada tinha a ver com o caso – seu nome era apenas uma isca, que funcionou perfeitamente. E o que se seguiu todos sabem: uma audiência global para a live do atentado via Facebook, que provocou uma avalanche de compartilhamentos.

Imprensa e canais digitais afundaram no mesmo barco – Depois do atentado, Facebook, Google e Twitter foram severamente criticados por terem permitido o compartilhamento do vídeo por um período que se estendeu até horas depois do ocorrido. Mas jornais e canais de TV também tiveram sua cota de recriminações. No Reino Unido, versões online de títulos sensacionalistas como Daily Mail, Daily Mirror e Sun receberam uma enxurrada de reclamações por terem veiculado trechos, posteriormente removidos. No Daily Mail era possível até baixar o vídeo.

A Sky News Austrália, do polêmico Rupert Murdoch, chegou a ser suspensa na Nova Zelândia. Ela é retransmitida por um grupo independente local, que removeu o canal da plataforma por considerar a transmissão de imagens do atentado desrespeitosa às vítimas.

Também foi questionada a publicação de fotos do terrorista quando criança por alguns jornais, como o Daily Mirror, por passar a impressão de humanizar o terrorista. Atacada igualmente foi a opção de alguns jornais que evitaram usar a palavra “terrorista” nos títulos. Decisões editoriais difíceis em temas tão sensíveis. 

Mais lenha na fogueira das mídias sociais – Porém, as críticas à imprensa nem se comparam ao tsunami de protestos e ameaças de ações concretas contra as empresas de tecnologia. Mais lenha em uma fogueira que já vinha ardendo, com movimentos para limitar sua atuação ou impor controles semelhantes aos que existem para a imprensa.

No Reino Unido, Sajid Javid, secretário do Home Office (departamento do governo encarregado da segurança pública), tuitou para Google, Facebook e Twitter instando-os a fazer mais para acabar com a promoção do terrorismo nas plataformas. E finalizou o alerta com um duro “já chega”.

O cerne da questão é o conflito entre interesse público e liberdade de expressão. David Ibsen, diretor da ONG Counter Extremism Project, abordou o tema. Disse que “a rede de extremistas depende das mídias sociais, e que a falta de ação das empresas digitais na solução do problema ajuda a perpetuá-lo”.

Medidas a caminho – Divulgado há poucas semanas, o Relatório Cairncross, elaborado pela jornalista e acadêmica Dame Frances Cairncross, sobre o qual falamos aqui no J&Cia, sugere ações nesse sentido. O caso da Nova Zelândia deve acelerar a implantação de algumas delas.

Sem relação com o atentado, porém certamente incensada por ele, está uma proposta apresentada na segunda-feira por uma comissão do Parlamento britânico: a de taxar as empresas de tecnologia para a criação de um fundo destinado a iniciativas de proteção para as crianças viciadas em mídias sociais.  O movimento invoca o instituto do duty of care (responsabilidade de cuidar, um termo jurídico que estabelece o dever do estado na proteção de vulneráveis).

Tudo parece estar convergindo para uma tempestade perfeita sobre as cabeças das empresas de tecnologia. Mas a imprensa talvez tenha também que repensar seus conceitos no que tange ao noticiário sobre terrorismo e crime organizado e à maneira de tratar seus autores.

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