Há dois anos, era lançada uma iniciativa para dar voz a brasileiros residentes em Portugal dentro da mídia lusa, com base nos fundamentos criados há 36 anos para o jornal Público. Para chefiar a equipe com jornalistas brasileiros, foi indicado Vicente Nunes, então correspondente do Correio Braziliense. A iniciativa tinha um jeito de ousadia tropical, pois os jornalistas seriam parceiros do jornal Público no modelo de negócio – um investimento quase cooperativo dos próprios jornalistas. Entre os desafios, foi colocar o projeto editorial em formatos novos, que tenham a ver com vídeo e áudio e a gestão de redes sociais.

Hoje, o PB Brasil – como é carinhosamente chamado pelo diretor David Pontes, que conversou com J&Cia – é acessado em 161 países e atingiu a marca de 33 milhões de páginas vistas e 4 mil artigos produzidos. Quando se fala em mudanças nas leis portuguesas, como novas normas para brasileiros e situações que impactam brasileiros que decidiram investir e viver em Portugal, é o PB Brasil que é acionado, em uma campanha de boca a boca. Afinal, no final de 2025 eram 574.195 cidadãos brasileiros em Portugal, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) – o que representa 35,9% de toda a população estrangeira residente no país e cerca de 5% de toda a população de Portugal, que tem oficialmente 11.424.031 habitantes, de acordo com as estimativas da população residente revistas pelo INE, divulgadas em meados de 2026.

Vicente Nunes e David Pontes

No início, o PB Brasil era apoiado publicitariamente por Febraban, ApexBrasil, CNseg, TAP e Vinhos Cartuxa. Agora, segue a ApexBrasil, ao lado de CNI, Portogallo Europa, Rangel Logistic Solutions, NobelChiemTech e Med+Group. A busca de anúncios tem sido constante, mas a sensibilização de empresas brasileiras estabelecidas em Portugal ou que desejam investir no país não tem sido fácil.

Segundo Pontes, o projeto já tem dimensão e amplitude estabelecidas. O PB Brasil traz conteúdos curtos digitais e torna-se “um campeão de audiências entre as próprias seções do jornal e tem penetração”.

David Pontes, que tem 36 anos de jornalismo, ingressou na primeira turma de jovens estagiários, uma ideia do diretor Manoel Carvalho. Esteve no nascimento do jornal, e depois de duas saídas retornou a convite de Carvalho para exercer as funções de diretor do jornal Público, que circula diariamente impresso em tamanho tabloide e online. Atualmente, o Público tem uma troca de conteúdos com a Folha de S.Paulo.

Confira a entrevista:

Lena Miessva – O PB Brasil nasceu com uma forte expectativa. Hoje, depois de dois anos, qual é o balanço? O que foi positivo e o que atravancou o caminho?

David Pontes – Para nós, o mais positivo foi ao endereçar muitas vezes para públicos diferentes, tentar conseguir esta abrangência, de alguma forma, que permita seguir os princípios que nortearam seu nascimento. Para nós isso era muito importante, e hoje é isso que ressalta do Público Brasil. É dar voz e ter um registro daquilo que vai da sociedade imigrante brasileira para nós.

Tínhamos uma falha ao não haver atenção e cuidado com a voz dos próprios brasileiros. Não nos passava pela cabeça fazê-lo de outra forma que não fosse com jornalistas e com profissionais que falassem a forma doce do português. E o que é que não foi tão bem? O que não foi tão bem tem a ver com a contingência do nosso meio. A situação da imprensa escrita, nomeadamente nós que ainda temos o peso de ter um jornal diário, não é tão boa como gostaríamos. E alguns dos modelos de negócio que temos – e alguns deles que estavam também pensados para o público brasileiro – têm sofrido ameaças e pressão constante por trabalharmos num setor em permanente mudança. O último – que todos nós sabemos – são os desafios colocados pela inteligência artificial e não conseguimos parar um bocadinho em nenhum momento para estabilizar os projetos. Temos de estar sempre nos a reinventar.

Dar rosto, trazer exemplos daquilo que é a vida dos imigrantes em Portugal, dos brasileiros, Há acidentes, nós somos todos humanos, esta é máquina preciosa com que trabalhamos, é gente que fica doente, sai, muda de opinião e isso não é propriamente às vezes a melhor… Traz-nos sobressaltos perigosos para o caminho e o PB Brasil infelizmente viveu alguns deles, mas acho que estamos em condições de estabilizar o projeto e conseguir um caminho de investir em novos formatos, o que tem vindo a ser feito também pelo público.

Acho que o caminho tem que ser no aprofundamento, às vezes em alguns assuntos, em algumas matérias, no trabalho de dossiê sobre alguns dos pontos importantes para a comunidade brasileira, mais do que neste momento em que estamos em crise, nomeadamente dentro do que é o anúncio no dia a dia e na gestão corrente do digital e do display no digital. Mas tivemos, nomeadamente para o arranque, investimento importante de alguns parceiros. Nem todos continuaram, mas temos tido algumas entradas novas que ajudam a alcançar esse trabalho.

Lena – Entre os assuntos abordados pelo Público Brasil estão histórias de imigrantes que tiveram problemas com a AIMA (Agência para Integração Migrações e Asilo) e me parecer ser um caminho de jornalismo de prestação de serviços. Isso é uma tendência, na sua opinião, para o jornalismo sobreviver? Um jornalismo focado em nichos como imigrantes ou como comunidades?

David – Tínhamos a ideia – quando o Vicente Nunes veio ter conosco – de agregar núcleos de interesse muito específicos e trabalhar nas reportagens com exaustão. Nos primeiros tempos, alguns leitores tradicionais do Público estranharam esse jornalismo muito direto e muito prático, como o Brasil faz. Para um leitor normal português, a AIMA é uma coisa distante para todos. Muitos só tiveram contato com a existência da AIMA por meio dos nossos amigos imigrantes. E,, por isso, nunca conseguiríamos manter a atenção noticiosa necessária para juntar os problemas da comunidade. Eu gostava mesmo de pensar… Acho que não estamos ainda num momento de que este interesse poderia se traduzir… Acho que haverá um momento em que o produto esteja maduro em um modelo de qualquer subscrição (assinatura), porque me parece que é a melhor defesa para os jornais conseguirem sobreviver neste mundo sobressaltado. Acredito que o PB Brasil tem capacidade de produzir conteúdo que já merece ser pago por subscrição. Talvez ter valor em artigos com mais profundidade e com jornalismo que de alguma forma seja mais exclusivo do que um noticiário contínuo, a que muitas vezes os outros também podem ter acesso, ou então com articulistas, com conselhos práticos, com algum tipo de utilidade muito específica.

Lena – Então, com sua experiência de 36 anos na profissão, desde jovem estagiário, como  vê o jornalismo de uma maneira geral, como modelo de negócio e como profissão?

David – Como perfeição, para além de ser a melhor profissão do mundo, para quem gosta e tem paixão por ela, acho que não vai terminar. Não vejo nenhum fim e não sou pessimista sobre isso. Acho que o papel do jornalismo é importante, e que passamos por momentos em que as redações, os corpos editoriais em si estão obviamente sob uma ameaça e não sei se conseguirão sobreviver muito.

A dispersão que temos hoje na busca de informação, a facilidade de acesso que a pessoa tem, a informação de profundidade em diferentes línguas, sem que para isso haja fronteiras, colocam problemas muito complicados, nomeadamente a meios generalistas como o Público, não é? Do que era o mundo e da visão do mundo hoje em dia. Isso está acessível em tantas plataformas que, evidentemente, as redações sofrem alguns riscos.

O que acho que faz parte de um discurso geral é que o jornalismo, enquanto estrutura com regras e com uma gestão perceptível e obedecendo a critérios éticos e de interesse público, evidentemente está ameaçado nos dias que correm e deveria ter por parte dos poderes públicos alguma atenção acrescida, pois o jornalismo bem-feito é importantíssimo para o funcionamento da democracia. Dito isto, acho que vivemos numa fase de mais uma mudança, não é?

Nenhuma indústria como esta foi sujeita a tantas alterações tão radicais, em tão pouco tempo, que mexem com o nosso horário, com tudo aquilo que nós fazemos, com os meios que disponibilizamos. Mas também é verdade que temos hoje meios técnicos para contar histórias como nunca tínhamos e acredito que este é o principal desafio neste momento, pelo menos aqui em Portugal – é um enorme problema de renovação na geração de leitores.

David Pontes

Estamos a trabalhar para audiências muito envelhecidas e que pela lei natural da vida estão a desaparecer e estamos com enormes problemas em conectar-nos com as audiências mais jovens. É por isso que no Público estamos empenhados em renovar as nossas frentes de vídeo, de som, porque são conteúdos que têm tido repercussão nas redes e se tornou um desafio muito grande nos últimos anos em ter equilíbrio – como fazer isso tudo sem perder a essência daquilo que devemos ser enquanto jornalismo de referência e de qualidade. E é bastante complicado manter esse equilíbrio e manter-nos saudavelmente sérios e investidos num mundo em que a informação consumida em 10 segundos parece ser satisfeita. Nós fazemos inquéritos (pesquisas), nos preocupamos com o público, temos desde há 36 anos um projeto de literacia para as escolas. Nos inquéritos, as pessoas dizem ver as notícias no Instagram e não sentir necessidade de ler mais.

Lena – É uma nova geração de leitores e de jornalistas, certo?

David – Sim, e temos desafios. Uma geração de novos jornalistas vai nos dar outras perspectivas, só que os meios são também muito exigentes. O vídeo é um meio muito exigente, o próprio som é um meio exigente e obrigou as redações a adquirirem equipamentos e aprender tudo internamente. Agora, nós conseguimos estar bastante mais presentes, acertar o nosso tempo com o tempo deles, mas há depois outro problema adjacente a este: é que eles estão em plataformas onde é muito mais difícil para nós monetizar os nossos conteúdos e ter um modelo de negócio do que era tradicionalmente a compra do jornal ou a própria assinatura.

Lena – Bem complicado mesmo. Mas como você olha para si e para o Público e o PB Brasil em cinco anos?

David – Temos no Público conduzido alguns processos internos de discussão e alguns estudos com auditoria. Estamos a desenvolver neste momento um projeto que chamamos internamente de Público Mais, onde temos vindo a fazer contratações, o que é um momento muito estranho para acontecer com as modificações em nosso próprio trabalho.

Acho que daqui a cinco anos talvez não tenhamos uma edição impressa, que é obviamente estrutural em relação àquilo que somos hoje. Mas acho que teremos muito maior capacidade para nos conectarmos com um público ainda mais alargado. Há meios, como as televisões, que serão nossos concorrentes, mas em plataformas diferentes das de hoje.

Espero que o jornalismo continue a ser de profundidade e de qualidade, se calhar com mais personalização, com mais interação com a comunidade de leitores, que é muito crítica e muito observadora da atualidade.

Há desafios políticos, no que diz respeito à democracia, em que o papel de um jornal como o Público é ainda mais relevante. Mas para ser verdadeiramente relevante tem que ser escutado. É preciso fazê-lo chegar às pessoas e é nessa batalha que estamos. Acho que daqui a cinco anos estaremos mais fortes porque saberemos trabalhar com melhor capacidade.

Lena – Na sua opinião, além da troca de conteúdos e parcerias, como pode ser intensificado o relacionamento entre o jornalismo brasileiro e o jornalismo português?

David – Há áreas onde poderíamos desenvolver trabalho conjunto, como na da desinformação, no combate às fake news. Uma área que é muito apoiada por fundos comunitários.

Lena – E para fechar: qual seria o seu maior desejo como jornalista para aproximar os dois países? Algo assim para os profissionais dos dois países se conhecerem e depois desenvolverem algo em comum…

David – É um desafio enorme fazer uma correspondência entre os dois continentes que seja merecedora da atenção do público. Temos tido, de facto, muitos exemplos de troca de cultura, nomeadamente, a que se calhar não estamos tão atentos, se calhar guardar mais atenção da nossa parte para ver se conseguimos também que as trocas se refletissem e trabalhar juntos. Sou muito prático e acho que há áreas de jornalismo, nomeadamente de investigação, que deveriam ser trabalhadas entre órgãos diferentes. Acho que na frente da economia, na frente do crime, nas questões de política, porque não fôssemos consumidos pela voracidade destes dias, já tínhamos tido a obrigação de falar aos conjuntos.

A influência dos evangélicos no partido Chega, as questões do narcotráfico do Brasil e da entrada de grandes quantidades de droga em Portugal já deveriam ter motivado trabalhos conjuntos entre órgãos de comunicação social dos dois países. Acho que é a melhor maneira para estreitar esses laços. Aqui, sem a procura de parcerias comerciais, sem essa ideia de rentabilização. Quer um lado quer o outro, nós temos a obrigação de perseguir, mas que às vezes custa o que é importante, que é fazer o ótimo.

0 0 votos
Article Rating
Inscrever-se
Notificar de
guest
0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários