Protagonista nos bastidores, ex-editor do Daily Mail gravará série para TV

Luciana Gurgel

* Por Luciana Gurgel, especial para o Portal dos Jornalistas

Jornalistas não costumam ser notícia – e muitos defendem que profissionais da imprensa nunca deveriam ser notícia. Mas há alguns que entram para a história e acabam ganhando notoriedade para além das fronteiras das redações. No Reino Unido, o ex-editor Paul Dacre, que durante 26 anos dirigiu o popular Daily Mail, está nessa categoria.

Ele voltou às manchetes nos últimos dias, quando foi anunciada uma série na emissora Channel Four denominada nada modestamente O mundo segundo Paul Dacre. A série de três episódios só vai ao ar em 2021, mas o anúncio agitou os meios jornalísticos e políticos.

Dacre deixou o cargo em outubro de 2018, ao completar 70 anos. Não houve uma razão formal para a saída, e ele passou a integrar o conselho da Associated Newspapers, que edita o jornal e também outros títulos como o Metro, distribuído gratuitamente e com tiragem superior a 1,4 milhões de exemplares, segundo o órgão de auditoria ABC. 

Paul Dacre

Mas por que Dacre merece uma série no Channel Four? Porque ele é considerado por muitos como um dos principais influenciadores da opinião da classe média conservadora britânica. Porque poucas vezes deu entrevistas, preferindo manifestar-se por meio da edição do Daily Mail, na maioria das vezes nada imparcial. E porque o Channel Four, canal escolhido para transmitir a série, foi um dos principais alvos de suas críticas ácidas, ao lado do esquerdista The Guardian. 

Para se ter uma ideia da importância do jornalista, a matéria sobre o documentário foi publicada na edição dominical do The Times, um dos principais jornais britânicos, com o título Paul Dacre sai das sombras. Outros veículos noticiaram em sequência usando termos como Dacre abre a tampa. Pode-se imaginar que vem chumbo grosso por aí. 

Na verdade, o que se espera é que ele fale abertamente, coisa que raramente fez até hoje, sobre suas visões que determinaram a linha editorial do Daily Mail em momentos históricos como a morte da Princesa Diana, o Brexit e a gestão dos primeiros-ministros Tony Blair e David Cameron. E que de fato influenciaram os rumos da política, da cultura e do jornalismo britânicos. 

Paul Dacre é um conservador convicto e fervoroso. Contrário à esquerda e aos movimentos liberais. Defensor do Brexit, como se pode esperar de um conservador nacionalista. Representa bem a classe média e a população da Inglaterra menos urbana, a chamada Middle England. Ele conseguiu encarnar como poucos o sentimento dessa parcela da população, e assim não apenas influenciou os destinos do país mas também levou o Daily Mail a recordes de circulação. 

Título bombástico numa das capas mais célebres de Paul Dacre

Uma das capas mais célebres e ousadas da imprensa britânica foi dele. Quando a Corte decidiu que deveria haver uma votação no Parlamento para validar o resultado do referendo do Brexit, o Daily Mail saiu como o bombástico título Inimigos do povo, e a foto dos três juízes.

O jornalista fala pouco, mas quando abre a boca não economiza nas críticas a outros jornais, bem longe da quase folclórica fleuma britânica. Um dos pontos altos de sua metralhadora giratória foi um discurso na Sociedade dos Editores em novembro passado, logo após deixar o posto no Daily Mail. Em meio a um rosário de críticas a todos os veículos do Reino Unido, defendeu o valor da imprensa livre no país – livre inclusive para cometer os erros que apontou. E finalizou fazendo algumas previsões. 

Para Dacre, a BBC vai perder o atual poder devido ao impacto do streaming sobre o pagamento da taxa hoje obrigatória, e isso vai dar margem a uma outra rede de centro-direita tomar seu lugar. Ele acredita que os gigantes da tecnologia passarão a ser regulados como a imprensa tradicional, mas acabarão tendo seu monopólio quebrado, como ocorreu com os barões do petróleo do século passado. 

Sobre os algoritmos que hoje determinam o fluxo das notícias, prevê que não suplantarão as mentes brilhantes que amam fotos, manchetes e palavras, e que têm uma extraordinária empatia com os leitores. Por fim, crê que os jornais terão vida longa, contra muitas previsões em contrário. 

 “De uma coisa estou absolutamente certo: a humanidade tem fome de notícias, de análise e, sim, de sensacionalismo e fofoca – isso é tão velho como o tempo”, disse o veterano editor. 

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