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quinta-feira, dezembro 2, 2021

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Iniciativas promovem diversidade e inclusão de minorias na mídia

Por Luciana Gurgel

Luciana Gurgel

O movimento Black Lives Matter elevou o debate sobre discriminação racial a outro patamar. Mesmo tendo perdido espaço nas manchetes diárias, continua inspirando iniciativas de inclusão e provocando questionamentos sobre práticas de indivíduos e empresas.

No Reino Unido, um relatório do programa Diamond, publicado na semana passada, apontou a diminuição da participação de negros e minorias étnicas na televisão do país entre agosto de 2019 e julho de 2020.

Gerido pela Creative Diversity Network, o programa tem como objetivo verificar se a população vê-se refletida na tela e se as equipes de produção espelham a composição da força de trabalho britânica. Nas telas, a queda de negros e minorias foi de 1,5%. Nos bastidores, caiu 0,5%. Examinando-se apenas o segmento factual, houve redução de 15,8% para 14,8%. Em current affairs, foi de 22,6% para 19,5%.

Entre 2016 e 2020 a participação dos negros manteve-se no mesmo patamar, 6%. Ainda que alguns números estejam em linha com divisão demográfica do país, não refletem as demandas sociais por mais representatividade.

URL, uma rede de veículos de minorias étnicas

Sara Lomax-Reese

Enquanto isso, do outro lado do oceano, duas jornalistas cansaram de esperar por mais espaço e resolveram agir. Sara Lomax-Reese, com passagens por CNN, Wall Street Journal, e S. Mitra Kalita, fundadora de uma rádio para a comunidade negra na Pensilvânia, uniram-se para criar a URL Media, coalizão de veículos dedicados a cobrir temas de interesse de minorias étnicas que acaba de ser lançada nos Estados Unidos.

Trata-se de uma rede descentralizada de organizações de mídia negra e marrom de alto desempenho. A alusão a mídia marrom refere-se aos veículos voltados para comunidades de outros grupos étnicos, sobretudo hispânicos e latino-americanos.

A ideia é compartilhar conteúdo, formar parcerias com meios de comunicação e ajudar na geração de receita para os participantes. A forma como a mídia tradicional cobriu o BLM e práticas racistas que acabaram expostas pelo movimento motivaram a criação da rede, segundo Sarah:

“Foi como uma bola de neve. Achamos que havia algo a fazer para falar sobre aquele momento de uma maneira diferente”.

Sara acha que chegou a hora de reinventar a indústria, apoiando organizações pertencentes e lideradas por representantes de minorias étnicas que atendem a comunidades há muito negligenciadas e desvalorizadas.

Ela propõe uma abordagem diferente para diversidade, equidade e inclusão: “Vamos criar algo que ajude a construir e a elevar nossas vozes em nossos próprios termos. Em vez de sermos parceiros apenas no nome, queremos nos tornar centros de experimentação e líderes”.

Racismo no NYT, um caso que merece reflexão

As práticas racistas de empresas de mídia a que Sarah se refere continuam saindo do baú. O caso do jornalista Donald McNeil Jr., que teve que deixar o New York Times na semana passada depois de uma revolta na redação, é um exemplo de conduta reprovável dele próprio e do risco assumido pela direção ao não tratar a história com severidade desde o início.

McNeil Jr. era o jornalista mais importante na cobertura da pandemia, uma das pautas mais importantes dos últimos tempos, em um dos mais importantes jornais do planeta. Especializado em ciência, estava no Times desde 1976 e cobrira doenças e epidemias como Ebola, Zika e Aids, com livros publicados.

A vivência direta em países de vários continentes não foi capaz de evitar o deslize. Em uma viagem educativa com alunos do ensino médio ao Peru organizada pelo jornal em 2019, o jornalista usou linguagem racista (a “palavra com n”, grave xingamento a negros na língua inglesa). E disse não acreditar no privilégio branco.

Os pais reclamaram, provaram que as falas existiram, e o jornal abriu uma investigação. Mas concluiu que ele não tinha feito por maldade e nada aconteceu.

Há duas semanas o caso foi denunciado pelo site The Daily Beast. Depois de uma carta aberta à direção assinada por 150 funcionários, o Times anunciou o desligamento de McNeil Jr.

Sob a ótica de gestão de crises, a condução beira a inocência. Com tanta gente envolvida e tendo como protagonista uma celebridade, era pouco provável que a história ficasse oculta para sempre. Coisa que um jornal deveria saber, ele próprio um grande descobridor de erros alheios.

Sob a ótica do compromisso em combater a discriminação racial, a falta de ação diante de um episódio condenável ocorrido em sua própria casa deixa o The Times em uma posição desconfortável. E de certa forma, dá elementos para quem, como as fundadores da URL, acha que a grande imprensa não tem feito tudo o que está ao seu alcance para acabar com o racismo.


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